Lágrimas e risos
in A PRECE DOS MAL AMADOS - CAPITULO DEZ
Por
Manuel Fragata de Morais
Uma criança é um hóspede na casa, a ser amado e respeitado - jamais possuído,
pois ela pertence a Deus.
(J. D. Salinger)
Decorreram cinco dias desde a chegada de Balanta, e a vida tendia a retornar ao normal. A surpresa fora grande, não menos que a alegria e, após os dias festivos iniciais, a aldeia parecia encontrar a tranquilidade perdida há quase dezoito anos. Afinal a paz viera mesmo para ficar, dizia-se sem muito receio de falha, os sinais ominosos não deixavam margem para dúvidas e o regresso de Balanta, com o reencontro da filha, seria um culminar dessa bem aventurança.
Nehone, duvidoso de poder confiar por inteiro em Nazamba, sobretudo com o regresso da mãe, a velha poderia tirar-lhe a ideia da cabeça, já muito haviam sofrido, achara melhor ir sondando a maior parte dos velhos que integravam o conselho. Por intuição, Juba de Leão mandou-o chamar e, sem os rodeios e os salamaleques habituais, talvez por não mais os tolerar ou se sentir cansado, com o chapéu do poder enfiado na cabeça e o cabo de rabo de boi na mão, como sempre fizera quando desejava asseverar autoridade, apenas esperou que se sentasse onde lhe indicara, propositadamente no chão, sem resguardo. Nehone, manteve-se estático, de pé, por longo tempo, porém achou não ser prudente antagonizar o velho e sentou-se, com as pernas para o mesmo lado.
- Sonhei de novo com o sonho antigo. – disse, abruptamente.
Nehone olhou para ele e esperou, não quis responder e encaminhar a conversa,
Juba de Leão que o fizesse. De qualquer dos modos, era bom que tivesse sonhado
com a neta, ser-lhe-ia mais fácil encará-lo com as palavras certas.
- Sei que andam a tramar a minha sucessão... – Falou novamente Juba de Leão.
Nehone estremeceu quase que imperceptivelmente, não esperava a afirmação de
chofre e, sobretudo, despida, crua. Juba de Leão sorriu para dentro. O bagre
tinha entrado na nassa.
Como é que ele sabe? Terá sido o neto?
Que lhe dizer? Afirmar que sim, anuir, era desaconselhável. Portanto, negar, só
isso, negar! Pelo menos ficaria a réstia ou o benefício da dúvida, caso o jogo
fosse o de adivinhar intenções através de sugestões camufladas de verdade
aparente, ou charadas disparadas a esmo.
- Não, senhor. Deve ser impressão por causa do sonho, agora mais forte porque a
Nazamba se encontra aqui e com a mãe. – respondeu feliz, pensando esgueirar-se
deste modo.
- Estou cansado, muito cansado e velho... – adiu, com tristeza.
- E!... a altura de descansar está a chegar. – respondeu Nehone.
- Sei que estão a preparar a minha sucessão... – insistiu.
- Quem o informou, só pode estar a querer criar confusão...
- A minha idade me informou. Chamei-te para te dizer que não estou contra, mas
terá que ser Nataniel.
Nehone ponderou e viu a rasteira armadilhada que, com aparente inocência, Juba
de Leão lhe estendia. Esquecia-se que ele sendo mais novo, igualmente era velho,
já vira muita coisa e conhecia bem o irmão.
- Senhor, sabe que só o conselho pode decidir quem o sucederá. Terá que
convocá-lo e apresentar a questão...
- Cuidado que a esperteza não te coma. – respondeu Juba de Leão, desagradado.
- Não entendo, senhor, só lhe respondi a uma pergunta que me fez...
- Está bem, vou convocar o conselho.
- Para quando? – perguntou Nehone, logo arrependido de ter sido tão lesto.
Aldrabões! A perdiz que não sabe esperar, não choca os ovos.
- Amanhã chama o mestre Tuluka para vir falar comigo logo pela manhã, antes do
galo cantar, ou do sol nascer.
Nehone sentiu-se aliviado, o mestre Tuluka seria então quem anunciaria ao soba
grande a sucessora, Nazamba. Assim, quando convocasse o conselho, tudo estaria
resolvido, talvez os netos levassem o avô com eles para Luanda, e Nazamba, após
o nascimento da criança, pudesse regressar para ser iniciada e assumir o seu
lugar.
- Assim farei, ainda há mais assuntos a tratar?
- Não, vai. – disse, exausto.
Tentando não transmitir a impressão de pressa, e a olhar para os lados, nervoso,
Nehone dirigiu-se a passo acelerado para a casa de Tuluka, as coisas começavam a
correr melhor e mais rapidamente do que esperava. A vida tinha desses ardis, a
cada instante, uma volta ou reviravolta com que contempla, a seu bel-prazer, os
arquitectos que pretendem manipulá-la para proveito próprio. Entrou, com passos
de onça, e sem se fazer anunciar. Tuluka dormitava no catre. Assustado,
ergueu-se.
