Poesia

Por Abilio Pacheco

 

 

 

 

 

 

Procura

Entre os silêncios noturnos,
grito-me o teu nome
que mal vaga em vão
pelas paredes de mim;
pois tantas são as vozes,
entrecortadas, entrecruzadas,
vozes às vezes babélicas,
buzinas, apitos e roncos,
miados, latidos e urros,
todas vivendo em mim,
que o meu grito se perde
pelas frestas da porta
rompe a rua silente
e desperta os olhos de mim.

 

Andança

Carrego meus males todos
juntos no mesmo bolso,
juntos do mesmo lado – no peito esquerdo.

Sigo assim meio de lado
puxando de uma perna
e arrastando meu corpo torto
pela rua muda.

 

A poesia

A poesia
está no varal.
Veja lá se ela
está enxuta.
Se não estiver
não toque!
não mexa!
Se estiver
vista-a ...
no coração!

 

No teu telhado

No teu telhado
miam gatos
e os demônios
brincam com anjos
de pega-pega.
No teu quintal
ladram cães
e os demônios
brincam com anjos
de corre-corre.

No teu silêncio
roncam homens
e os demônios
brincam com anjos
de esconde-esconde.

Mas, na tua ausência
acordam-se os homens,
emudecem-se os cães,
dormitam os gatos
e os demônios
correm dos anjos,
quase são pegos
no trisca.

 

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EDIÇAO NºLXIII , V NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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