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EDIÇAO NºLXIII
, V NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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COLUNA DE JORGE VICENTE

joão botelho, a corte do norte
talvez um dos maiores pecados do cinema português seja refugiar-se no velho
cinema de autor, intelectual, artístico, com uma bela fotografia, mas sem
personagens que nos cativem, sem aquele toque humano que caracterizou o
magnífico trabalho de bruno de almeida, the lovebirds. talvez seja isso ou
talvez seja apenas birra do público que teima em dizer mal do cinema
português apenas porque não o percebe ou não faz por perceber. todos os
argumentos são válidos e todos são falaciosos, depende do ponto de vista de
cada um.
quanto a mim, o maior pecado d'a corte do norte resume-se a uma só palavra:
teatro. muito do cinema de autor português (e aqui incluo, obviamente,
manoel de oliveira) é demasiado teatral, com falas retiradas de excertos de
livros, poemas, frases que pouca gente usa no dia-a-dia, a rejeição do falar
comum, quotidiano. (excepção: a caixa) claro que isso não tem mal nenhum,
mas retira um pouco da emoção ao filme, transforma-o numa obra literária e
não num filme propriamente dito. contudo, não deixa de ser um filme
interessante: agustina bessa - luís é uma excelente construtora de palavras,
uma poetisa; a madeira é um sítio magnífico e ana moreira tem um dos olhares
mais fortes do cinema português. contudo, neste filme não prende como
prendeu em transe, de teresa villaverde. é o que eu digo: olhar, emoção,
personagens de carne e osso a entoar pele em todos os poros.

(ana moreira numa cena d'a corte do norte)
a arte de roubar ou a arte de escrever inglês em linhas portuguesas

(soraia chaves em a arte de roubar, de leonel vieira)
não sei o que passou pela cabeça de leonel vieira quando decidiu filmar a arte de roubar totalmente em inglês. a resposta mais imediata seria: internacionalizar o filme, tornar o filme vendável, apelativo ao mercado internacional. no entanto, perguntamo-nos: será essa decisão uma decisão acertada?
na minha opinião, não porque um filme que é rodado em portugal, com actores portugueses, com personagens portuguesas, com situações portuguesas, com os táxis portugueses, até com cantores pimbas portugueses (e esses são os únicos que falam - «cantam» a nossa língua!!)
seria muito mais lógico filmar em português. e não me venham com a história de que grupos como os gift, silence 4, fingertips fazem a mesmíssima coisa porque não fazem: uma canção, apesar de toda a sua envolvente de comunicação, é, tal como o poema, essencialmente, um acto solitário.
o compositor, tal como
o poeta, cria a sua obra de arte sozinho, sem o apoio de todo um conjunto de
personagens que o acompanham. o poema e a canção é uma espécie de monólogo
que se compartilha. todos temos a liberdade de escrever na língua que
quisermos.
no cinema, é bem diferente. o que está perante o ecrã são, no fundo,
situações reais ou que mimetizam o real. personagens interagem entre si como
se estivessem à nossa frente, vivem, morrem, olham-nos nos olhos, nós
olhamo-nas, vivemo-las.
para ser o caso da música, os cantores teriam de se dirigir ao seu público em português o que, a acontecer, seria uma afronta tamanha para o público. e é esse o problema deste filme e, também, de todos os outros filmes que, para ganhar audiência, fogem da sua língua original para adoptar a língua estrangeira. e para quê?
ganhar o mercado
internacional. e apenas isso. se leonel vieira decidisse apresentar o filme
em português apenas para o mercado local (o nosso) e em inglês para o resto
do mundo, seria muito melhor, mas assim....
e perguntam-me: estás sempre a falar da língua. e do filme, não se fala? eu
falo: soraia chaves está deslumbrante (prefiro-a mais discreta, onde se nota
pouco), nicolau breyner é excelente como sempre, ivo canelas está excelente.
só é pena que o filme seja uma espécie de cópia portuguesa de quentin
tarantino. isso para além do que já disse antes.
jorge vicente
p.s.
se querem ver um filme onde se joga bem com as duas línguas: português e
inglês, vejam The Lovebirds de Bruno Almeida, maravilhoso!
Jorge Vicente