- Então mano, entra só assim? – inquiriu.
- Desculpa, mas não queria ficar na porta. – respondeu Nehone, procurando um
lugar para se sentar.
- O que foi, tanto alvoroço? – perguntou Tuluka, indicando um banco.
- O nosso soba mandou-me chamar e pediu para reunir os mais velhos, quer falar
da sucessão.
- Isso é verdade, não estava doente? – suspeitou, Tuluka.
- Não, disse que está velho e cansado, e quer Nataniel para lhe suceder.
Tuluka sentou-se no catre e coçou a cabeça. Nehone não lhe relatava nada de
novo, no fundo. Há muito que Juba de Leão pretendia que o neto lhe sucedesse, e
até talvez não encontrasse opositores não fosse o sonho repetido vezes sem
conta, a sugerir a neta, confirmada na revelação dos amuletos.
- E a Nazamba?
- O que há com a Nazamba? – Olhou para ele, Nehone.
- Vai aceitar? – perguntou Tuluka.
- Mano Tuluka, então não leu no cesto? Vamos lutar contra o que está decidido?
Não aceitou ontem, aceita hoje ou amanhã, a Nazamba não é nossa preocupação.
- Assim, temos que nos preocupar com quê? – indagou Tuluka.
- Com que tudo corra bem, sem lutas, sem feitiços e mortes...
- Então vou ter que começar a preparara a pemba, as folhas e os remédios, às
vezes leva tempo.... – anuiu, Tuluka
- Dar-lhe já posse? – perguntou perplexo Nehone, que não avançara tanto nas suas
intenções.
- Porque não? – insistiu Tuluka.
- Estava a pensar depois das eleições, aí já pariu o filho e pode voltar para
ficar o tempo necessário para os rituais.
- Não, mano. Como estão as coisas é melhor que saia daqui já empossada, o
regente que a gente escolher, poderá até ser o mano, deverá aguentar, são só uns
seis, sete meses... – insinuou Tuluka.
Nehone quedou-se pensativo. De facto, caso não houvesse muita oposição, a neta
poderia já sair pelo menos com a indicação do conselho, ou mesmo empossada,
todavia os preparativos, por muito apressados que fossem, colidiam com a vontade
expressa de Nataniel de regressar muito em breve.
- O conselho não vai aceitar... – retorquiu, Nehone, hesitante.
- Vai. Você é quem cuida dessas questões, eu tenho a minha voz como adivinho,
aliás o cesto falará, não irão opor-se...
- Então é melhor falarmos com a Nazamba e o marido, só depois convoca-se o
falatório.
- Juba de Leão disse para quando?
- Não, só pediu que o conselho fosse convocado. – informou Nehone.
- Mais logo, pela cair da tarde, vamos falar com eles. – sugeriu Tuluka.
- Poderá ser, vou mandar avisar.
Quando Nazamba e Nataniel foram informados que o tio-avô iria vê-los à tardinha,
ambos tiveram o mesmo pensamento, que o velho vinha para levantar o problema que
deixara, sabiam que não iria descansar até a situação estar bem definida, para
um lado ou para o outro.
- O que quer esse malandro com vocês, perguntou Balanta?
- E um assunto que a mãe logo vai saber, mas terá que ser da boca deles. –
respondeu Nazamba.
- Deles?!...
- Sim, mãe. Deles...- respondeu a filha.
- Eles quem, então? – insistiu.
- O avô Nehone e o mais velho Tuluka.
Balanta olhou para a filha, assarapantada. Assunto que metesse o mestre adivinho
era assunto sério, todavia, mais não quis saber, Nazamba avisara-a que teria que
vir deles, portanto competia-lhes aguardar. Olhou para Nataniel, que baixou os
olhos e tossiu.
- Está calor aqui dentro, vou lá para fora um bocado. - disse.
Seja o que for, o marido não aceita...
- Queres um copo de água fresquinha? – perguntou-lhe a mulher.
- Não, obrigado, vou ficar um pouco à sombra, lá fora está mais fresco.
Não aceita, não!... Mas o que será que querem com eles?
- Bebe um copo de água, meu filho. Vais sentir-te melhor. – disse Balanta.
- Não tenho sede, obrigado, vou só sair um pouco. – disse, já junto à porta e de
modos a evitar mais conversa.
A tarde passou lenta para Nataniel e Balanta. Nazamba, ciente do que queria e de como iria jogar as pedras, encontrava-se tranquila. Neste últimos dias revira a sua vida, desde o fatídico dia em que fora forçada a abandonar a aldeia, aos anos que passara em Portugal, até ao presente. Na verdade achou que o mundo era uma minúscula esfera redonda eternamente a girar, o que estava em cima hoje estaria em baixo amanhã, afinal o certo não era senão o lado oposto do incerto, a verdade o reverso da mentira.
