Pagª 1 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Está nascendo outro elefante branco.
Crónica
de Haroldo P. Barboza
Apesar de a memória popular ser curta (por isto temos os «mesmos» na vida pública por mais de 40 anos), o povo do Rio de Janeiro não esqueceu a herança maldita deixada por Cesar Maia no coração da Barra da Tijuca no final de 2008. É a monumental «cidade da música» que tinha um orçamento inicial de R$ 80 MI e até agora já consumiu mais de R$ 500 MI. Sem ter apresentado nenhum número musical 9 meses após sua «conclusão»(?).
Este desmando nos faz recordar o projeto do PAN-2007 um ano antes, que foi orçado em R$ 800 MI e chegou aos R$ 5 BI sem um balancete exibido para a população brasileira para justificar o injustificável «aumento» (desvio) de recursos públicos. O governo federal também foi sangrado neste evento. E pior (ou melhor?): Lula foi vaiado no Maracanã lotado. Sobraram-nos diversas construções que estão se degradando por falta de uso e manutenção.
Mas este negócio de eventos de custo Y que acabam em 5 vezes Y deve ser muito bom para os projetistas, participantes e assinantes! Tanto que nosso Prefeito e nosso Governador estão no exterior tentando convencer ao COI que as olimpÃadas de 2016 devem ser realizadas no Rio de Janeiro.
Agora nossas autoridades estão nos empurrando mais uma obra «monumental»: o novo Museu da Imagem e do Som a ser erguido na Avenida Atlântica em Copacabana. Custo estimado: R$ 65 MI. Mesmo quem tem dificuldades com percentuais, já pode imaginar que isto vai terminar chegando perto dos R$ 300 MI.
Tal projeto conduzido com extrema rapidez com aplausos dos empreiteiros amigos,
certamente não considerou os seguintes detalhes:
- Os valores excedentes que certamente surgirão, deveriam ser aplicados nas
falidas áreas de educação, saúde e segurança. Não necessariamente nesta ordem.
- Se existe um projeto para revitalizar a área do cais do porto, o tal museu ali
seria mais um fator de forte atração turÃstica. Com o valor do IPTU quase 5
vezes mais barato.
- O formato do prédio está em desacordo com a arquitetura local.
- A associação de moradores do local não foi consultada para opinar. Talvez eles
sonhassem com uma praça para seus filhos brincarem.
Se os moradores da localidade não se pronunciarem (esta é a atitude em moda) e
se acomodarem, em breve poderão construir no local um anexo do IML ou um
presÃdio de «segurança máxima» para que os traficantes desfrutem de ares
marinhos durante suas temporadas (curtas) na cadeia.
Continuação da Coluna Um (Ver inÃcio)
Aliás, até existe na gÃria uma terminologia para denominar estas situações que tem o seu quê de elitista também: chama-se de comportamento de «novo rico» ao comportamento desproporcionado de um indivÃduo que não sabe gerir estas situações e que não sabe equilibrar aquilo que é com aquilo que representa. É claro que o «velho rico» não é nem melhor nem pior que o «novo» porque ao fim e ao cabo tudo isto se pode reduzir a uma questão simples de personalidades e de formações morais ou éticas (que valem muito mais que as académicas simples , de longe).
Ora esta longa (aceito a crÃtica) introdução tem a ver (acaba por vir desaguar) no nosso jornal. E acaba por vir ter ao nosso jornal para demonstrar a outra face da moeda dialéctica atrás desenvolvida. Para mostrar agora aquela face em que as coisas se passam ao contrário e onde ser-se pobre não fecha o ciclo nem o raciocÃnio e faz estalar em termos lógicos tudo aquilo que criticámos atrás quando visto nesta nossa perspectiva.
O nosso jornal - pelo menos para mim - é extremamente pobre, mas é simultaneamente remediado e rico.
É pobre porque não tem meios financeiros e nesse plano nem precisamos abrir a gaveta para conferir... é remediado porque tem e vai tendo os meios necessários para se mostrar de uma forma digna e honestamente digna... e é rico por interpostas pessoas, quer dizer, através da riqueza dos seus colaboradores.
São eles, são as suas colaborações, é o evoluir em termos qualitativos dessas mesmas colaborações, o relacionamento quase familiar nalguns casos entre todos (ainda que em circuitos relacionais distintos) que fazem a nossa riqueza e que, por escapadelas constantes que não podemos nem queremos controlar mostram tanta vezes aquilo que, a seguir a lógica introdutória atrás do pobre / rico , por pudor, não devÃamos mostrar: os nossos anéis...os nossos colares de pérolas, os nossos ramos de flores, a nossa rica biblioteca, os nossos campos, a nossa elevada qualidade e categoria .
Porque somos extremamente modestos deverÃamos pedir aos nossos leitores que nos perdoassem o facto de, através dos nossos colaboradores e das colaborações que vamos publicando, mostrarmos tanta riqueza...mas não o fazemos. Estamos até muito felizes com isso!!
Daniel Teixeira
P s: Fiquei de falar durante um tempo na questão financeira mas ela está explicada na secção Cartas ao Director desde há algum tempo.
Apenas temos o acrescento, em relação à quilo que já lá estava que existe a possibilidade dos nossos amigos brasileiros verem facilitada a sua possibilidade de contribuÃrem para o jornal através do acesso a uma conta no Brasil.
Meu caminho
Poema
de Arlete Deretti Fernandes
Nossa vida é um caminho
que precisamos trilhar,
e que no passar dos dias,
muito nos tem a ensinar.
Dos planos, e dos pensamentos,
tudo devemos experimentar.
São luzes nossos sentimentos,
que nos amenizam o andar.
Amor, gratidão, amizade,
e vários conceitos sentir,
enquanto nossa caminhada,
passa por este existir.
