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FEEDS


 

A COLUNA DE JORGE M. PINTO

CASOS AO ACASO

PISO SALARIAL

-Antes da nascença do Quadro Administrativo os cargos a ele correspondentes foram inicialmente providos por indivíduos oriundos do Exército (Oficiais e Sargentos). Posteriormente foram gradualmente substituídos por profissionais optantes pela carreira depois, claro, de submetidos a concurso para aspirantes, de onde partiram para o percurso normal da escala hierárquica.

(De aspirante administrativo a administrador de concelho ou circunscrição, quando completada a carreira consumia-se um lapso de tempo de 20, 30, 40 e até mais anos de serviço de total devoção, muitos se tendo deixado ficar pelas categorias intermédias quer por falta de vagas de acesso, por recusa de prestação das necessárias provas de concurso, quer por nestas simplesmente não terem obtido a necessária e competente aprovação)..

Entre os administradores de 1ª classe de todas as províncias ultramarinas, por excepcionais qualidades do serviço demonstradas (escolha, portanto) eram feitos os Intendentes e destes os Inspectores Administrativos. Ao posto de Governador de Distrito, só vieram a chegar verdadeiras excepções - do meu conhecimento apenas duas - em todo o ultramar.

Nos fins de 1930 princípios dos anos 40, foi criada a Escola Superior Colonial (que assumiu depois outra designação) de onde saiam Diplomados e/ou Licenciados que, optando pelos Quadros Administrativos das diversas Províncias, eram directamente admitidos como Chefes de Posto Estagiários, e, sem qualquer outra prova ou concurso, ascendiam às categorias imediatas tão logo nelas se verificassem vagas, porém, sempre em regime de alternância com os colegas oriundos da classe de aspirantes .

Desta forma, os primeiros formados a surgir nas províncias, fizeram carreiras verdadeiramente fulminantes.

Em pouquíssimo tempo saindo de chefes de posto, logo 6/8 anos depois chegaram à categoria de Intendente para daí passarem a Inspectores – em 10 / 12 anos apenas..
(Desses meteoros se fez mesmo um dos tais dois únicos Governadores de Distrito de nomeação de todo o Ultramar Português de que julgo ter conhecimento. Todos os demais Governadores o foram por meras comissões de serviço, normalmente com a duração de 4 anos, que até podiam ser prorrogáveis).

Um destes «Chefes da Escola», qual foguete, em 10 anos chegou ao posto de Inspector, e nessa qualidade exercia funções no posto onde estava colocado o seu idoso ex-colega de categoria, antigo vizinho de posto de apenas oito anos atrás.
Estávamos nos princípios da década 50.

O Inspector viu um operário a girar manualmente uma roda parte do sistema com que ali se dava carga às baterias destinadas a abastecer o P-19 (1)
Irónico, jocoso e altivo, o Inspector, assumindo ar inquisitorial logo interroga o antigo colega de categoria e seu ex-vizinho de Posto:
- O Chefe pode dizer-me qual é o salário daquele trabalhador ?
Apercebendo-se da intenção da pergunta, e porque o trabalhador não era senão indivíduo que cumpria pena de prisão e naturalmente estava a ser usado para tocar a roda sem outro retorno que não o da alimentação proporcionada pela sua condição de detento, o Chefe responde-lhe n a sua voz velada:
(tinha sido submetido a uma intervenção cirúrgica e praticamente perdido o dom da fala):
- Atente no facto de que a tabela de salários ainda não foi alterada, desde que Vossa Excelência deixou a categoria de Chefe de Posto !_________________________________________
1 – Estes P-19 mais não eram que rudimentares aparelhos de comunicação - rádio fabricados e usados no equipamento dos carros de combate dos exércitos aliados e no deserto do Saara, enquanto durou a II Grande Guerra Mundial. Era sobre eles - sobras de guerra - que assentavam as comunicações da malha administrativa das Províncias Ultramarinas, além da quase totalidade das estações de Correios Telégrafos e Telefones espalhadas pelos territórios ultramarinos que os usavam para as suas comunicações. Geravam ondas de propagação muito limitada (foram criados para alcançar até 80 quilómetros), mas, uma boa antena e condições atmosféricas favoráveis muitas vezes lhes ampliavam substancialmente o alcance, não raro chegando a fazer-se ouvir de Norte a Sul e de Este a Oeste, de todo o imenso território de angolano....


LICENÇA SEM... CONHECIMENTO

- No extremo sudeste de Angola, mesmo sobre a fronteira com a antiga Rodésia, existia um posto –LUIANA de seu nome - que se situava largas dezenas de quilômetros depois de passadas as portas do fim do mundo (nome por que ficaram conhecidas duas raquíticas laranjeiras ladeando os trilhos - que não a estrada - que serviam de pista para ligar o posto à sede da circunscrição e esta à capital do distrito.

Ao LUIANA, - praticamente sem população mas com área administrativa imensa que apenas existia para garantir a ocupação territorial - só ia quem ao Luiana quisesse ir e sujeitar-se a percorrer intermináveis trilhas em que a distância se medida por horas de viagem e não por quilômetros.
Por estas trilhas, fazer em automóvel -só 4x4- médias de 15 quilometros / hora, era bater record’s.

Os profundos sulcos por onde rodavam os pneus, obrigavam o veículo às curvas e lhe davam direcção independentemente da vontade do respectivo condutor. Sair deles nem sempre era tarefa fácil. Necessário era forçar, e muito, a direcção, e não raro à força do braço era necessário juntar o peso do próprio tronco para lograr obter o resultado requerido.

O Luiana, não tinha praticamente população na sua área não existindo comércio, pecuária, agricultura, pesca ou outra actividade. Os poucos naturais – nomades bosquímanos ou otentotes - subsistiam da caça.

Neste ermo, nem a própria alimentação era simples pelo que o Chefe se via forçado a sobreviver isolado, em meio ao nada, e onde as mais rudimentares casas comerciais pertenciam às pequeníssimas e distantes povoações da antiga Rodésia de todo mais próximas de si que qualquer outra do lado angolano.

O representante da autoridade portuguesa acabava, assim, por estar mais ligado à vizinha Rodésia do que à sede da própria Circunscrição (Mavinga) a que pertencia. Habituado ao isolamento por longos períodos, sem receber sequer a visita do Administrador, conta-se que duma feita, o Chefe terá deixado ao seu auxiliar africano várias notas oficiais escritas, cada uma com data de meses próximos / futuros e, através da África do Sul, terá seguido para LISBOA, onde se manteve por meses, na situação por si criada de licença....sem autorização ou conhecimento de ninguém a não ser do próprio.

Por essa mesma via terá regressado ao seu posto sem que a ausência tivesse sido notada..
Diz-se que o facto (de que terá sofrido as naturais conseqüências) só chegou ao conhecimento superior porque ele próprio terá dado com a língua nos dentes.

 

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