Quando percebeu os passos arrastados de Nehone, logo seguido dos de Tuluka e do
marido, foi preenchida por uma estranha calma. Olhou para o rosto angustiado da
mãe e sorriu, esboçando um beijo com os lábios. Dirigiu-se à porta, que abriu.
Os três homens entraram e sentaram-se à volta da mesa, onde já se encontrava uma
jarra com a cerveja, uma garrafa de vinho e vários copos, bem como um prato de
milho assado, tapado com um pano.
- Boa noite, mana – disse Tuluka, olhando para Balanta, sentada junto à cómoda,
num pequeno banco.
- Boa noite. – respondeu esta.
Nazamba tirou a rolha que tapava a garrafa de vinho e serviu os velhos, sabia que quando e enquanto houvesse vinho, a cerveja ficava para o fim. Estes agarraram nos copos e beberam dum trago, estalando os lábios e escancarando um sorriso de satisfação. A maneira como os recolocaram na mesa, não deixou dúvidas que eram para ser cheios novamente. Tuluka agarrou numa das maçarocas e começou a retirar do caroço o milho, com gestos precisos. Colocou os bagos sobre o plástico da mesa e foi debicando, sem pressa.
- O meu neto não bebe? – perguntou Nehone, notando que Nataniel não se servira.
- Não avô, essa é a última garrafa que tínhamos e é para vocês, vou beber um
copo de água, até porque tenho sede.
Nazamba dirigiu-se ao moringue e serviu, perguntando com os olhos à mãe se
também queria. Encheu os dois copos, entregando um a Balanta, que estava a seu
lado, e levou o outro a Nataniel. Regressou e serviu um para si própria.
- A vossa mãe já sabe porque estamos aqui? – indagou Nehone.
Nazamba e Nataniel entreolharam-se, decidindo quem deveria falar.
- Não. – respondeu, seco, Nataniel.
- Não, avô, ela não sabe de nada, perguntou uma vez e eu disse que seriam os
avôs quem teriam que lhe explicar tudo. – complementou, Nazamba.
- Fizeste bem... Boa filha. – respondeu Tuluka. – Mostraste que sabes ser
prudente, lembra-te minha filha que o cão ladra com as costas voltadas para o
seu dono, e que a perdiz velha não come no descampado, mas sim na encosta do
morro.
- E verdade, também revelaste paciência, por isso não esqueças que andar devagar
é o segredo do camaleão. – Ajuntou, Nehone.
Balanta mexeu-se, impaciente e fungou propositadamente
Tanto provérbio para quê, porque não falam já?...
- Obrigado pelos conselhos, não vou esquecer, até porque quero aprender e gosto
de interpretar a sabedoria que encerram.
- E tua obrigação agora – respondeu Nehone.
Balanta, intrigada porque lhe estava a escapar a insinuação, moveu o banco para
mais próximo da mesa.
Obrigação? Obrigação de quê?
Percebendo a ansiedade da mãe, Nazamba achou que deveria cortar aquela conversa
fiada a que já se ia habituando, nunca se ia directo ao assunto.
Uma vez já apresentara ao marido a teoria de que os países africanos nunca se
desenvolveriam porque o conceito de ligar dinheiro ao tempo, ou vice-versa, era
incompreensível para as mentes. Tinha a ver com o clima e com a cultura da
subsistência crónica. Assim, para tudo era feriado, por dá cá aquela palha,
tolerância de ponto, conversa, só conversa, deixa para a amanhã o que podes
fazer hoje. Como avançar-se assim, num mundo moderno onde cada segundo é
contabilizado em termos de custos, de perdas e de ganhos?
Andar devagar é o segredo do camaleão?!...
- Eu sei avô, mas melhor é contar tudo à minha mãe.
Nehone olhou para a sobrinha, Balanta, e atirou-lhe, de chofre.
- A tua filha vai ser o próximo soba grande.
Balanta virou estátua de pedra, boca aberta, olhar fixo esbugalhado e não
pronunciou uma única palavra, tão grande foi o terror dentro de si. Não
encontrara a filha ao cabo de quinze ou dezasseis anos para a perder num minuto,
assassinada, envenenada, enfeitiçada. Aguardaram até que se recompusesse, só
Nataniel lhe tomou o pulso, e para tranquilizar a esposa.
- E a surpresa, já passa. Nazamba, dá-lhe um copo de água. – disse, este.
Aos poucos Balanta foi serenando, mas começou a tremer.
- Mãe, o que tem? – perguntou Nazamba, preocupada.
- E o choque, já passa, põe-lhe um cobertor por cima dos ombros – ripostou o
marido.
- So...so...soba?... – conseguiu balbuciar, quase que inaudível.