Conhecer-me é importante,
Preciso saber quem sou,
a estudar meu caráter,
eu melhorando-me vou!
Continuação da Crónica de Arlete Piedade - 23 de Agosto – Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição (Ver InÃcio)
Basta lembrarmo-nos do Egipto e das pirâmides, construÃdas com mão de obra escrava. Como todos estudámos na historia, estamos a imaginar uma legião de escravos miseráveis nas pedreiras a extrair os enormes blocos de pedra, a transportá-los através de grandes distâncias e a colocá-los nos seus lugares, com os chicotes dos senhores sempre a ameaçar para não pararem e quantos deles não terão ficado enterrados ao longo do caminho?
Os escravos eram constituÃdos por prisioneiros de guerra, e também aprisionados em incursões a terras e territórios distantes, em especial em Ã?frica, que ao longo dos séculos foi a principal fornecedora de mão de obra escrava.
Já no tempo dos egÃpcios isso acontecia, com expedições que faziam ao Sudão e á Etiópia, para obterem escravos e outras riquezas.
Ao longo de toda a antiguidade, os escravos foram uma mercadoria como qualquer outra, traficados e vendidos em mercados próprios e transportados através do mar mediterrâneo em navios próprios, desde os fenÃcios, até aos árabes, sem esquecer os romanos.
Também na Idade Média, com o sistema feudal , estava instituÃdo o estatuto do Escravo da Gleba, trabalhadores e suas famÃlias, propriedade dos senhores feudais, que trabalhavam a terra e sobre os quais, os proprietários tinham absoluto controle e poder de vida e morte.
Com o inÃcio dos Descobrimentos, os Portugueses e depois os outros povos europeus, como Espanhóis, Ingleses, Franceses e Holandeses, chegaram a Ã?frica e depois á Ã?sia e América Central e do Sul, e os povos indÃgenas passaram a ser presa fácil dos traficantes de escravos, que os vendiam em mercados próprios nas cidades dos paÃses ditos civilizados, como se gado ou objectos se tratassem, esquecendo que eram seres humanos iguais a si próprios.
Mas a principal rota era entre Africa e América, com destino ás plantações de açúcar, algodão e café, no Brasil e na América Central e do Norte.
Os navios negreiros eram o terror dos desgraçados que eram separados das suas famÃlias, com destino desconhecido, e cujos algozes eram os seus próprios compatriotas que os aprisionavam com destino ao trafico e os vendiam aos traficantes a troco muitas vezes de bugigangas.
No século XVIII e XIX, com a Guerra Civil Americana, e em Portugal com Sá da Bandeira, a escravatura foi abolida legalmente, assim como nos outros paÃses, como o Brasil, mas o que de facto acontece, é que a escravatura continua activa em todo o mundo.
Como diz Benjamin Skinner, pesquisador, professor e escritor norte-americano, autor do livro A Crime So Monstrous: Face-To-Face with Modern-Day Slavery (Um crime tão montruoso: Cara a cara com a Escravidão de Hoje) numa entrevista concedida ao jornal DW-World D Deutsche Welle http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4589344,00.html, «nunca houve tantos escravos como na actualidade».
O professor do Carr Center for Human Rights Policy da Harvard Kennedy School adverte que escravos hoje são muito mais baratos do que em qualquer outro momento da história da humanidade. E prossegue respondendo á questão do entrevistador sobre se a escravidão é um facto do passado:
«Com certeza, não. Embora existam mais de 300 tratados internacionais e mais de uma dúzia de convenções universais exigindo o fim da escravidão e do comércio de escravos, este ainda é um problema que desafia o mundo moderno.
Pessoas e nações presumem que a lei seja suficiente para erradicar o comércio, mas não é. A abolição legal é um primeiro passo necessário, mas a abolição real requer a aplicação rigorosa dessa lei para perseguir os traficantes e proteger e reabilitar as vÃtimas.»
Ainda esclarece sobre o que é ser escravo e que trabalhos são forçados a desempenhar hoje em dia dizendo: «Escravos são pessoas forçadas a prestar um serviço, mantidas ilegalmente e ameaçadas com violência, sem pagamento e em esquema de subsistência. São pessoas que não podem fugir de seu trabalho.
São usados em todos os ramos da indústria, da agricultura e do sector de serviços. A maioria é forçada a trabalhar para quitar uma dÃvida, em muitos casos herdada de um ancestral. Todo ano, centenas de milhares são forçados a cruzar fronteiras internacionais para executar trabalhos domésticos ou manuais, também como pedintes, ou se tornam vÃtimas de prostituição forçada.
Crianças são obrigadas a lutar em guerras civis brutais; homens e mulheres,
espoliados e obrigados a produzir componentes de produtos de consumo que você
talvez tenha em casa. A escravidão está em todo e em nenhum lugar.»
Ver entrevista completa em:
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4589344,00.html
Hoje que se houve falar tanto em tráfico humano, de mulheres e de crianças que desaparecem e são raptadas, a maioria dessas pessoas destinam-se a ser escravizadas, seja para fins sexuais, seja para trabalhos enganosos em que as pessoas pensam que irão ter um bom trabalho e confrontam-se com sistemas de escravidão em que são forçadas a trabalhar, em condições degradantes e privadas da liberdade em paÃses estrangeiros.
Portanto vamos todos reflectir sobre que mundo é este em que vivemos e agradecer as condições em que vivemos, mesmo que nos apeteça reclamar todos os dias. Afinal temos a nossa liberdade e esse bem que muitas vezes desprezamos é ansiado por milhões de pessoas em todo o mundo.
Arlete Piedade
(Ver o Poema Mão Negra e apresentação P.Point-pps)