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EDIÇAO NºLXIII
, V NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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Coluna
de Liliana Josué
A FESTA
Cheguei ao local combinado com Malú, ali estava a igreja do bairro dela. Edifício novo, pequeno e muito branco. Mais parecia uma igreja de província. Sino engalanando a pequena torre, animado mecanicamente, consequência do progresso.
Apesar de nova e bem tratada, parecia meio abandonada de crenças e rezas, abrindo as suas portas unicamente por marcação. As necessidades espirituais, assemelham-se lamentavelmente às físicas. Padre e médico só por marcação e a longo prazo.
Perdida nas minhas divagações, não percebi que Malú já me acenava da ponta do
passeio. Finalmente vislumbrei a sua silhueta de altura média, mais para o
baixo, bastante magra, de longos cabelos negros apanhados na cabeça com duas
grandes flores a condizerem com o vestido. Era uma uma jovem mulher de beleza
aciganada.
- Olá Lígia, deu bem com o caminho?
- Claro, já conhecia esta igreja.
- Vamos então primeiro a minha casa…
- Obrigada, vou com todo o prazer.
- Eu também tenho gosto que lá vá Lígia, mas já sabe que é uma casa simples, mas
arranjadinha.
- Que importância tem isso… o principal é sentir-se bem nela. Também não sou
rica, a minha casa é igualmente simples.
Malú vivia com um rapaz ainda mais novo que ela mas já tinham dois meninos, lindos e muito ladinos. O batizado do mais novo celebrar-se-ia nesse dia e por essa razão ali me encontrava na qualidade de convidada... Aquele era mais um dos tantos bairros problemáticos do nosso país, a etnia cigana predominava. Fui a primeira a chegar de entre todos os convidados. A casa, apesar do edifício ser muito antigo, com escadas de madeira meio tortas e oleado castanho a disfarçar o cansaço de tantos sapatos, galgando-a durante anos sem fim, estava arranjada e bonita, assemelhando-se a pingo de juventude atirado para suavizar tanta decrepitude.
As crianças mostravam-se agitadíssimas: o mais velho inchado de amuos e birras porque a festa não era dele; a avó materna desfazia-se em súplicas desastrosamente gritadas para o conseguir vestir; o jovem pai enfiava-se, numa corrida disfarçada, para o chuveiro e Malú entremeava o seu lindo sorriso de felicidade, com alguns gritos e palmadas nos traseiros dos garotos.
Os convidados começaram a chegar. Aí a confusão redobrou. Eu sentia-me uma
estrangeira no meio daquela gente.
Sentei-me num canto do sofá preto, mesmo junto à janela: o Outono já se
instalara, mas o dia sem grande sol era quente, abafado e húmido, colando as
roupas ao corpo. Uma dor de cabeça começava a apoquentar-me, e o peito
comprimia-se em ansiedade.
O volume das vozes aumentava, soando a pífaros rachados e trombones acabados de desentupir mas por afinar. Quanto às crianças: umas choravam e gritavam, outras dormiam embaladas maquinalmente por braços acostumados. Senti-me protagonista dum filme de Felini. Para mim tudo se tornara um susto surreal. Toda eu me contraía; a tensão tomou conta do meu raciocínio. Só pensava como iria resistir até ao fim do dia.
O remorso magoava-me a consciência. Malú e o marido tratavam-me como uma pequena
rainha; só queriam que me sentisse bem enchendo-me de atenções. Tornava-se
difícil gerir dois sentimentos tão antagónicos. Aquele casal de quase meninos, e
já pais, tinham toda a minha simpatia e afecto.
Finalmente chegara a hora de irmos para a igreja pequena, pintada de branco e
cheirando a província. Toda a gente foi a pé visto ser perto.
