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EDIÇAO NºLXI , III NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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Coluna de Liliana Josué

 

Casamento é felicidade

 

- Pois é como lhe digo, minha senhora, sou casada há quase cinquenta anos aqui com o meu Augusto. Conhecemo-nos muito novos, principalmente eu: ainda não tinha feito os dezassete… . Ele é que já ia nos vinte e um, idade da tropa, como sabe. Estava a fazer o serviço militar na minha terra. Tivemos de esperar algum tempo para casar.

Tu lembras-te Augusto, o parzinho que fazíamos? Tu alto, magro, todo muito bem parecido... e o uniforme ficava-te tão bem… .
Eu era para o baixo e cheiinha, mas sem ser gorda, cabelos aos caracóis pretos… os dois a passear, às escondidas dos meus pais, lá pela vila… lembras-te Augusto? – Perguntou ela ao sujeito gordo, careca e de nariz vermelho, sentado na cadeira ao lado da sala de espera do Centro de Saúde.

O homem num indiferente encolher de ombros, olhando distraidamente quem entrava e saía, de jornal esquecido nos joelhos, resmungou vagamente qualquer coisa imperceptível.
A mulher voltou-se novamente para a vizinha de cadeira e continuou:
- Como vê, é como lhe digo: já vamos a caminho dos cinquenta anos de casados, estamos a chegar às bodas de ouro, e eu já disse que quero fazer festa.

A outra igualmente de idade avançada, ouvia de sorriso sonhador e um tanto melancólico.
Também ela fora casada , o marido falecera duma embolia, coisa fulminante, antes assim, apesar de lhe ter custado muito a morte dele, pelo menos ficara com a consolação de que não sofrera. Já tinham passado dez anos, mas continuava com o seu vestuário discreto: pretos, cinzentos ou cremes e pouco mais. Não era por preconceito ou receio da vizinhança, mas sentia-se melhor assim, era um sinal de respeito, pronto!

Tinha sido bom marido. Por vezes, lá bebia um copito a mais tornando-se um bocado mais irritável, chegou uma ou outra vez a dar-lhe uns tabefes, mas era coisa passageira, quando lhe passavam os vapores até pedia desculpa.

Também gostava da sua jogatana de cartas no jardim ao pé de casa, mas aquilo nem sempre corria bem, perdera em certas alturas algum dinheiro, isso é verdade. Ela ainda quis uma ou outra vez chamá-lo à razão, mas de pouco servia, até se enraivecia.

Para ele pagar as dívidas, chegaram a ter de vender algum ouro dela, por sinal a maior parte deixado pela sua mãe que Deus tinha, coitadinha. Vícios de homem, que se havia de fazer. Foram momentos difíceis, sem dúvida, mas felizmente, com a ajuda do Altíssimo, tinham sido ultrapassados.

Algumas esposas menos tolerantes que ela, um dia, chamaram a polícia que os levou a todos para a esquadra. Foram admoestados e a coisa focou por ali.
Ele com o desgosto de não se poder juntar aos amigos de jogo até perdera a vontade de sair.
Por fim nem à pastelaria do bairro iam beber o tradicional galão e comer os queques e pasteis de nata ao domingo há tarde.

Ela chegou a saber, que ele andara com uma quarentona loiraça de peitos grandes. Quando ia ter com a fulana, dava umas desculpas tão esfarrapadas, que nem uma retardada mental acreditaria. Mas ela fazia que acreditava e deixou passar apesar de ter sofrido muito; derramara muitas lágrimas, muitas noites sem dormir com um aperto no peito que só ela sabia.

Quem lhe tinha valido fora a Alice, sua grande amiga, chegaram a fazer excursões a Fátima juntas. E o senhor prior lá da paróquia , aquele santo homem, também lhe tinha dado muito alento, uma autêntica bênção dos céus. Instigara-lhe paciência, resignação e principalmente muita fé e oração, tanto para consolo dela como pela salvação do seu homem ; para que ele fosse iluminado para o caminho da moral, junto dela, sua mulher.

E foi o que fez de melhor, porque embora aquilo tivesse ainda durado cerca duns três anos, terminou. Deus acabara por ouvi-la e devolveu-lhe o marido.
Perdoara-lhe como esposa dedicada que sempre fora. Coisas de homem, já se sabe.
Elas também não têm juízo nenhum, põem-se à frente deles a provocar, e eles não são de pau!

Segundo lhe disseram mais tarde, a sujeita tinha arranjado outro mais novo e com dinheiro.
O seu Germano andara uns tempos muito enfadado, até emagrecera.
Felizmente aquilo tudo passara voltando a ser um casal normal.

Filhos é que nunca tiveram, isso desgostava-os um bocado, mas o médico afirmara que ela não podia ter filhos e realmente assim foi.
Talvez por isso o seu Germano tivesse dado aquele mau passo, talvez o desgosto… . «Que Deus o tenha em descanso».

Com uma breve palmada no braço, a mulher do lado tirou-a das suas recordações.
- Pois é minha senhora, isto é que eram casamentos. Agora, por uma coisa de nada dá logo em divórcio. São as facilidades e liberdades destes tempos, ninguém está para se sujeitar a nada.

Em seguida, chegou-se mais à outra dizendo-lhe em tom de segredo, enquanto o marido se entretinha a degustar com os olhos, as pernas e traseiros das mulheres que entravam e saiam:
- O meu Augusto não foi nenhum santo, também teve as suas coisas, mas não foi por causa disso que nos divorciámos. Claro que algumas vezes nos zangámos; chegou a arranjar «amigas», e tinha um costume que me irritava muito: punha-se com binóculos a espreitar as vizinhas. Eu disfarçava para os filhos não perceberem. Temos um casalinho e estamos quase a ser bisavós do meu neto mais velho, vai ser uma menina, que alegria.

Mas como eu estava a dizer, o meu casamento não foram só rosas, enfim, lá fomos levando a vidinha para a frente: criámos os filhos e ainda demos uma mãozinha aos netos.

Já não os vejo há bastante tempo, nem filhos nem netos, mas já se sabe, têm a vida deles, e agora o tempo não chega para nada. E a vida.

A outra acenava com a cabeça afirmativamente de sorriso deslavado e cúmplice.
A conversa foi morrendo entre as mulheres afinal sobejamente conhecido pelas duas, e por tantas outras que estavam naquela sala. O silêncio foi-se instalando permanecendo apenas as vozes de fundo de todos os outros pacientes.

O microfone manifestou-se chamando: - Sr. Augusto Santos, gabinete três.

Lisboa, 17 de Fevereiro de 2010.
Liliana Josué

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