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EDIÇAO NºLXIII , V NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

 

 

 A COBRA E O ENFERMEIRO.

 

 

No meu tempo de travessias, transportando minério do Brasil para o Japão, num percurso que levava trinta dias e noites, cruzando oceanos e mares, com uma tripulação de 32 homens, tínhamos revistas, jornais, livros, enfim uma boa biblioteca sempre atualizada. Cinema, víamos duas vezes por semana.

Como em todos os grupos bem organizados existem as hierarquias, no navio não era diferente: - Comandante com os demais oficiais, sub - oficiais e subalternos.Mas o cronograma não era rígido. Havia uma boa amizade e o uso da piscina e do cinema era livre.

De repente, uma revista chamou-me a atenção porque trazia em manchete: «COBRA PICA ENFERMEIRO E MORRE». Pela foto, calculava-se uma cobra de mais ou menos um metro, e era das mais venenosas.

Impressionei-me com o retrato do enfermeiro, que pela semelhança, aproximava-se muito com o enfermeiro do navio.

Ao concluir a leitura, fui para o salão de estar dos sub - oficiais, procurar o enfermeiro, mas este lá não se encontrava. Li a reportagem e mostrei a foto aos que ali estavam presentes.

Depois da foto muito examinada, os presentes foram unânimes em achar que o enfermeiro era o nosso companheiro.

Após muitos risos e bate-papos, foi sugerido que a reportagem deveria ser dada para o enfermeiro ler.

Como ocupava apenas uma página, cortei-a e colei-a na porta do camarote dele.

O referido era uma pessoa de temperamento difícil e de rompantes.

Além dos que chegavam na sala, chegaram mais alguns oficiais e o comandante, que geralmente vinham para jogar baralho, dominó ou outros jogos.

A porta abriu-se de repente e aos gritos o corpulento enfermeiro foi-se adentrando a perguntar furioso:
- Quem foi o macho que colou esta folha na porta de meu camarote?

Silêncio total. O comandante vendo a situação em polvorosa perguntou-lhe o que havia acontecido.

A resposta foi:
- Olhe aqui, comandante, a reportagem...
O chefe olhou e respondeu-lhe:

_ Não te orgulhas de seres picado por uma peçonhenta e esta vir a morrer? Isto é uma prova de que foste mais forte do que ela! O pior seria se tu tivesses mordido a serpente e entrado em óbito!!!

O sorriso foi claro, no rosto do predador da serpente, e as gargalhadas e os pedidos vieram aos montes:

- Dr., (como são chamados os enfermeiros de bordo), por favor, não nos morda!
Após uma cordial conversa com o Comandante, houve uma mudança radical no comportamento do suposto doutor. A comunicação, a atenção e o companheirismo melhoraram muito.

Entre os demais colegas de navio surgiram comentários:
- O que o Dr. tinha era veneno demais. Precisou descarregar numa cobra venenosa para amansar e tornar-se o homem que é.

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