A animação moderou-se substancialmente, o local religioso assim o impunha, e com essas coisas não se brincava nem se admitiam faltas de respeito. Entrámos em recato e ponderação. Pais, padrinhos e homenageado reuniram-se ao padre junto à pia batismal. Flashs relampejavam por todo o lado, na ânsia de perpetuar mais uma oferta humana a Deus. Só o pequeno se desinteressava de tudo aquilo. Indignado atirava o corpo para trás aplicando alguns bofetões a quem o rodeava, apenas o padre se safou, vá-se lá saber porquê...!
Todos sorriam numa felicidade imbecil de tradição cumprida. Mas a Malú, o marido
e os seus meninos sentia-os no meu coração. Era a única coisa verdadeira em mim.
Acabada a cerimónia religiosa, juntámo-nos à porta da ditosa igreja, que mais
uma ovelha arrecadava no seu rebanho. Logo em seguida formou-se um cortejo
rocambolesco a caminho do almoço.
Voltaram as gargalhadas estridentes; os ralhos arrepiantes; crianças a correr no meio da rua fazendo birras, o calor a castigar cada vez mais corpos e almas. Sapatos de salto fino e ponta aguçada, enterravam-se no chão incerto, torcendo-se pés de unhas pintadas obrigando as belas pernas bem depiladas e douradas pelo sol das praias da Cruz Quebrada e Carcavelos, a gingar. Os espectadores das janelas e do passeio mal empedrado observavam meio atónitos tanta galhofa por essas ruas fora.
Eu lá seguia de sorriso pregado na cara, mas numa fobia imensurável sem que o remorso me largasse. A caminhada ainda foi longa e o meu desespero também. Finalmente vislumbrei um barracão por onde saía música fantasmagórica e fumo de febra assada. Já não era eu a caminhar, alguma força me empurrava certamente para que não fugisse horrorizada com todo aquele manicómio. Mas, ao mesmo tempo, revoltada comigo própria. Aquele conflito tornava-se cada vez mais doloroso.
A entrada foi de impacto brutal. O cenário era de um surrealismo cru, sem deixar esperanças a confortos ou bom gosto. Aí vacilei seriamente, quase tombei de náusea, mas a tal força invisível continuava a levar-me para a frente. Carnes eram confeccionadas em grelhadores de perna fina e bojo inchado, negros de carvão e labaredas de inferno. A fila de goelas esfomeadas logo ali se ficaram, de pão na mão esperando a vez. Entre a espera e o calor, a tosca arca congeladora era assaltada para lhe sacarem uma cervejola fresquinha. O fumo continuava forte e compacto chegando, certamente, até ao fim do mundo.
Não parei e fui entrando. Uns passos mais adiante quase esbarrei com um automóvel vermelho meio desmanchado muito semelhante a um insecto parcialmente devorado, onde podíamos encontrar sacos de plástico pendurados com a função de engolir restos e lixo. Logo a seguir, descansava uma velha camioneta de passageiros, muito manca e zarolha. O tempo não perdoa, nem às camionetas. Os sacos de plastico também engalanavam esta bizarra criatura. Senti-me enjoada e meio tonta com o coração a querer saltar pela boca. A cabeça estalava-me de pressão e lá vinha aquele remorso corrosivo.
O único assento ali existente era um banco comprido de madeira, encostado a uma
parede onde nos íamos sentando à vez, e algumas cadeiras trazidas por outros
mais prevenidos.
No final da garagem encontravam-se duas mesas laterais improvisadas; uma em
frente à outra em ar de competição. Num lado doces e no outro salgados. Uma
terceira localizava-se no fundo do «salão» parecendo um altar, onde bonitos e
garridos bolos morriam tristes de calor e vergonha.
Mas a mão de Malú fazia-se notar naquele buraco tristonho. As três pseudo mesas estavam cobertas por simples toalhas de listas brancas e laranjas com grandes laçarotes em cada canto; várias jarras de flores espalhavam-se pelas mesas alegrando o ambiente, e balões de muitas cores foram pendurados em cordeis coloridos. Ao canto da mesa principal estava um homem de feições delicadas e aspecto triste, acompanhado por duas meninas parecidas com ele. A sua função era fazer tocar um sintetizador reproduzindo músicas tão desconcertantes quanto o local, mas tenho de admitir que só assim o cenário ficaria completo.
