Página de Carlos Funghi - Duas Crónicas
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Página de Carlos Funghi

Duas Crónicas: Ainda não consigo Aristóteles e O Caminho para a Felicidade

Ainda não consigo Aristóteles

Pois é, meu caro filósofo. Que coisa linda e profunda quando você diz: «O Homem precisa ser senhor de sua vontade e escravo de sua consciência».  

Não consegui ainda ser senhor de minha vontade. Minha consciência vai paulatinamente me fazendo seu escravo, mas sei que ainda falta muito, pois só terei a plena certeza que me tornei totalmente escravo dela quando eu for senhor de minha vontade.

Creio que consciência e vontade estejam intimamente ligadas.

Outra coisa, caro Aristóteles:

Você diz que não devemos esperar no outro a nossa própria felicidade. Aí é que estou completamente perdido. Explico: Quando estou com ela sinto-me numa espécie de paraíso; mais completo mais seguro e feliz. E passeando com ela de mãos dadas posso ver com maior lirismo as estrelas, os pássaros, sentir carinho pelos velhos sentados na praça.

Quando estou com ela meu digno filósofo, vejo-me como gostaria que eu sempre fosse: mais seguro, mais otimista, mais alegre e engraçado.

Quando estou sem ela? Ahhh! Bate-me um vazio danado, fico amargo e impaciente, minha inteligência vaza, meus complexos ganham forças, enfim, fico de dar dó.

E quando me deito com ela meu corpo ganha forma e graça em seu corpo. Torno-me um verdadeiro Hercules e pela madrugada afora em volta da minha casa é aquele cheiro de borracha queimada!

Vê meu amado filósofo o quanto estou em defasagem com teus ensinamentos?

Fazer o que, quando se ama e não se sabe ser de outra maneira.

Tenha paciência comigo mestre que ainda estou longe do que me pedes. Agarro-me ainda em Santo Agostinho que certa vez disse: «Meu Deus, salve-me, porém não agora...».

Carlos A Funghi


O Caminho para a Felicidade

Procurei-o pela vida afora sem sucesso, em minha infância sem saber que o procurava, em minha juventude lutando contra meus próprios temores, na meia idade tentando o sucesso.

E eis que atingindo a terceira idade onde comecei a depor do outro lado do rio tudo o que descobri não precisar, o caminho estava ali, simplesmente ao meu lado calmo e sereno me esperando.

Sim, foi somente quando me aceitei sem culpa e admiti que fiz o melhor que pude, embora esse melhor tenha parecido ter sido pouco. Foi somente quando não quis mais meu próprio peso é que ele se desfez.

O caminho para a felicidade me sorriu quando fui mais tolerante e mais ouvinte. Foi quando descobri que era também muito bom ter pouco dinheiro, não precisar comprar roupas de marca, me ensurdecer para a mídia. E me fez tão bem sentir que o pedaço de chão em que vivo não é meu e sim do planeta.

Bastou-me para essa certeza tão simplesmente olhar para o céu. E é um santo remédio olhar para o céu.

Cura inveja, brigas no trânsito, raiva de patrão, discussão de marido e esposa, todo o tipo de ansiedade.

Descobri depois em outra observação que o caminho para a felicidade nasce com a gente. Não importa condição sócio-econômica, religião ou raça.

Ele esta ali.

O que precisamos ter ao longo da vida é capacidade de não deixar que ele vá se afastando de nós...

Carlos A Funghi

 

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