Nazamba cobriu-a com um xaile que fora buscar, sentou-se a seu lado e
segurou-lhe as mãos, friccionando-as.
- Mãe, recompõe-te e ouve tudo o que o avô Nehone tem a dizer. Eles já falaram
comigo, pensei muito e decidi aceitar. Tu e eu devemos isso ao nosso soba Juba
de Leão, ou a mãe já se esqueceu?
Como que movida por uma mola, Balanta ergueu-se e colocou-se entre os dois
velhos, empurrando-os. Com desdém olhou para eles, de cima a baixo.
- Esqueci o quê, minha filha? Uma coisa não tem nada a ver com a outra, não
sejas tu desta vez a estragar a tua vida...
- Estragar a minha vida, como?
- Também já lhe disse o mesmo, mas está obcecada. – aproveitou Nataniel.
- Por favor, Nataniel, não te metas nisto, a vida é minha.
- Não é só tua, também é minha e do filho que carregas na barriga –
replicou-lhe.
- O teu marido tem razão, vais-te meter num saco de lacraus. Estes velhos estão
malucos, Nazamba. Aquele que come contigo é quem te pode matar.
- Mãe, por favor, primeiro escuta o que eles têm para dizer...
- O que vão dizer? Este meu tio não foi um dos que instigou, e mesmo concordou,
com a saída do teu pai e de vocês? E este feiticeiro, alguém o ouviu falar
contra? São hoje os mesmos que te querem fazer acreditar que mudaram?
Nazamba sorriu, contente. A mãe, sem o querer ou desejar, encaminhava a conversa
para o lado que lhe convinha, acabaria por a ter do seu lado, tinha a certeza.
- Mas é por isso mesmo que aceitei a proposta deles, mãe. Tomás e eu não somos
filhos da cobra, mas sim filhos das cobras, não vês?
- O que estás para aí a dizer, não percebi. – disse Tuluka.
- Tio Tuluka, alguma vez já viu galinha fazer filho com cobra? – brincou com
ele, Nazamba.
- Claro que não, que disparate é esse? – replicou.
- Como é que o Nataniel e eu, netos da mesma pessoa, o nosso avô Juba de Leão,
não somos ambos descendentes da cobra? Só eu?!...
- Isso significa o quê? – insistiu, não vendo a ligação.
- Significa que cobra só faz filho com outra cobra, e não com galinha, como bem
sabe e afirmou. – riu-se, Nazamba.
O velho mirou-a, perplexo e foi esboçando um sorriso que, após algum tempo, se
transformou em gargalhada de apreciação.
- Muito bem, minha neta, você é esperta. Muito bem! Uma grande qualidade!
- E por aí que queres enveredar? – perguntou à mulher, Nataniel, aborrecido.
- Não falámos sobre o assunto?... Onde está o teu conceito de cidadania? –
retorquiu Nazamba, provocando-o.
- Já chega de discussão. Ouve agora o que temos a dizer, se for preciso vamos
mesmo mostrar-te a vontade dos antepassados. – disse Nehone, virando-se para
Balanta.
- Mãe, escuta-os. Quanto mais cedo acabar melhor, logo partirão. – disse Nazamba.
- Não vou escutar nada, estes dois são feiticeiros que querem acabar contigo e
com o teu irmão, não vês? Aqui não há filhos nenhuns de cobra alguma.
- Estás a chamar-nos de feiticeiros, toma cuidado porque as palavras tornam-te
escravas delas.
- O que estou a dizer à minha filha, é que por muito que se tenha viajado, uma
pessoa deve sempre olhar para trás, é necessário.
- E verdade, minha mãe. Mas o caminho percorrido já o está, aquele a percorrer,
está à frente e é para aí que estou a caminhar. Tenta entender, há uma dívida a
ser saldada.
- Dívida? Que dívida é essa? – perguntou Tuluka, novamente movido pela
desconfiança
- A dívida do tempo... – respondeu, mais para si, Nazamba.
- Mano Nehone, o que fazemos? – perguntou Tuluka.
- Mãe, por favor senta-te e ouve. Suplico-te. – pediu Nazamba, segurando-a pela
mão e reconduzindo-a à cadeira.
- Está bem... mas vou estar contra. – respondeu Balanta, amuada.
Uma vez o consenso formado e a harmonia restabelecida, todos se sentaram, cada
no lugar que ocupara Nazamba retirou a cerveja da mesa e colocou-a na cómoda,
fora do alcance dos dois mais velhos. Sugestionado, Tuluka agarrou na garrafa de
vinho e serviu Nehone, depois a si próprio. Observando que a esvaziaram,
Nataniel suspirou, levemente aliviado.
Melhor assim, pelo menos já não bebem mais.
