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Vou-me embora para uma qualquer Pasárgada
Por Afonso Santana
Na continuação do texto glosando o poema de Manuel Bandeira «Vou-me embora para Pasárgada» (ver número anterior e anteriores e este seguindo a sucessão) vou repetir que o titulo base do meu trabalho é «Vou -me embora».
Mas ir embora é mesmo ir embora? Quer dizer, não serão antes e apenas palavras que se lançam, um desabafo, um desejo, uma fantasia? No fundo ir embora é sempre não ficar num dado lado mas ir para um outro.
Ora, a autora que trouxe hoje, e que foi prometida na semana anterior, sabe escrever e sabe dizer aquilo tudo que faz falta para fazer um texto muito interessante. Contudo, o texto, tal como o apanhei na net e quando o apanhei vem assinado por um tal anónimo Miguel , indivíduo do sexo masculino.
A senhora em questão certamente que preza bastante o seu texto mas eu não tenho condições para saber quem o escreveu nem de lhe dar os devidos créditos:
«Se quiseres eu vou-me embora»
1
Assim por assim, antes os chinelos descansados em cima de uma pirâmide de
livros, o robe apertado a aconchegar-me o pescoço que é onde sinto mais o frio,
o conforto de um radiador e um bule de chá de lúcia-lima a fervilhar no bico do
fogão à espera que a minha filha se deixe de decotes em V e pregas a rigor e
assome depressa à cozinha por forma a deter a ebulição de manchas difíceis de
limpar até mesmo com a esfrega de palha-de-aço.
Assim por assim, antes a minha mais velha, que nunca sonhou ser nada a não ser
assistente social e se esforça como um touro às marradas nos estrados vermelhos
dos compêndios, serpenteando iludida entre capotes dançarinos e pares de
bandarilhas que a impelem a encurvar a coluna perante os aplausos aficionados
dos professores.
Já a minha mais nova, três anos mais nova não é assim tanta diferença, passa a
vida a mirar-se ao espelho, um rectângulo vertical exposto na ombreira da porta
sob a veemência dos meus protestos, ensaiando passos decorados de amigas das
amigas ou de magazines femininos com artigos da especialidade que lhe incham a
cabeça de ideias, ele é agências de modelos e castings para publicidade, a cara
enquadrada numa capa de revista ladeada de anúncios a pensos higiénicos e novos
sabores de preservativos, ele é sessões fotográficas em casa de agentes
estrangeiros dos quais nunca ouvi falar e convites de gerentes de discotecas que
lhe pedem para se pôr a abanar a cintura em cima das colunas de som por umas
míseras notas por noite.
A minha mais nova, três anos mais nova não é assim tanta diferença, esbanja uma
fortuna de telemóvel a pigarrear com o namorado, um sujeito bexigoso que me
empesta a casa de fumo e um pivete a naftalina de fugirmos de ao pé dele e se
põe a roçar aquela cara de mongolóide nos decotes em V da minha menina, nas
minhas barbas, imagine-se, um latagão mais velho que ela, três anos mais velho
já é alguma diferença, com pretensões a escritor, um estafermo que mal sabe
alinhavar duas frases a eito e me acumula a escrivaninha de folhas impressas com
estórias minimalistas que às duas por três a metem a ela ao barulho, a minha
mais nova, três anos mais nova não é assim tanta diferença.
Mas olhem, assim por assim, preferia que ela se casasse com o panhonha das
letras e fosse viver mais ele para uns hectares no Alentejo, engordasse vinte
quilos e desistisse de uma vez por todas da mania das passeréis, a gente vê cada
coisa na televisão que não há maneira de não se assustar, as tipas todas
escanzeladas, dando ares de passarem fome, a minha mais nova que se queixa de
ser demasiado magra e me afina a balança da casa de banho sob insultos numéricos
de avaria, tipas perfiladas à guisa de papel de arquitecto, quase invisíveis,
inexistentes, fantasmas enfileirados a fungarem o nariz nas passadeiras exibindo
os restos de nádegas e mamas e sabe Deus mais o quê aos flashes dos fotógrafos
que, mais cedo ou mais tarde, acabam sempre por levá-las para a cama, grandes
camas cor-de-rosa em forma de coração com dosséis de cortinado, onde se encenam
todos os géneros de ordinarices que possamos imaginar, propondo-lhes em troca
ascensões a jacto para o topo das carreiras, os cabrões, não há-de a gente se
pelar toda com escumalha dessa por aí.
