Pagª 19 - EDIÇAO NºXXXIX , III NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Poemas de Ilona Bastos

A Vinha e a Esperança

Agora, é a videira que se enche de parras e de uvas,
que cresce, afoita, num reboliço de gavinhas,
limbos, pecíolos, bainhas, e que se expande sobre o muro,
galgando-o magnificamente, desafiando a rua,
debruçando-se, viçosa, com seus cachos caprichosos,
sobre os carros, as carrinhas e os apressados peões.
Nada teme esta videira citadina, tão tranquilamente verde,
tão essencialmente terra, água e sol, tão fiel a si mesma!
.
Pudéssemos nós, humanos, conhecer a nossa natureza,
Interiorizá-la, assumi-la, vivê-la, expressá-la,
independentemente do solo onde nascemos
e dos obstáculos que a vida nos coloca,
indiferentemente das modas e passageiras seduções.
Seríamos o Homem na sua identidade perfeita,
íntegro defensor do Amor, da Paz universal e do Bem.
Tão natural nos seria sermos humanos como à vinha é ser vinha.
.
Na vinha encontro a plenitude, a beleza do ser.
Enquanto os homens continuarem a plantar vinhas na cidade,
alguma esperança haverá para o Mundo!


A CHUVA

Este som, leve e metálico,
Da chuva que bate nos vidros,
Acaba por ser gentil…
Mesmo quando o seu toque se acelera,
Ou se retarda em singulares gotas,
Ou quando o vento sopra, em sonantes rajadas,
Ou, sonolento, se esparsa, quase se apaga,
Na inércia cinza da paisagem.

É fresca, esta chuva!
Como a ouço, talvez brejeira,
Não indelicada…
Deixou exultantes as flores vermelhas
Daquela exótica planta do jardim fronteiro,
De que não conheço o nome nem o apelido.
Garota, foge ao ritmo agora, insistente,
Esparrinha o tecto da marquise, desafiante…

As nuvens escuras avançam com rapidez!

Sente-se a chuva protegida, e precipita-se
Com violência implícita,
Tão distante da delicadeza inicial.
Rufia, já não soa a música,
Como anunciara à chegada,
Agreste, não poupa os tons, as linhas,
Os traços, as cores, os vultos
Desta cidade, que se afunda no temporal…


Os Balanços do Vendaval

Desfazem-se as árvores
No vendaval.
Folhas, galhos e ramos
Rebolam pela rua
Em abandono.

Trémulas, as folhas
Vibram desgovernadas,
E à nova rajada se debatem,
Agitam e voam.

As flores tilintam
As corolas coloridas,
Despenteadas, desfolhadas,
Desprotegidas.

Os humanos vultos inclinam-se,
Às roupas e ao corpo abraçados,
Cabelos em labareda,
Contra o vento.

E avança, plúmbeo, sobre a terra
O imenso manto das nuvens.

Ah! As minhas flores!
As que plantei com tamanha devoção!
Aguentarão os balanços do vendaval?

 

 

 

 



Podemos viver sem medo?

Por Miriam Cristina Ubaldo 

«Enquanto uns fazem amor, outros fazem guerra e ainda há quem consiga fazer as duas coisas ao mesmo tempo no mesmo espaço». krica

Vivemos tempos extremamente neuróticos e competitivos onde a busca da perfeição se torna a chave da sobrevivência. Resistimos a tufões, secas, terramotos, tsunamis, crises econômicas, guerras sociais e tantos outros holocaustos, mas ainda a maior guerra de todas travamos dentro de nós.

Martirizamo-nos todos os dias negando sentimentos, ocultando facetas, forjando condutas, sorrindo quando se deve chorar, chorando quando não se deve.

Tantas vezes somos o que não somos que um dia nos tornamos irreconhecíveis aos nossos próprios olhos e cobramos do outro aquilo que não podemos dar aquilo que nem sabemos que temos a ofertar. Não compreendemos nossos próprios atos, condutas, sentimentos e queremos ser compreendidos.

Vejam aí o contraste da hipocrisia, da verdade e da fantasia que caminham concomitantemente!

