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EDIÇAO NºLXIII , V NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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Poesia de Sá de Freitas


 

 

 

 

Lembrar

Lembrar é um rebuscar de coisas idas,
Que o tempo carregou para o passado...
É autópsia que o coração ansiado
Faz sempre em nossas horas já vividas.

É um reacender de brasas escondidas,
Sob as cinzas de um ontem que apagado,
Retorna qual fantasma indiabrado,
E nos reabre inúmeras feridas.

Mas mesmo assim nenhum de nós deseja,
Ficar sem recordar e sempre almeja,
Imaginar-se lá nos tempos idos,

Onde vamos buscar com a nossa mente
Um ponto pra fugirmos do presente,
Que às vezes traz momentos tão doídos.

Velhas Lembranças

Há horas já, o dia dissera-me boa-noite.
O sono desapareceu e a solidão chegou.
Abro a janela, mas não me fixo
Nas lâmpadas da rua...
Ergo os olhos para namorar as luzes no céu,
E sinto saudade de outras noites,
Tragadas pela noite do tempo,
Quando eu corria atrás de vagalumes,
Como se fossem estrelinhas fugindo de mim.

Que saudade do tempo em que eu não tinha saudade;
Quando dormia sem pensar no amanhã;
Quando tinha pais para lhes pedir bênção
E irmãos para brincar e brigar.
Lembro-me quando puxei as tranças
Da menina sardenta e magricela,
Porque mostrou a língua para mim
E a professora deu-me duas reguadas na cabeça.
Ah! Mas quando amassei o nariz do Pedrão,
Fiquei o recreio todo ajoelhado em grãos de milho.

Hoje rio de tudo isso,
Para fugir das lembranças tristes
E não estragar as alegrias da vida.
E bom sentir saudade do menino
Que sonhava em ser adulto,
Mas que hoje deseja voltar a ser criança.

Que saudade de quando eu não tinha saudade,
Naquele tempo em que eu estava,
Quando nem idéia fazia do tempo em que estou,
Com vontade de puxar as tranças da paixão,
Mas com medo das reguadas da desilusão.

Velhas lembranças, rondando-me agora,
Preenchendo o presente que poderá me trazer saudade
Amanhã...
SE O AMANHA ME VIER.

Alces teu voo

Minh'alma alces teu voo com firmeza,
Nos confins misteriosos do Infinito...
Procura lá, tudo o que for bonito
Tudo que seja paz, seja beleza.

Traze-me um verso, puro igual criança;
Um verso que em si seja uma prece,
Para que eu dê aquele que padece,
Um pouco de conforto e de esperança.

Traze de lá, Minh'alma, a voz de um Anjo,
Pois eu, com a minha voz, já não abranjo,
Aquela paz que um coração reclama.

Quero mostrar, ao desolado, o encanto;
Quero fazer sorrir quem vive em pranto;
Quero ensinar o amor a quem não ama.

 

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