Em voz pausada, denotando cansaço, Nehone contou as aspirações e os sonhos de Juba de Leão, falou da linhagem e das razões porque Nataniel não poderia seguir o avô e, por fim, das fantásticas revelações que os amuletos de Tuluka produziram, verdadeiramente inacreditáveis, não tivesse ele visto com seus próprios olhos, e Nataniel estava ali para testemunhar, não acreditaria, nunca. Nazamba era a pessoa que os que velavam pela vida e protecção da aldeia indicavam, e uma vez que ela aceitara, tudo ficava mais fácil. Havia o problema da iniciação, crescera fora dos seus e da terra, tinha muito que aprender, todavia poderia regressar a Luanda de posse tomada e o conselho dos anciãos era apresentar um regente, um dos chefes mais graduados e que já tivesse dado provas de capacidade, até ao seu regresso à aldeia, após o nascimento da criança.
Tuluka seria o seu mestre oficial para ensinar-lhe as tradições, os costumes, os
hábitos e as crenças, assim como lidar com elas. O regente, seria então o seu
ministro principal e que lhe faria ver o difícil lado da governação, da
sensatez, da ponderação, da avaliação dos factos e dos acontecimentos, entre
outros.
- Vocês estão malucos!... – cortou Balanta, incapaz de mais ouvir.
- Malucos? Olha como fala, minha sobrinha, mais respeito. Não somos nós que
mandamos, essa mensagem vem do além, você quer ver?
- Quero, sim, quero ver. – desafiou.
- Olhe que eu assisti, e é verdade. – avisou Nataniel.
- E não tinhas bebido antes, estes velhos não te deram de beber? – não se deixou
abater.
- Chega de conversa. Mano Tuluka, por favor consulta o cesto.
Tuluka estendeu a esteira no chão, junto à porta e de costas para a mesma,
retirou do saco próprio os amuletos e lançou-os para dentro do balaio.
- Chega mais perto, que é para você ver com os teus próprios olhos. – disse
Tuluka para Balanta.
Acendeu um pequeno fogo sobre o qual colocou uma lata, e para aí lançou uns pós que produziram uma ténue nuvem de aromático fumo, talvez de eucalipto, e deu início ao cerimonial, com as cantilenas só de si entendidas. Levantou-se e, saracoteando o corpo, dançou três vezes à volta do cesto de adivinhação. Agarrou num pedaço de pemba branca, e colocou um risco vertical na testa e dois oblíquos nos pomos do rosto. Sentou-se novamente, de pernas cruzadas, e ergueu o cesto acima da cabeça, implorando para que os antepassados lhe mostrassem mais uma vez a verdade e os desejos deles. Baixou o balaio, remexeu-o várias vezes como que peneirando os amuletos, e lançou tudo à sua frente, na esteira.
Os olhos dos presentes convergiram para a mensagem, que ele interpretou. Quase no centro, representando, portanto, uma decisão consensual, ao lado das penas de galo e de dois pauzinhos avermelhados, o elefante fêmea, por qualquer lei de equilibrismo natural, permanecia de pé sobre o dente de leão. Balanta olhou, lançou um profundo grito e principiou a tremer, crente que perdera Nazamba definitivamente. Sem saber qual e por que motivo, queriam-lhe comer a filha. Nunca na sua genealogia houvera qualquer tipo de impedimento, disso pensava estar certa, não houvera interdição quebrada.
Nazamba abraçou-se à mãe, enquanto Nataniel meneava a cabeça.
- Agora já acreditas? Já viste com os teus olhos? – perguntou, autoritário,
Tuluka.
- Nunca mais afirmes que somos velhos malucos ou feiticeiros. Quem muito fala em
feiticeiros, acaba por cair nas suas malhas. – ajuntou, zangado, Nehone.
- Não fomos nós quem indicou a tua filha Nazamba, foram eles, os que vivem
debaixo da terra nas lagoas, eles é que falaram. – disse Tuluka.
O silêncio foi longo. Balanta recompôs-se, retirou-se do abraço da filha e
ergueu-se.
- Se alguma coisa acontecer à minha filha, nem os maiores feiticeiros da região
vos vão salvar – anunciou Balanta.
- Esteja tranquila minha sobrinha, nada vai acontecer à tua filha, ela só vai
assumir o destino que lhe está reservado. – respondeu Nehone.
- Nas vossas mãos?... - insistiu Balanta.
- Sim, nas nossas mãos! – responderam quase em uníssono Nehone e Tuluka.
- Por acaso não está ela grávida? – perguntou a velha?
- E depois?... Vai ter o filho em Luanda e volta, não há problema...
- Mãe, será melhor que entendas que nada me vai demover, até porque não fui eu
que procurei, nunca tal me passaria pela cabeça.
- Achas que o teu pai iria aceitar tal coisa? – perguntou Balanta.
- Teria um grande orgulho, estou certa. Não foi com a filha do soba grande que
ele se casou? E se pudesse estar aqui hoje, depois do que nos aconteceu, com
mais razão me apoiaria.
