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O conceito de personalidade

Por Daniel Teixeira

Republicação do nº 61 de Março de 2010

O conceito de personalidade numa perspectiva mais sociológica que psicológica tem a sua origem na constância que se observa no comportamento do indivíduo durante um período de tempo e numa gama de situações diferentes.

Derivando «personalidade» da palavra pessoa é assim legítimo pensar-se que a personalidade possa ser vista de uma forma diferente quer por diversos observadores, ( todos eles dotados da sua personalidade própria ) quer pelos diversos actuantes no seu processo pessoal ( todos eles, também, dotados da sua personalidade própria ), sendo esta analisada durante o tempo e nas mais diversas situações.

Contudo, o termo personalidade designa sobretudo a constante dos comportamentos individuais, ou seja, o conceito de personalidade é uma generalização abstracta de diversos pontos comuns de comportamento encontrados quer num individuo quer num grupo de indivíduos. Por outras palavras, pode dizer-se que o conceito de personalidade se obtém através de uma soma de comportamentos posteriormente reduzidos aquilo que tiverem em comum entre si.

Em termos psicológicos o conceito de personalidade designa, de maneira muito geral, a unidade individual do comportamento e do seu fundamento interno, ou seja, designa a conformidade de um determinado comportamento com o seu fundamento interno, sendo este do foro individual e psicológico de um indivíduo dado.

Enquanto que a sociologia se ocupa da manifestação exterior da personalidade, a psicologia interessa-se mais pela relação de personalidade dentro do próprio indivíduo. Não descura, como será evidente, os aspectos em que a mesma se manifesta exteriormente, mas ao fazê-lo pretende antes observar ou analisar a conformidade existente entre aquilo que é a manifestação exterior do comportamento de um dado indivíduo e aquilo que se pensa que esse mesmo indivíduo é, em si, dentro de si.

Por outro lado, ainda, o conceito de personalidade, ao derivar da palavra pessoa, ou seja, ao querer dizer aquilo que uma dada pessoa é, afasta-se por vezes da pessoa por não ter implicações filosóficas de significado. Ou seja, enquanto que a pessoa pode ser analisada de diversas maneiras, não excluindo o seu ser, o seu conteúdo - matéria, a sua existência, a personalidade pressupõe desde logo tudo isto e não tem necessidade de se debruçar sobre estas questões. Ou seja, a personalidade só se analisa porque a pessoa é, tem uma determinada substância e porque existe.

Sem a pessoa como entidade pressuposta não há estudo da personalidade, enquanto que a pessoa pode ser estudada em diversos aspectos que nada, ou pouco, têm a ver com a personalidade, como é o caso da sua conformação biofísica, apesar de todos os pontos de contacto que algumas escolas fizeram neste plano.

Na verdade, o aspecto do seu comportamento fisiológico, como apresentamos por exemplo imediatamente atrás, não depende nem é característica para avaliação da personalidade, embora algumas intrusões nesse campo tenham sido feitas por psicólogos que serão referidos à frente e nomeadamente o mais conhecido que é Freud.

Desde já gostaria de deixar claro que, no nosso entender, Freud não avalia o comportamento fisiológico do indivíduo em si, antes se serve dele, desse comportamento fisiológico pré-existente, para defender as suas teses. Assim, Freud não estudou a fisiologia humana enquanto tal, a fisiologia da pessoa, mas sim as suas manifestações exteriores, a parte fenoménica, para fundamentar sistemas e relações interiores e exteriores no próprio indivíduo.

Por outro lado, outras teorias defendem que a pessoa deve ser entendida como o ser racional no seu todo, dotado de consciência e de razão, daí que neste casos a análise da personalidade, como manifestação da pessoa, ou como processo interior à pessoa, se não distinga muito do conceito de pessoa em si.

Já no mundo jurídico a situação acaba por ser declaradamente pela aquisição da personalidade ( jurídica ) desde o nascimento até à morte, apresentando-se a personalidade em si como uma coisa feita e baseando-se em critérios que permitam a igualdade de todos os seres humanos.

Já é dentro da aquisição da personalidade que se processa o desenvolvimento da mesma, ou seja, a personalidade não se constrói simplesmente, segundo estas teorias, reconstrói-se, aperfeiçoa-se, desenvolve-se, através de todo um conjunto de mecanismos que pressupõem e colocam balizas legais protectores da personalidade enquanto não ( ou quando não ) satisfatoriamente formada.

Por outro lado alguns direitos da personalidade mantêm-se e transmitem-se após a morte da pessoa ( caso do direito ao bom nome, à imagem, etc.) o que nos afasta irremediavelmente da pessoa e da relação da pessoa com a personalidade.

A personalidade é, assim, um património humano, de uma sociedade, e não de uma pessoa em especial e em exclusivo. Por outras palavras poderia dizer-se que se concede personalidade ( um determinado tipo de personalidade ) quando ela ainda não existe e se mantém a personalidade ( um determinado tipo de personalidade ) quando ela deixa de existir.

No aspecto que pretendemos estudar mais detalhadamente neste trabalho é corrente aceitar-se duas definições do conceito de personalidade:

A personalidade como sistema de referência, como totalidade e como conexão global e articulada de todos os processos e estruturas da constituição psíquica individual. Neste sentido, a personalidade define-se, por exemplo, como a «soma total organizada dos padrões reais ou potenciais de comportamentos» ( Eysenck), como «hierarquia dos estratos psíquicos» (Rothacher) ou como «estrutura única e singular de características» (Guilford).

A personalidade como correlação dinâmica, isto é, como sistema de energias internas e determinado pelas valências ambientais e submetido à mudança do tempo. Neste sentido, a personalidade define-se, por exemplo, como um campo estruturado de organismo - meio, dentro do qual cada aspecto se encontra em relação dinâmica com os outros ( Murphy ) ou como «a ordenação dinâmica daqueles sistemas psicofísicos que, no indivíduo, determinam as suas adaptações singulares ao meio ambiente» (Allport), sublinhando-se assim, que a personalidade é «menos um processo acabado do que um processo progressivo». «Ela possui, sem dúvida alguma, características estáveis, mas encontra-se sujeita a modificações constantes». (Allport).

Tal como se diferencia a personalidade de pessoa também se diferencia esta de carácter. O carácter, apesar de o senso comum o entender de forma diferente por vezes, ou seja, como sendo um acentuar de uma determinada característica ou de um conjunto de características da personalidade, é o carácter antes de mais o que distingue um indivíduo ou uma espécie de outros indivíduos ou de outras espécies.

Logo, o carácter é a individualidade pura, ou seja, é aquilo que há de estático e imutável numa pessoa e que por ser diferente diferencia essa de outras pessoas ( ou outras espécies).

Como se viu acima (Allport) a personalidade pode sofrer modificações, ou pode ser a « soma total organizada dos padrões reais ou potenciais de comportamentos» ( Eysenck). Assim, e contrariamente, o carácter não tem dinâmica própria, é - e será - aquilo que for.

 

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