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Coluna: Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.

VIA-CRUCIS SEVERINA e Histórias que os Pescadores Contam

 

VIA-CRUCIS SEVERINA

O Severino chegou a São Paulo. Mal podia controlar sua ansiedade. Um enxame de gente. Sentiu vontade de urinar. Viu o cartaz da rodoviária: «sanitários - masculino». Entrou. Urinou. Dirigiu-se ao lavatório. Olhou-se no espelho: estava abatido!

Também pudera; três dias e três noites viajando! O dinheiro era pouco, difícil se alimentar bem. Saudade de um sururu de capote e pirão, carregado na pimenta malagueta. Severino sorriu. Ensaboou-se cabeça, rosto e braços.

Mochila nas costas atrapalhava. Livrou-se dela, colocando-a no piso do sanitário. Voltou ao lavatório, ensaboou-se novamente. Enxaguou-se. Que delícia; agora estava refrescado. Olhou de lado, procurando algo para enxugar-se.

Viu o zelador do sanitário dormitando numa cadeira, ao lado de uma mesa com papel toalha recortado, além de um pires com notas de um e dois reais, além de algumas moedas de cinquenta centavos. Perguntou ao zelador se tinha que pagar. O zelador lhe disse que o papel era ele que comprava e precisaria receber algo, senão teria prejuízo!

Severino concordou com o pobre zelador: tirou a camisa e enxugou-se nela. Após, conferiu no bolso da calça. R$ 5,00; era tudo que tinha! Olhou-se mais uma vez ao espelho. Aprumou-se. Agora vou encontrar o primo Raimundo lá no Capão Redondo. Estava tudo anotadinho no papel de carta do primo, endereço, mapa, linha de ônibus; tudo. E tudo isso dentro do envelope, no bolso da calça. Foi buscar a mochila: - cadê ela?

Perguntou ao zelador. Ele disse que nada havia visto. Severino olhava desconfiado para todos que entravam e saíam do sanitário. Todos eram suspeitos. Saiu à rua. Lamentava que a tia Maria, mãe do primo Raimundo, houvesse lhe confiado uma garrrafa de manteiga de leite de cabra, que havia trazido para o Raimundo matar as saudades.

Tal garrafa rendeu-lhe muito custo e cuidados, para que não se quebrasse. E o ladrão a havia levado com a mochila. Atravessou a praça defronte à Rodoviária. Parou para se situar: uma placa dizia «Pare»; outra dizia «Atenção»; outra «é proibido estacionar», outra «pedestre somente na faixa»; outra «vire à esquerda», outra contrapunha «vire à direita»!

Viche; quantas ordens!, pensou o Severino. Parecia estar num quartel ! Foi atravessar a rua, um moto-boy quase o atropela e ainda teve que ouvir um palavrão falando mal da «mainha»! Alguém o puxou energicamente pelo braço: era um militar que ordenava em altos brados, que atravessasse pela faixa.
-Que faixa? De quê está falando?

O militar o conduziu até a faixa e o largou.

Severino foi atravessar na faixa, conforme lhe ordenara o militar; o farol de pedestre mostrava um boneco vermelho.

Ouviu-se um baque. Tudo se silenciou.

- O primo Raimundo, do Capão Redondo, nunca o veria de novo.


Histórias que os Pescadores Contam

Ontonte, eu tinha lido a istória que o JG, de Itatiba contô, dum liga que foi pescá no Mato Grosso e iscuitô a vóiz duma pessoa dizeno, com voiz bem fraquinha:
-Quando eu estô...; quando eu estô...; quando eu estô... .

O tár foi observá e viu um remoinho adebaxo dum tronco de ingazêro, donde um gainho incostava num pedaço de disco LP antigo que tava girano no remoinho i se iscuitava: quando eu estô..., como já disse inhantes.

O tár viu que era um pedaço de disco antigo e campiô, do lado de fora i achô ôtro pedaço du mêmo disco. Cum jeitinho, incostô o novo pedaço no antigo e: i num é que o raminho passô dum pro ôtro i o tár iscuitô o Roberto Carlos cantano:
-«Quando eu estô...aqui, eu tenho um pensamento lindo!!!!»

Ara, seu J.G de Itatiba: eu creditei in tudo que o tár falô; viu?Sabe pruquê? Eu conto esse causo.

Se num me fáia as lembrança, isso aconteceu entre 1980 e 1981, num foi mêmo? Eu táva cuma turma do interior de São Paulo, pescano no Mato Grosso i levei uma vitrolinha que comprei uns quinze anos inhantes, quando trabaiva numa fábrica de vitrola em São Paulo. Levei um monte de disco de dupra caipira, musgas de raíz mêmo!.

Só que num tinha apercebido que nos meio dos disco, tinha um LP do Roberto Carlos, que foi lá por puro ingano!

Um da turma, meio intojado, quis que eu tocasse o Roberto Carlos; eu achei mió que não, mai ele insistiu tanto... Pus o disco na vitrolinha e fui dá uma vórta. Nesse entremeio o pau quebrô de verdade.

Foi um banzero danado. Se batero um em unzunzôtro, ficaro tudo escalabrado! O Texêra, o mais forte, arrancô o LP da vitrolinha e pisô incima dele, cuma fazia quando morava no Rio Grande do Sul: dançô a chula incima do disco e da minha vitrolinha.

Ele ainda tacô um pedaço do disco dentro d´água do rio e falô que num tinha ninguém que fazia ele iscuitá aquela musga intojada! Fico brabo mêmo, o pobre. Eu cá comigo pensei no quê a cachaça é capaiz de fazê cum home tão bom daquele ficá com aquela brabura toda....

Desacorçoado, catei os pedaço da vitrolinha e taquei inriba duma arve de ingazêro que debruçava no rio. Nóis tudo fumo imbora. Acabô a pescaria! Isso foi faiz tanto tempo, mai eu num isqueci.

Eu tô contano este causo, pramode de quê eu queria pedí um adjutório para o J. G. de Itatiba, que ainda tem seus contato com o tár amigo dele.

-Será que ocê, J. G. de Itatiba; num podia pedí pro tár do seu amigo í vê se no raminho que passava no disco indentro do remoinho num tinha a agúia da minha vitrolinha?

Eu ficava sastifeito si ele pudé fazê esse obzéquio pra eu.

Pode sê que o tár amigo num tenha oiado direito, num é mêmo?

 

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