- Vejo que nada conseguirei. Não sabes o que está à tua frente, não conheces as
leis e o regime nosso ...
- Posso aprender, mãe. E vou fazê-lo, vou começar mesmo hoje, agora já.
- Assim é que se deve falar. A força do crocodilo está na sua própria cauda. –
respondeu Nehone.
- Avô, o que vem depois? – perguntou Nazamba, para fazer ver à mãe e ao marido
que nada a demoveria.
Nehone olhou para Tuluka, que se levantou e assentiu com uma suave inclinação da
cabeça. Sentaram-se os dois à mesa.
- Minha neta, vai buscar a cerveja e serve-nos, de garganta seca não sai palavra
que se entenda.
Nazamba trouxe a cerveja e dois copos limpos que os velhos puseram de lado,
preferindo utilizar os usados. Sorveram os restos do vinho no fundo e estenderam
os copos, colocando-os um ao lado do outro. Nazamba serviu-os e pousou a garrafa
ao seu alcance. Saborearam a cerveja, estalaram os lábios com prazer e sorriram
um para o outro, felizes.
- Quando chegar o momento, vais ter que reunir com os mais velhos que te vão
ensinar como te preparares. – disse Tuluka.
- Preparar-me, como? – indagou Nazamba.
- Terás tempo para saber, eles é que te vão dizer como e porquê. – respondeu
Nehone.
- E depois?
- Depois? Depois escolherão quem te vai ajudar, os teus conselheiros directos,
aqueles que serão os teus olhos, os teus ouvidos, a tua boca e até mesmo as tuas
mãos.
- Ai minha filha... minha filha!... – começou Balanta a chorar.
- Mãe, por favor, até parece que vou morrer!... – implorou Nazamba.
- Não digas essa palavra. – cortou, rápido, Tuluka.
- Olha, a tua mãe não está bem, está nervosa. Voltamos amanhã à mesma hora. –
disse Nehone, acabando a cerveja que tinha no copo.
Tuluka repetiu o gesto, olhou para a garrafa não acabada e, resignado,
levantou-se para proceder à arrumação dos seus pertences. Notando o suspiro do
amigo, Nehone agarrou na garrafa e acabaram a cerveja de milho, tendo de seguida
saído.
- Durmam bem, até amanhã. Voltamos. – disse Nehone.
Balanta não parava de chorar, baixinho, mais parecia o piar de um pinto moribundo. Nataniel, nervoso, não sabia o que fazer, não desejava ser parte de toda a trama, sempre esperançado que a qualquer momento Nazamba acordasse do sonho que vivia e se rendesse às evidências e aos factos. Entendia o seu desejo de acertar velhas contas, mas conhecia muito melhor do que ela os contornos das lutas sucessórias, sobretudo quando as nomeações se haviam transformado mais do que nunca num jogo político e de força dos dois contendores na guerra que grassava no país. Cada um desejoso da posse deste ou daquele soba, já que os mesmos controlavam homens, controlavam jovens para a máquina de guerra, controlavam produção, mandioca, milho, frangos, cabritos, porcos. E ela, mulher desenraizada, aculturada, mulata, onde poderia chegar? Estava certo de que em Luanda, uma vez no seu meio natural, conseguiria demover a esposa das ideias estapafúrdias que agora albergava e conjecturava, aliás contaria com o apoio de Balanta.
Do lugar em que se encontrava sentado, quedou-se a olhar ora para a esposa ora
para a sogra e deixou o tempo escoar. Finalmente a velha calou-se, cansada, e
retirou-se para o quarto onde dormia com a filha.
- Não fiques assim!... – disse Nazamba, colocando-se a seu lado e passando-lhe a
mão pela cabeça, afagando-o.
- Se eu soubesse que tudo isto iria acontecer, nunca teríamos vindo...
- Mas meu amor, o que está a acontecer é o que teria que acontecer, e digo-te
isto sem fatalismo. Não acreditas que o destino de cada um é traçado à nascença?
- Isso é um absurdo, o destino somos nós quem o delineamos, até pareces uma
mulher sem estudos. – respondeu, meio agastado, Nataniel.
- E as interferências externas que não controlamos?
- Quem disse que as não controlamos? Não poderás parar com toda esta brincadeira
de mau gosto, e regressar logo para Luanda?
- E as consequências da quebra do que não deve ser quebrado, quando os factores
são extrínsecos? Somos responsáveis pelo que é de nossa monta, nada mais.
- Estou muito cansado e não é o momento nem o lugar para falarmos sobre este
assunto, vamos dormir, vai ter com a tua mãe.
Nazamba deu-lhe um beijo da testa, acariciou-lhe o cabelo e retirou-se. Nataniel,
exausto, colocou os braços sobre a mesa, deitou neles a cabeça e adormeceu.
No dia seguinte, logo pela manhã, foi ter com o avô, decidido a contar-lhe tudo
e a informá-lo que desejava regressar e que tão cedo quanto possível mandasse
avisar o camarada comissário para os vir buscar.
