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EDIÇAO NºLXIII , V NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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JORNADA CREPUSCULAR

Por: Mário Matta e Silva

O QUE SE COMEMOROU NO DIA 31 DE JANEIRO?

Ando por esta jornada crepuscular a remoer no calendário exaustivo das comemorações da  República que se iniciaram no dia 31 de Janeiro passado na cidade do Porto.

Enquanto o crepúsculo desce vou-me lembrando quanta fragilidade houve nessa suposta revolta de quartéis, que aconteceu dia 31 de Janeiro de 1891: «Os corpos militares revoltados no Porto se dirigiram pela calada da noite, para o campo de Santo Ovídio, na esperança de colherem o fruto que, de tão maduro, julgavam estar iminente – a queda do regime monárquico, considerada indispensável para levantar «de novo o esplendor de Portugal» segundo o relato do historiador Joel Serrão, ou, visto de outra forma:

«A insurreição militar no Porto, na madrugada de 31 de Janeiro de 1891, foi organizada localmente por alguns aventureiros e sargentos, à revelia da direcção do partido. Aproveitando o descontentamento corporativo dos sargentos do exército (…) conseguiram levantar uns 800 soldados, cerca de metade da guarnição, mas a sua republica não resistiu um par de horas à Guarda Municipal.» historiador Rui Ramos. Foi então desta forma, com um punhado de fardas em desalinho, que se levantaria o «esplendor  de Portugal»?

Triste cortejo de oficiais insatisfeitos, sem ligação ao PRP, e sem planos para fazer apear a monarquia em Santo Ovídio ! Tão frágil e tão ridícula foi afinal esta intentona! Nada haviam aprendido estes insurrectos com os verdadeiros republicanos, esses burgueses, intelectuais, militares, que mais se envolveram na acção programática do Partido Republicano Português.

Que ascensão se operou afinal desde as comemorações de Camões ou desde o ultraje do Ultimato Inglês, com esses primeiros ataques frontais ao Cartismo e ao Rotativismo vigentes, ou à monarquia decadente de então, que choraria em 1908 o brutal regicídio? Com estas interrogações enfrento mais uma jornada crepuscular, pensando nas fraquezas desse republicanismo assumido por ricos proprietários agrícolas como o era Henriques Nogueira, activista e grande teórico da geração de 1848, dentro de moldes socializantes de um Fourrier ou um Louis Blanc, num ideário quase comum a toda a Europa (triunfo da República em França, em 1870, proclamada em Espanha, em 1873/74, e que se fortalecia em Itália).

Intensiva e longa foi a tentativa de recrutamento de adeptos em todas as classes da sociedade liberal para o PRP, mesmo sentindo ainda a debilidade do assalto ao poder e da gerência da res publica, na década de 1890. O que se festeja então neste ano de 2010 senão os interesses de um José Relvas, também um rico proprietário agrícola, ou desses professores universitários como José Falcão, Teófilo Braga e outros que eram bacharéis, advogados, médicos, professores ou altas patentes do exército e da marinha que iam aderindo ao partido?

E o que tinham esses republicanos da década de 90 a ver com os da «Escola de Coimbra» (1865) ou os «socialistas utópicos» da Geração de 70, onde se perfilou Antero de Quental que, desiludido e derrotado, se suicidou nos Açores?

Brindar hoje aos revoltosos de 31 de Janeiro é hilariante pois nada os poderá ligar aos revoltosos do 5 de Outubro de 1910! E vendo bem, quantas fantasias existiram por detrás dessas diferenças entre republicanos, como no caso do Teófilo Braga, (com a sua carga de positivismo das boas literaturas de Comte e de Littré) e o antipositivista Sampaio Bruno!

Várias barricadas se poderiam levantar com esses adeptos do PRP que se entrincheiraram uns contra os outros, o que desde cedo debilitou a boa unidade desejada no seio do partido, de consciência pequeno - burguesa com uma dose de aventureirismo pelo meio. Veja-se ainda o caso, já depois de 1910, da cisão entre os grupos de António José de Almeida e de Brito Camacho (1911-13) e a balbúrdia governativa existente até à ditadura do republicano Pimenta de Castro, em 1915.

E é tudo isto que se está agora a evocar? E é tudo isto que se vai ensinar nas escolas? E onde ficam a igualdade, a liberdade e a fraternidade herdadas da Revolução Francesa e do nosso Liberalismo de 1820, de Garrett e Herculano?

Mergulhado no céu crepuscular o que vejo? Vejo certamente o que todo o honesto cidadão vê: uma republica de novo desacreditada, falida e de mal com a sociedade que anda de rastos, pelas ruas da amargura, enquanto se rebentam os foguetes pelos militares do 31 de Janeiro, e pela República velha, essa que só soube ser anti-monárquica e anti-clerical… e exauriu o País de governos e rebeliões sucessivas, penúria financeira e endividamento, não escapando aos males das ditaduras que a ensombraram. 9 de Março de 2010

 

 

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