Pagª 28 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
A COLUNA DE Jorge M. Pinto
CASOS AO ACASO
Nota introdutória elucidativa:
(Essencial à compreensão de quanto se relata...). (Ver esta nota no
seguinte endereço:
Arquivo
IV. )
Próteses
– Ainda em mais recente fase de ocupação (meados de 1800 inícios de 1900), as guerrilhas eram freqüentes entre seguidores de sobas rebeldes a ela resistentes e tropas portuguesas que faziam incursões para assegurar a soberania no terreno.
Conta-se que numa dessas escaramuças, as tropas portuguesas estavam em sérias dificuldades porque o seu número era insignificante se comparado com as hordas atacantes.
O comandante do destacamento em apuros leva a mão à boca e num gesto só -naturalmente sem esforço ou sangramento- remove a sua prótese superior (já as havia?) que pelo nervosismo da situação e/ou por estar já larga, lhe dificultaria a fala e as ordens de combate.
Apercebendo-se do gesto os atacantes imediatamente se puseram em debandada talvez porque lhe tivessem atribuído poderes sobrenaturais, (ou artes de feitiçaria)....
CARTAS DE AMOR
- Um administrador de circunscrição, D.C. de seu nome completo, era (ou é?) indivíduo verdadeiramente polivalente. Sabia e resolvia quase tudo sobre quase tudo.
Vivia, como vivem os super-dotados, num mundo inteiramente próprio agindo sempre com 100% da sua atenção e simultaneamente aparentando a todos dar os mesmos 100% dela. Além do mais, era um bom amigo.
Estivemos ambos colocados na mesma cidade, no front norte, numa época e local a que o acesso feminino estava, por determinação superior, totalmente vedado. Era tempo de guerra...
Com excepção dos naturais ( talvez pouco mais de 300, entre homens (muito poucos) mulheres – algumas - e crianças -pouquíssimas -, acomodados nas instalações da Missão Católica da área), não havia, senão, os 16 funcionários aí colocados, todos trabalhando, comendo, dormindo, vigiando e se defendendo dos freqüentes ataques numa só e na mesma sala de edifício térreo, com, talvez, 100 metros quadrados de área total construída.
Qualquer saída (viagem para fora desta autêntica lata-de-sardinhas/prisão) era evidentemente bem-vinda e com muita alegria aguardada e festejada.
Ao fim de alguns meses, coube-me a vez de desanuviar, e sair por dois dias em direcção, justamente, à cidade em que vivia a família do super-dotado administrador.
Já na pista, (uma das duas únicas ruas da povoação) pergunto-lhe se quer que leve algum recado, carta ou qualquer outra coisa para a esposa.
Com um pé no avião e outro ainda em terra, dele recebo uma caixa de fósforos - exatamente isso, uma caixa de fósforos- onde, alí mesmo, rabiscara a carta que pretendia levasse para a esposa.
Mantenho em mim…
Mantenho em mim…
As mais duras cicatrizes
Seus ramais, suas raízes
Os rígidos baques da vida
Não há mais cheiro nas flores
Nem há o verde no campo
Irrigados pelos prantos…
Perderam os seus encantos.
Mantenho em mim...
O agreste de um mundo isolado
O meu vinho o meu fado
As noites, o inverno acirrado
Num antro frio e molhado
O beijo que não foi dado
Os pudores e o pecado...
Mantenho-os em mim…
Num passado presente
Em meu corpo carente
Com o meu desejo aguçado
No silêncio me esgana
Quando a chama se inflama
Nos lençóis que me enlaçam
Me aquecem e me abraçam…
Mantenho-os em mim…
Autora: Pequenina
Coluna Poética
Patrícia Neme
Indignação
No verso,
destranco a garganta,
vomito a estupefação
que me come e me consome,
ante a volubilidade
dos que hoje nos comandam,
ante ética e moral
de tão metafórica fala
e dúbio, espúrio, sentido.
A lei,
que vale pra todos,
só alcança o mais singelo
e, se chega no castelo...
Vira lei fora-da-lei.
Quem entende o contra-senso...
Ou será que só eu penso?
No verso destranco a alma,
alma tola, que acredita,
que lei é coisa bendita,
coisa que ampara e protege
quem desde cedo trabalha
e não vive se enroscando
em cpi’s de alegria,
em papéis de alegoria.
Ou coisas de pizzaria!
Se eu não escrevesse,
explodia,
qual rojão de São João,
num réquiem obscurecido
pela ausência de fé na pátria
- que, por certo, eu sempre amo,
mas que de tanto enxovalho
por quem se julga importante
e nem nunca ouviu falar
no que sejam bons costumes,
ou no fio do bigode,
e só faz barbaridade -
hoje é razão de tristeza
pra todo e qualquer cristão.
Não quero essa pátria, não.
Eu quero o chão brasileiro,
povo gentil e brejeiro,
que sabe cantar Trem das Onze,
mesmo lá no Rancho Fundo.
Que diz, e o dito é sagrado
e seu verbo é confirmado
num bom aperto de mão.
Gente que vive da roça,
e rega o chão do sertão
com sangue, suor e esperança,
mesmo a barriga sem pão.
Povo que faz romaria,
que louva Deus, noite e dia,
Deus te guarde, te acompanhe...
Tudo o mais, melhora,
um dia...
Essa Pátria é que a minha.
De gente simples, morena,
que vive a boa vontade,
e traz no olhar a verdade,
de quem só é, o que é,
sem sombras de pretensão,
vendo no outro, um irmão,
que merece amor e respeito.
Essa, é a Pátria do meu jeito.
Cansada de ser explorada,
de ser, por chacais, atacada,
e ter tão pouca defesa,
que ante a corrupção
ainda fica surpresa.
Meu Deus, a coisa tá preta,
não se agüenta tanta treta,
tanta abominação.
Socorre-nos, Pai,
sê por nós,
resgata a ordem e o progresso,
o horror impera, possesso,
no plano alto do congresso....
Êta nós, judiação.
A gente só quer emprego,
mesa farta, teto, escola,
a gente não quer esmola,
só se quer ser cidadão.
Sê por nós, Pai Soberano.
já nos cansou o desmando,
que dura, ano após ano.
Este é o chão do Cruzeiro,
nosso céu tem Teu madeiro...
Olha por nós, por inteiro,
olha por nós o ano inteiro!
Porque senão, meu Senhor,
se tanto mal nos abate,
a quem restará o valor
de vencer o bom combate?