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Crónica de VIRGINIA TEIXEIRA
Vivo num mundo ao contrário e já não sei qual é o topo e o fundo. Vivo num mundo onde os políticos do meu país dizem de boca cheia, sem vergonha, que os seus cidadãos devem ir para o estrangeiro, como se dessem o caso por encerrado e o barco já tão perto de afundar que nada mais há a fazer senão correr para os barcos salva-vidas. No mundo ao contrário onde vivo é legitimo gastar milhões em fogo-de-artifício para comemorar a passagem de ano (e vejam bem que eu adoro fogo-de-artifício) mas os pobres têm de apertar o cinto um bocado mais porque o país está em crise. No mundo ao contrário onde vivo a solidariedade social é tão parca que há idosos a dormir nas ruas, e pessoas a morrer em casa sem serem descobertas durante semanas. Neste mundo ao contrário é legitimo gastar dinheiro em touradas (o que afinal anima mais as pessoas do que uma boa selvajaria?) quando há milhares de cães abandonados por todo o país a morrer à fome, atropelados nas estradas (pensemos pelo menos nos acidentes que provocam!), e atirados ao lixo como se fossem coisas (que é o que são segundo a Lei). Neste mundo ao contrário os professores, criadores da geração de amanhã, aqueles que têm o infinito poder de encher a mente dos nossos filhos de conhecimentos, e ensiná-los a pensar, são tratados como profissionais de somenos importância e, novamente, aconselhados a ir para o estrangeiro assim que possam. E a geração de amanhã, com quem aprende? O que aprende? Ou também tem de ir para o estrangeiro? O mundo ao contrário onde vivo tem políticos que há anos não vêem o interior do metro ou de um autocarro, porque andam de carro para todo o lado e, claro está, o povo paga. Até porque a gasolina está barata, se bem sabem…! Neste mundo ao contrário dizem-nos para mudar a nossa forma de escrever e esquecer a beleza singular da língua portuguesa, porque o que importa é uniformizar tudo e fazer boas relações de negócios. Quem sabe não devêssemos começar a falar todos chinês? Será o próximo passo, provavelmente. Neste mundo ao contrário cortam-se os subsídios para todos, menos para os que ganham mais, porque afinal de contas não queremos que gente de bolso cheio se mude para outro país. Os cidadãos comuns, com parcas poupanças, eles que vão lá para o Brasil ou para a Alemanha, mesmo que tenham estudado em Portugal e sonhassem em fazer crescer o seu país. Esses podem ir que não fazem falta, principalmente os jovens, afinal de contas, quem é que quer uma sociedade jovem? Mas não esqueçamos de, de quando em quando, só para mostrar alguma preocupação com o envelhecimento populacional, apelar ao aumento da natalidade!? Que sentido é que isto tem, num mundo ao contrário onde ser mãe tem de ser um plano para amanhã «quando houver dinheiro» e, para haver dinheiro, temos de ir para o estrangeiro? Neste mundo ao contrário o 25 de Abril é lembrado apenas como um motivo para descansar um dia (esperemos que seja à 2ª ou 6ª feira) com músicas revolucionárias que sabem bem cantar e ouvir, não o símbolo de uma revolução que marcou o nosso povo. Mas a verdade é que não somos povo de revolta, e é com isso que os políticos contam: «vamos apertar-lhes o cinto até morrerem à fome (ou irem para o estrangeiro) que eles não se revoltam». Já estava na hora de lhes mostrarmos que podemos ser um povo pacífico, mas não somos um povo de «parvos» e sabemos gritar alto o nosso descontentamento. Neste mundo ao contrário os hospitais têm cada vez menos profissionais e um seguro de saúde é já um bem essencial, porque o cuidado que os hospitais públicos nos fornecem é equivalente à qualidade e quantidade dos profissionais que são autorizados a contratar. Neste mundo ao contrário fecham os mais importantes estabelecimentos do país, as ruas vão ficando vazias, as lojas entaipadas, os preços dos bilhetes de avião aumentam (com o aumento do fluxo), as casas vão ficando por alugar, os supermercados cada vez mais cheios de comida que ninguém leva, até que sejamos um país fantasma. Um triste fado para a nação que foi dona de metade do mundo… E a palavra saudade (que espero que não retirem da língua portuguesa com o tal novo acordo ortográfico ou quaisquer próximos movimentos de conformidade que queiram fazer) vai ser a mais dita por todos os portugueses espalhados pelo mundo. Os portugueses que queriam ficar na sua terra, na sua Lisboa, no seu Porto, na sua aldeia transmontana, na sua vila piscatória, no Algarve, ou nas ilhas; mas que o governo mandou embora. Os portugueses que queriam aprender, ir para a Universidade, e ser parte do progresso de Portugal; mas que tiveram de partir para sobreviver. Os que têm formação a mais, experiência a mais, para encontrar um salário digno em Portugal. E os professores, que sonhavam ensinar às crianças portuguesas o Hino nacional, e a nossa história, e que partem. Os médicos e enfermeiros que encontram reconhecimento noutro lado. Os jovens que destituem o país da sua alegria e vida, dos seus sonhos e ideais. As famílias que se despedem com lágrimas nos olhos, os «adeus» que custam a nascer. Os idosos que ficam para trás porque não cabem na mala destes jovens que têm de lutar por si, pelo futuro. Neste mundo ao contrário, a palavra saudade tem uma nova conotação: saudade do meu país, dos campos verdes e praias infinitas; saudade da minha família que se visita de ano a ano; saudade da crença num futuro melhor; saudade dos sonhos de criar filhos portugueses e ensinar-lhes a dizer «Mãe»; saudades de sentir orgulho de ser português; saudades do pão e do azeite português; saudades de ouvir falar a nossa língua; saudade de ser Português. |