Pagª 48 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Preferências vocabulares

Por Arlete Deretti Fernandes

 

Fato provado é que falando ou escrevendo deixamos transpa -recer a nossa preferência para certos vocábulos ou torneios de expressão.

Afirmou o cronista Francisco Pati no antigo CORREIO PAULISTANO, que «quando se escolhe a obra completa de um escritor para uma romaria às regiões do estilo, acabamos descobrindo predileções vocabulares que constituem ou acabam constituindo verdadeiros «cacoetes».

O jornalista estava a ler «OS POBRES» do grande escritor português Raul Brandão e achou-lhe uma elegante preferência pela palavra dedada, citando alguns exemplos que aqui escrevo:

Ao descrever um banco de hospital, diz que há nele «nódoas de sangue, dedadas de aflição e suor de desgraçados que se entranhou na madeira».

Outra questão: «De que ruínas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas trágicas?».

Mais este: «Só a morte ainda restava intata, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mistério e toda a sua beleza».

O próprio Pati disse o porque da preferência: «A predileção explica-se pela sua arte de escultor. Raul Brandão vive, com efeito, a dar dedadas nos seus personagens, para acentuar-lhes a expressão das respectivas máscaras.»

Quem ouviu ou leu Dom Aquino Correia percebeu logo a sua preferência para certos modos de dizer que bem o caracterizavam dentre os demais escritores ou oradores. Eram muito freqüentes nele, por exemplo, os ...que se me dá, os dir-se-ia, os em meio a, os em flor e outros.

O Padre José Stringari, meu primo, professor de português e escritor, resolveu ler um dia o volume NOVA ET VETERA, edição da Imprensa Nacional do Rio de Janeiro e notou que mais de quarenta vezes o bispo acadêmico empregava a mesma expressão:

Por entre o louro mar dos seus trigais maduros,
E das comas em flor de crianças gentis. (p.13)

A hora quente ermara-se a campina...
Só as copas em flor, rara bonina
Jogava no caixão. (p. 23)

Na primavera em flor, minha alma seja
A cotovia extática do azul. (p. 30)

Ir pelas ruas de Zamora em flor. (p. 44)

Este éden, todo em flor, de Pindorama. (p.53)

Era um sarcasmo para aquela vida,
Que vergava inda em flor. (p. 55)

Morrer? Sim! Dar o extremo vale a tudo,
Ao sol que nasce, aos palmeirais em flor. (p. 68)

O firmamento é todo azul, a terra
É toda em flor. (p. 76)

Tinha a seus pés por pedestal, o outeiro
Alviçareiro do Ipiranga em flor. (p.82)

Inúmeras vezes vão sendo citadas na obra de Dom Aquino as flores, sozinhas ou coletivamente, como herói em flor, rosas em flor, cafezais em flor, lírio em flor, cidade em flor e muito mais.

Uma florada literária, talvez explicada pelo ambiente em que vivia o poeta, lugar todo feito de primavera sempre em flor.

O grande poeta Guilherme de Almeida quis marcar a beleza de seus versos com palavras exóticas, cujo sentido emocional alcançam apenas os iniciados nelas.

Para os demais são vazias de conteúdo. Ele gostava de store e adorava spleen .

 


Eis alguns exemplos:
... junto a mim,
Na tarde, há frêmitos de spleen. (I,48)

Maio de cinza, agora o teu
Imenso spleen é igual ao meu. (I, 49)

...e a cidade desfia
Trinta dias de spleen, esta neurastenia (I, 88)

Oh! A chuva! Este spleen, esta neurastenia. 9, 1030
Sob o céu cor de cinza como o spleen. (II,101)

... a ampla janela aberta
Para o spleen da paisagem. (II,116)

E assim os spleens continuam por toda a obra do poeta.

Paulo Setúbal tinha a especialidade do uso amiudado dos particípios presentes e sabia empregá-los tão a jeito que tirava deles vigor de expressão e surpresas de estilo.

Vejamos um exemplo no O ROMANCE DA PRATA:

Acutilante: ...aquela acutilante otíncia (p. 23) ... com a mais acutilante e justificada impaciência (p. 185).

Obsedante: E essa ofuscadora serra branca, que se tornou durante duzentos anos o sonho obsedante de todos os violadores de sertão (p. 52). _

Só restou de tanto trabalho, boiando no ar, teimosa, aquela mesma obsedante pergunta _ onde as minas? (p. 96)

- ...esta deliberação verdadeiramente obsedante (p. 147).

Enlouquecente: ...o grande, o autêntico, o enlouquecente herói das minas de prata (p. 52)

- ...com surpresa de toda a colônia, novo e enlouquecente episódio... (p.151).

Acirrante:... abroquelada no seu acirrante mistério (p. 145).

E assim há quantidade de exemplos em todas as suas obras.

Graciliano Ramos vai pontilhando as suas Memórias do Cárcere com a palavra bem. Quase sempre sozinha, entre dois pontos . Tenho em mão a obra, o 2º volume, 2ª edição, da Livraria José Olímpio Editora. Vejamos alguns exemplos:

-«... onde um sujeito de pijama vermelho se ocupava em devorar uma penca de bananas respirei com alívio nessa companhia. João Romariz. Bem. Conversando com ele, sentia-me à vontade. (10) -....»

«...os meus escrúpulos me levariam a recusar assistência, ainda que me achasse em penúria. Bem. Tratava-se então de saber se me era possível contribuir para o coletivo». (19) .

«... Afastei-me engasgado, atordoado, subi os degraus de ferro, mergulhei no quarto. Bem. Tudo certo» 9201)

Este advérbio bem, assim solto e tão freqüente, imprime ao escrito um ar de conversa. Recurso de artista.

Nas Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas, Porto, 1921, verificou Vasco Botelho do Amaral em seu livro A Bem da Língua Portuguesa, Lisboa, 1943, p. 226, que a variedade da prosa de Eça muito sofreu com a predileção que o escritor tinha por vagos termos, frequentemente repetidos. Cita vários; limito-me a um, isto é, a lívido.

Exemplos: «solidão lívida», p. 63; «atitudes severas e lívidas» (p.65); «lívidas castidades» (p. 66); «figuras lívidas» (p. 68; «farrapos lívidos» e «mulheres descarnadas e lívidas» (p. 87).

São muitas e muitas coisas lívidas...

J. Marouzeau em Récréations Latines, Paris, 1940, assinala que F. Brunetière tinha afeições à expressão «A cause que»...: que E. Faguet repetia o ritornelo «lês idées que vous savez qui sont lês miennes»...; que Victor Hugo tinha os seus termos favoritos, como: gouffe, abime, infini, farouche...; que Lamartine gostava dos lances binários como este: «Lá je retrouverais et léspoir et lámour; etc.

Com estes exemplos poderá quem goste das letras, pesquisar e fazer descobertas interessantes nas obras dos escritores de sua predileção, podendo assim alargar o âmbito das próprias observações, analisar pontos de colocação e preferências de nossos amigos escritores, pelos quais temos tanta admiração.