Quando nos abrimos para a reflexão, nos desnudamos diante da razão, encontramos o verdadeiro motivo de tanta confusão:
- O MEDO, no entanto aceitar a existência deste medo nos torna vulnerável e neste mundo neurótico e competitivo não há lugar para medos mesmo que ainda exista quem diga que o medo é preciso, nos torna cautelosos, no entanto, a idéia que nos norteia é a de que admitir tal coisa é permitir que nos esmaguem, é perder a credibilidade, o respeito é estar por baixo.

O que diriam os alunos de uma comunidade violenta que levam facas para escola, pois aprenderam desde guris que só os mais fortes sobrevivem, se seu professor contasse que tem medo de inofensivos grilos? Ririam por certo e todo seu discurso sobre coragem e auto controle cairiam por terra. Coitado deste estaria para sempre destruído.

Este é apenas um pequeno e insignificante exemplo do que o medo ou a descoberta deste poderia fazer com o individuo.

Podemos passar a vida toda escondidos atrás de algo que construímos por fachada e seguir ocultando o medo de errar, o medo de não conseguir, o medo de amar, o medo de determinar, o medo de grilos e tantos outros medos sem que ninguém nunca descobrisse a existência destes, mas o que quero deixar claro aqui é que não podemos cobrar do outro algo que não fazemos por nós, a solução de nossos problemas e o fim de nossos temores esta somente em nós e em mais ninguém.

Verdade ou ilusão somos aquilo que construímos e seguimos nosso caminho como determinamos para nós mesmo.

Não podemos esperar que nos amem ou que nos entendam se não estamos prontos para sermos amados, sobreviver é preciso, mas viver é fundamental.

 

SERIAM HUMANOS OU ANJOS?

Por António Carlos Affonso dos Santos - ACAS

Certa vez um senhor muito rico e poderoso, ao caminhar sozinho por uma rua deserta, na periferia da cidade em que morava, deparou-se com uma linda criança de seus cinco anos de idade. Notou que a criança estava agachada próxima do leito de um pequeno e poluído córrego que passava por aquele bairro. Este senhor poderoso, olhou para os lados e percebeu que àquela hora da manhã daquele Domingo, na rua não havia ninguém, a não ser ele e aquela linda criança. Então , tomou a decisão de aproximar-se da criança, que imóvel, continuava a olhar fixamente para o leito do córrego. Tocou a criança nas costas, esta virou-se e o olhou com um misto de curiosidade e perplexidade. O rico senhor notou então que aquela pobre e linda criança estava chorando em silêncio: seus lindos olhos azuis estavam marejados; a expressão do rosto muito triste.

- O que você tem e o que está fazendo aqui?
- Eu estou muito triste!, respondeu a criança. Ontem à noite eu não conseguia dormir e procurei minha boneca para me fazer companhia na cama e não a encontrei. Por fim voltei para a cama e consegui dormir, mas sonhei que a boneca estava morrendo afogada neste rio, e pedia socorro: a boneca queria que eu a salvasse!. E desse modo não consegui dormir mais.

Hoje de manhã, quando me levantei, lembrei-me que ontem a tinha deixado no quintal: -foi por isso que eu não a encontrei dentro de casa. Mas, quando sai para o quintal, vi que havia chovido muito ontem à noite e que a enchente havia entrado no quintal de casa e levado minha boneca.

- E porquê você está chorando agora?
- É que ela está ali, no lixo, no meio do rio: ela quer que eu a salve, mas mais uma vez eu não posso salvá-la. Tenho medo do rio.

Neste instante o homem poderoso entrou no córrego cheio de dejetos e podridão, com as suas roupas finas e sapatos importados, e não sem muito esforço, devido ao lodaçal, alcançou aquele objeto do desejo.

Com as próprias mãos pegou a boneca e limpou-a como pôde. Saiu do córrego vitorioso, sujo, fétido, peito arfante, cansado, feliz. Tão logo saiu do córrego imundo, aquela criança linda parou de chorar e esboçou o maior olhar de gratidão e o sorriso mais lindo que aquele rico senhor jamais havia visto.

E o homem poderoso, pela primeira vez em sua vida fez um gesto de solidariedade, ainda que singelo. E toda emoção que tinha guardado em seu coração durante toda a vida, aflorou de repente, e ele ali, ao lado daquela criança que sorria e chorava de contentamento, também chorou, chorou como nunca!.

-Seriam humanos ou anjos?