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Poemas de Jorge Simões

 

Poema do Desamor Apátrida; Direitos Liberais; Ruído do Antes e Depois   

 

Poema do Desamor Apátrida

 

Flirtando ausências sólidas no fundo
No poço cá do espelho, feito um destroço
Estatelado contra as costas corcundas
De um velho magro, de ideias fundas

«Tenho oitocentos anos», diz
E quem te quer descrer? Bon... Well...
E crescem-lhe verrugas no nariz
Quando inventa Adamastores de papel

Sólida tristeza traz no dorso
Feita infantilidade, dor e esforço
O gigantone anão, o carregador

De vagas emoções de desamor
E eu flirto só comigo e só com ele
Assando na fogueira que me assa a pele

16 de Fevereiro de 1996

 

Direitos Liberais

 

Liberal carne, esparramada sobre a estrada social!
Conduzia à direita a 130 e vi, desfeita no meio da via,
A carcaça estarrecida de um cão já verde e de indefinida raça
Com o focinho meio perdido num charco ressequido cor de vinho.

No retrovisor foi-se perdendo aquele horrendo uivador
Não mais luzidio nem abandonado ao frio de direitos iguais
Do patrão, do recibo, da factura, da existência dura de qualquer cão
Desfeito, pouco a pouco, por uma festa na testa ou um murro no peito.

Então, já na minha fortaleza, no sofá junto à mesa, carreguei no botão
(Passava o noticiário económico na televisão)
E esqueci, contente, com um prato de massa à frente, aquele deprimente cão...

15 de Março de 1996

 

Ruído do Antes e Depois

 

Rac-rac, o bicho da madeira
No silêncio-grito destas salas
Vai ritmando escritas na cadeira
Feito um Bach insólito, uma Callas

Não sei se é porque o outro, tão cantante
Com os seus contratos e a sua revolução
Já se foi, lembrando os tempos de estudante
Que o rac-rac parece uma canção

Ou se a história, pura e simplesmente
Quando me frisam: «Sei os meus direitos!»
Me soa a coisa ouvida antigamente
Quando eram moda os versos imperfeitos

Falta dizer que o bicho-comilão
Roendo onde pode e onde alcança
Não chega nunca a ser bicho-papão
Mas tão somente canto da mudança

7 de Maio de 1996

 

 

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