O meu estado de espírito não melhorava, para conseguir ultrapassar o pânico
interior fui buscar uma cerveja enxugando-a com salgadinhos. Pouco ou nada
resultou. Voltei-me para os bolos, por sinal bem confeccionados, provei várias
qualidades, mas nem o doce me amaciava o espírito.
As pernas já me doíam de tanto estar de pé, mas finalmente consegui a minha vez
de me sentar, e por ali fiquei sorridente e encolhida.
Naquela altura já toda a gente se encontrava bem animada: os homens comiam, bebiam e conversavam de caras vermelhas e olhos turvos à porta da garagem; as mulheres , quase todas, encontravam-se no interior, dançando umas com as outras num histerismo de fêmeas em época de cio ignoradas pelos machos.
Como era de esperar também tive o meu quinhão, e por lá andei aos baldões a pisar os pés da mãe de Malú. Sempre sorridente e de palavra suave fazia o que estava ao meu alcance para que ninguém notasse o meu constrangimento. Eu e o homem do instrumento, devíamos ser os únicos com pouca vontade de galhofa.
Pelas quatro horas foi aberto o bolo do batizado, não faltando as garrafas de espumante. Tudo foi feito numa alegria delirante; a altura em que a espuma foi atirada para cima dos convidados, ficando estes molhados e de roupinhas manchadas, deu para rir até mais não se poder. Numa corrida fugi para o meu canto com o pedaço de bolo do batizado.
O marido de Malú, já meio entornado, veio ter comigo, cheio de cautelas, saber
se me tinha molhado.
- Claro que não, fique tranquilo, e se tivesse molhado não teria importância
nenhuma.
- Ainda bem, assim fico mais descansado. Está tudo bem consigo?
- Não se preocupe, estou ótima.
E lá se foi o bom rapaz juntar-se aos compinchas da porta em algazarra e folia. Havia que aproveitar porque batizados de filhos não se faziam todos os dias.
As cinco horas estavam a dar, achei que finalmente poderia dar por finda a minha participação naquele evento. Olhei vária vezes para o relógio, como se estivesse a tornar-se tarde para cumprir outras obrigações, acompanhando este gesto com um dizer repetidas vezes: - Bom... tenho que ir andando... . Se bem que a saída me estivesse a ser difícil, não queria ser indelicada e muito menos ferir suscetibilidades.
Finalmente, num rasgo de coragem, levantei-me e dirigi-me a Malú dizendo que tinha de me ir embora. Ela aceitou sem qualquer reparo. Voltei-me para quem estava junto de mim e num largo e enternecido sorriso despedi-me.
Ela e o marido fizeram questão em acompanhar-me até a casa. Eu recusei firme mas
sempre gentil.
O meu anjo bom sentou-se-me no ombro acusando-me de falsa , mas ele também sabia
que a minha ternura por aqueles dois meninos/adultos era verdadeira, por isso
recolheu-se sem dizer mais nada.
Apanhei-os distraídos e fui saindo pianinho. A fuga foi-me restituindo alguma paz e o fim de tarde ameno deu-me novo alento. Senti-me uma Cinderela fugindo do baile, mas em lugar de mágoa por deixar a festa de sonho, foi a felicidade que tomou conta de mim e voei rua a cima, sem sequer perder o sapato, em direcção a minha casa; meu palácio afectivo.
Inesperadamente senti um automóvel abrandar junto de mim. Olhei para ele meio assustada. O carro parou e eu também . Foi então que me apercebi de que o marido de Malú e um amigo seu, dono do automóvel, tinham vindo ao meu encalço para me levarem , dizendo este:
- Alguma vez a Mallú e eu deixávamos que fosse sozinha para casa!!!! .
Que Deus me perdoasse tanta ingratidão.