Fez-se anunciar e entrou quando ouviu que o chamavam. Encontrou o velho sentado
na sua cadeira, agasalhado com um cobertor e com um ar bastante cansado. Sobre a
mesa, os restos da comida que não acabara e uma caneca, ainda intacta, de
cerveja.
- Tão cedo já a visitar? – indagou Juba de Leão.
- Bom dia avô, vim para o visitar e tratar de um assunto, mas parece-me que está
doente. Está a sentir-se bem?
- A velhice, meu neto. A velhice. – respondeu, tendo uma ligeira sezão.
- O avô está com frio? O corpo dói-lhe? – insistiu Nataniel, passando-lhe a mão
pela testa para ver a temperatura. – O avô está com febre, e pelo que vejo deve
ser paludismo.
- E... O corpo dói-me, mas o corpo de um velho dói sempre. O frio, já passa, e
só ir para o sol.
- Aqui não lhe posso fazer nada, mas tenho cloroquina que o avô vai tomar, agora
duas, depois venho dar-lhe o resto quando chegar a hora. Volto já.
- Não te preocupes, isto é coisa de velho, o mestre Tuluka cuida.
- Nada disso avô. Vou a casa e volto já. E faça o favor de não beber cerveja
nenhuma, só água.
Ao sair, ouviu o velho rir e se lhe pudesse ter lido a mente, descobriria que
lhe chamava criança da cidade, já esquecido dos remédios da terra e das maneiras
como o povo curava as maleitas. Quando regressou, obrigou-o a tomar os dois
comprimidos e uma aspirina e mandou retirar toda a cerveja que encontrou.
- Hoje vou passar o dia aqui com o avô, vai ficar bom, rápido.
- Se é o senhor doutor Nataniel que o diz... – e riu que se fartou.
- E verdade avô, é o senhor doutor Nataniel que o diz, por isso vai ter que
respeitar a palavra do médico. – respondeu, rindo igualmente.
- Mas o que é que querias, assim tão cedo?
- Nada de especial avô, estava a pensar que chegou a hora de regressarmos...
- Qual é a pressa, ainda faltam duas semanas para o camarada comissário vir.
- Sei, mas agora já cá está a minha sogra e a barriga da Nazamba está a crescer,
acho que a hora da partida está próxima...
Mais uma vez Juba de Leão desatou a rir com gosto. Com os olhos procurou o
cachimbo.
- Você é mesmo um médico, mas um médico branco, está preocupado com o
crescimento da barriga da tua mulher? Isso não é das velhas? A tua sogra, você
acha que alguma vez eu vi a barriga da mãe dela? Só quando nasceu é que Kolele
mandou informar que tinha uma filha.
- Mas os tempos hoje são outros, avô, e nós vivemos na cidade onde há hospitais
e parteiras...
- Tens razão, estou caduco já nem penso direito. Está na hora de eu ir, de
deixar este mundo... passa-me o cachimbo.
- Mas o que é isso, avô? Que conversa é essa? E está doente, não devia fumar...
- Deixa-me fumar à vontade, ou achas que é agora que me vou preocupar com o
fumo? Um dia quando estiveres velho vais entender. Quando a gente sente que a
nossa hora está já ali, não há medo...
- Então avô acredita no destino, que está tudo escrito? – perguntou, curioso,
lembrando-se da conversa na véspera com a esposa.
- Destino? Não sei bem o que é isso, mas que a minha chamada está próxima eu
sei, a minha vida foi muito cheia, fiz muitos filhos, deixo descendência grande,
cumpri com o que devia cumprir e vou viver noutro sítio, com outras pessoas, vou
viajar. A primeira morte foi quando me fizeram a iniciação, depois vêm todas as
outras que tiverem que vir.
Nataniel ficou sem saber o que lhe dizer. O velho retirara-lhe os argumentos que
pretendera usar para lhe contar o que desejara.
- Mas avô, a falar dessa maneira e com esse sentimento, a sua sucessão?
- Afinal era isso, também tu queres falar da minha sucessão? Pois fica a saber
se depender de mim, tu serás o meu sucessor. Mas disso vamos falar noutra
altura, primeiro o conselho tem que reunir
- E muito duro o que vou dizer, mas não conte comigo. Não posso abandonar a
minha vida em Luanda, sobretudo agora que Nazamba está grávida e vir viver aqui,
avô.
- Mas não precisas de viver aqui, podes viver na capital da província, lá também
tem hospital e escolas para os teus filhos...
- Já não sou mais um homem do interior, lamento dizer-lhe, capital para mim é só
Luanda. Daqui só me restam vocês, a família, que posso visitar uma ou mais vezes
por ano, vir apresentar os filhos...