Por isso, assim por assim, e caso não consiga arranjar melhor, é deixá-la
atrelar-se de vez ao projecto de homem que foi desencantar, a quem prometi
terminar de ler a miséria de oitenta páginas deixada a estrumar em cima da
máquina de lavar roupa, e pode ser que um dia destes lhe dê na veneta e decida
seguir as passadas da irmã, de momento aqui ao lado a cirandar de um canto para
o outro empinando termos técnicos esquisitos dos quais ignoro completamente a
pertinência de emprego e o valor da utilidade.
2
As vezes dou comigo a falar sozinha. Para as paredes. Não é bem falar,
entenda-se, é mais esta espécie de ladainha interior com que me entretenho
sempre que calha não estares em casa. Tu que nunca estás em casa. As vezes chego
mesmo a duvidar que existes, que me entras pelo quarto adentro surpreendendo-me
no final de um sonho ou já meia entrada na bátega do duche.
Dizes cheguei sem olhares para mim e recostas-te como uma rocha, colado ao
volume das páginas de um livro de cabeceira. De um livro. Sempre preferiste os
livros. As vezes irrompo enevoada por um biombo de vapor, de toalha enrolada à
cabeça como se um turbante das arábias, e interrompo-me de permeio numa palavra
ao descobrir-te deitado na cama.
Calo-me na esperança de que não tenhas ouvido, não tenhas reparado nos vocalizos
a que me entrego por distracção quando calha não estares em casa. Tu que nunca
estás em casa. Que a hipnose de um parágrafo te desvie a atenção e liberte
apenas no momento exacto em que eu disser já chegaste numa expressão retórica
que retribuis com um cheguei que na verdade se assemelha ao silêncio de tumba
com que prossegues a leitura.
Que não desvies o olhar enquanto desenrolo o toalhão e me apresso para as
gavetas da cómoda numa fuga desenfreada, por forma a que me não vejas, não
repares que existo e te entro pelo quarto adentro, surpreendendo-te no final de
um capítulo ou já meio entrado no filtro do cigarro. De modo a que não olhes
para mim a perguntar então agora falas sozinha, a pensares está escanzelada,
cada vez mais escanzelada, a inquirires se já jantei ou se quero que faças
alguma coisa para comer.
As vezes dou comigo a comer sozinha. Com as paredes. Não é bem comer,
entenda-se, é mais esta espécie de braço-de-ferro com que me entretenho com três
bagos de arroz e uma ervilha dissidente que teima em saltar-me do prato e
esborrachar-se contra a toalha numa fúria desmedida, imensa, como as páginas de
um livro, um romance ou um ensaio, uma resma de papel mais importante do que o
monte de ossos que se passeia à tua volta por um minuto de atenção, afecto, um
minuto de ternura, um minutinho como nos livros, onde coabitas com personagens
que crês serem verdadeiras, os teus verdadeiros amigos, a tua verdadeira
família, a tua verdadeira mulher, pessoas feitas de vogais e consoantes a quem
atribuis autêntico valor, conferes carne e ossatura, sangue e personalidade.
Enquanto que a mim. A mim enxotas-me quando te provoco com a televisão ou os
rugidos da aparelhagem, os quais te levam a soerguer as sobrancelhas
sugerindo-te um se quiseres eu vou-me embora que me recambia direitinha à
solidão de um episódio de novela ou de um concurso daqueles onde os concorrentes
falham as perguntas mais óbvias, as datas mais básicas, os rios mais evidentes,
as batalhas mais devastadoras.
Miguel novembro 2003
O texto acima é, para mim, escrito por alguém que merece todos os louvores e o facto de «funcionar» como conselheira literária do namorado da filha ( o tal bexigoso) dá-lhe uma qualificação que eu penso ter feito com que o texto fosse encontrado pelo assinante Miguel em 2003 numa qualquer revista ou jornal menos regular. A escrita é solta, tem alguns clichés classe média alta e no fundo o... fundo que se retira do monólogo é que ninguém se vai de facto embora nesta história: apenas se apresenta uma tese, politematizada, de razões para «ir embora».
Nota: Este tema «Vou-me embora» continua no próximo número.