Juba de Leão baixou a cabeça e adormeceu, talvez para não ouvir as verdades
terríveis que o neto lhe dizia, ou porque o cansaço tivesse levado a melhor, não
obstante ser ainda manhã. Nataniel, angustiado, olhou para o avô e recordou o
dia em que a aldeia festejara a sua ida para Cuba, sabendo o que dele se
esperava. De pé, sentiu as lágrimas rolarem-lhe pela face. Como podia ter-lhe
perguntado se acreditava no destino, que estava tudo escrito, quando ele mesmo
nem fora capaz de o ler, quanto mais, escrever?
Perdoa-me meu avô. Perdoa o meu egoísmo e a minha ignorância.
Agarrou no livro que trouxera, sentou-se junto à porta e tentou ler, limpando o
resto das lágrimas com as costas da mão. Achou melhor não avisar os outros, ele
cuidaria do velho enquanto pudesse.
Minhoca! É o que tu és, uma minhoca egoísta...
Por volta das nove da manhã, estranhando a sua ausência, Nazamba mandou-o
procurar. Como o velho dormia em paz, a baba a gotejar na camisa velha e
desbotada, Nataniel limitou-se a colocar a mão sobre a sua testa e preferiu
deixá-lo assim, com receio de o despertar, sabia que o avô recusaria ir para a
cama. Pediu ao moleque que viera com o recado que lhe indicasse a casa de uma
das esposas, certamente ao lado na cercadura principal. Informou-a que o velho
estava doente, talvez paludismo, seria aconselhável que ela fosse para lá, mas
que o não acordasse, qualquer outro problema, que o chamassem de imediato,
estaria em casa com a esposa.
- O velho está doente. – disse, ao entrar em casa e sem cumprimentar.
- O que tem? – perguntou Nazamba.
- Penso que seja paludismo, pelo menos parecem ser os sintomas. Já o mediquei e
mandei para junto dele uma das esposas. A tua mãe?
- Está lá fora, pelo menos acordou mais resignada.
Nataniel encolheu-se, lá vinha a conversa de novo, achava-se completamente
esvaziado. Achou por bem não responder e pediu uma muda, queria ir tomar banho
antes de comer. Trocou de ideia e falou para a esposa, aproveitando a ausência
da mãe.
- Quando fui ver o avô, era para lhe dizer que vamos partir o mais cedo
possível.
- Nataniel, sabes que não poderá ser bem assim, até a minha mãe já concordou...
- Tenho-me mantido afastado de tudo isso propositadamente, mas acho que chegou o
momento de começar a bater com o pé no chão, a minha harmonia psíquica começa a
estar em causa.
- Meus Deus, que exagero querido! Que não te sintas confortável, entendo,
todavia estares a perder o controlo de ti mesmo, por favor...
- O que te quero fazer sentir, é que não vejo uma saída feliz para as tuas
intenções loucas.
- Até já pareces a minha mãe a falar. Loucas ou não, vou para a frente e assim
que acabarmos de comer, vou pedir que o avô Nehone venha cá. Se quiseres estar
presente agradeço, caso contrário nada posso fazer.
- Esta não é a mulher com quem eu casei... – disse Nataniel, sofrido.
- E sim, meu querido, sou a mesmíssima, só que agora mais decidida, até porque
carrego no ventre um filho teu. Será que também é da cobra?...
- Nazamba, meu amor, vamos regressar a Luanda...
- Nataniel, só te perdoo porque sei que não estás a fazer de propósito, mas
domina os teus receios e trata de me dar o apoio que vou precisar. Pára de
pretender que não me entendes.
- Claro que te entendo, não luto contra a tradição, nada tenho contra as
cerimónias a que assisti, acredito que tudo isso possa ser possível. Não vejo é
o teu futuro aqui, e muito menos como soba grande.
- Mas se fosse ao contrário, Nataniel? Se fosses tu, tudo faria sentido, não é?
- Não podemos enveredar por esse caminho, é mera especulação, eu nunca aceitaria
tal proposta, e por razões e motivos mais do que evidentes.
- Talvez... talvez. Mas tu pertences às maiorias, não é assim que te ensinaram
lá no partido? Eu sou uma minoria e, portanto, devo-me submeter, não é?
- O que estás para aí a dizer?
- Mas olha que aqui quem está em minoria és tu. – mofou, com ele.
- Nazamba, não brinques com coisas sérias, é a nossa vida que está em jogo.
- Precisamente, meu marido! Finalmente entendeste!...
Furioso, esqueceu-se da muda e do banho, e saiu porta fora.
IN A PRECE DOS MAL AMADOS - PUBLICADA PELA CAMPO DAS LETRAS EM PORTUGAL
http://literaturafragatademorais.blogspot.com/2010/03/prece-dos-mal-amados.html
Publicada por FRAGATA DE MORAIS
http://www.literaturafragatademorais.blogspot.com/
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EDIÇAO NºLXIII
, V NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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