Pagª 16 - EDIÇAO NºXXXIX
, III NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Prosas e Poéticas
Por
Ilona Bastos
Olhares
Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.
Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.
Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.
Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os
aos olhos do mundo, os vÃdeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os
excertos de livros que se me tornaram inesquecÃveis.
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!
Depois de cruzarmos os portões do jardim, decidimos ir buscar pão para o jantar.
A padaria, do outro lado da rua, foi uma surpresa agradável: pequena, branca e
perfumada.
Apesar das paredes em mármore rosado antigo, transmitia uma sensação de
actualidade e limpeza inesperadas. Os suspiros, bem esculpidos, de um design
dulcÃssimo, as bolachas de manteiga, espessas e polvilhadas de açúcar, as
lÃnguas de veado, acabadas de sair do forno, os pães de Deus, pães de leite e
croissants, muito frescos, o pão, nas mais variadas formas e composições,
deliciaram-me.
Encantada, como criança em loja de doces, recordei o sentimento antigo de que os
bolos mais saborosos são os da padaria.
Propositadamente demorei-me na escolha e na encomenda. Permiti ao meu olhar e ao
meu olfacto que se passeassem livremente pelo expositor de aço inoxidável
(talvez daà viesse a inesperada sensação de limpeza…) enquanto dialogava com a
vendedora sobre as caracterÃsticas dos diversos tipos de pão expostos: as
formas, as carcaças, as bolas, as baguetes, os pães de mistura…
Há tanto tempo a comprar pão embalado, no supermercado, esquecera-me até de como
é uma padaria!
Finalmente, tudo escolhido, embrulhado e pago, a padeira deu meia volta,
anunciando: «Esperem um momento! Vou colocar num saco». E retirou de uma gaveta,
com elegância, um saco alvo, translúcido, onde guardou o pão e os bolos.
Uma alegria genuÃna me tomou quando recebi a encomenda por sobre o balcão de
vidro brilhante.
E, dando as mãos, saÃmos da padaria.
E necessário que esta louca, esta filósofa, esta sábia, esta criança sonhadora que em mim habita me sussurre, grite, acotovele, acorde e ilumine, para que decida passar algumas palavras ao papel.
Assim me tem trazido a preguiça, ao ponto de me convencer a ignorar a voz desafiante da escrita. Como é isto possÃvel? O que se passa? Será do Verão, que me embriaga de calor, de céu azul e sol, conduzindo-me por caminhos longÃnquos, tão distantes da poesia? Ou de simples ausência de inspiração, que o morno fluir do tempo acolhe acriticamente e incentiva?
Seja como for, devo estar atenta à s mensagens breves que agora me chegam. Não desprezá-las, é o primeiro passo. O segundo é encontrar em mim vitalidade para descobrir o bloco e a caneta. Depois, o resto resolver-se-á na troca de carÃcias entre o aparo elegante e a superfÃcie atraente do papel. Entre si se entenderão, praticamente sem que tenha de intervir. Nesse bailado sobre o acetinado cor de marfim as palavras surgirão, e com elas as ideias.
Surge-me então a questão: o que nasce primeiro – a ideia ou a palavra? Qual é a causa e qual é o efeito?
Esta dúvida é recorrente no meu dia-a-dia. A possibilidade da inversão do nexo de causalidade persegue-me mais do que seria razoável. Sempre que o resultado de um estudo me é apresentado, interrogo-me sobre se os investigadores tiveram na devida conta a possibilidade de a causa ser, realmente, o aparente efeito, e o verdadeiro efeito a presumida causa.
Corolário, talvez, da minha teoria de que as coisas são o contrário do que parecem, será esta minha suspeita, afinal, uma caracterÃstica intrÃnseca da minha maneira de ver o mundo?
Este barulho incómodo, de motor, este besoirar quase insignificante que me
acordou, é letal, compreendo-o.
Nem desejo levantar a persiana e encarar a rua. Embora, por outro lado, seja
forte a tentação de escancarar a janela, debruçar-me e gritar: «Parem! Que mal
vos fez essa árvore?»
A motosserra manhosa continua o seu trabalho e oiço brados (vozes de homem)
abafados pelos sons exteriores e pelos ruÃdos domésticos, estes mais próximos e
apaziguadores.
A água que corre nas torneiras, o arrulhar dos pombos no sótão, o carro
eléctrico, os automóveis a passar, por momentos encobrem a serra persistente,
que agora retoma o seu labor acompanhada de outra máquina zumbidora, num dueto
que consideraria risÃvel se não adivinhasse fatal.
Fecho os olhos e distingo nitidamente o choupo alto e frondoso, com os seus
ramos abertos e as folhas verdes a brilhar ao sol. Como poderá estar doente,
comido pelos bichos, com o tronco oco – como dizem – se se ergue majestoso,
formando com os irmãos uma magnÃfica guarda que avança pela calçada,
acompanhando o traçado do lancil e projectando, com o balanço dos seus braços,
chispas de luz e desenhos de sombras, sobre o empedrado?
Como viverá a rua sem o seu prÃncipe grandioso? Como continuaremos nós o
caminho, como sairemos para mais um dia, agora que a nossa vista não encontrará
o luzir dos seus abraços, o afago da sua dança, o murmúrio das suas folhas ao
vento? Não consigo imaginá-lo.
E não desejo levantar-me, não. Vejo ainda com nitidez o papel ontem afixado no
tronco do choupo - negro que nasceu, cresceu e viveu, durante perto de quarenta
anos, diante do nosso prédio, e recordo a sentença nele inscrita a caneta
vermelha - «Trabalho a executar: ABATE».
.
A motosserra continua o seu indiferente besoirar e eu sinto a minha vida a ficar
cada vez mais pobre.
Coluna de Maria Petronilho
Humildade
Contém-me
se venço
abraça-me
se ofendo
vem sempre comigo
sê a minha guarda
fecha a minha boca
meu olhar explana
reina em minha alma
permite que eu brilhe
somente no dia
de quitar a veste
que me foi doada.
Companheira Solitária
Na angústia
espero desesperada
tua voz que me falava
de tanta coisa e de nada
tua voz em que voava
te sentia me sentia
enlevada e embalada
companheira
solitária
ainda assim
amparava
meu esforço de ser
cada dia
sonhava
o teu rosto na palavra
seguia no teu sorriso
que nos meus lábios brilhava
agora
sinto-me pena
sem que a mais leve brisa
páre um segundo que seja
para erguer minha alma
para salvar minha vida!
De alegre se fez triste, que outros vampiros vieram !
Hoje «era» noite de festa... durante a noite, há 35 anos, os Capitães de Abril
derrubaram a Ditadura.
Logo de madrugada (dormia com o rádio ligado sob a almofada) escutei a notÃcia e
saÃ, com uma amiga, para a rua.
Como nós, tantos outros portugueses, cheios de alegria!
Surgiram os cravos vermelhos, que os soldados enfiaram no cano das espingardas -
vamos acabar com a guerra!
Dia 25 abriram-se as prisões dos que ousavam pensar por si mesmos e respeitar os
direitos humanos.
Sempre houve cantigas no Largo, perto da minha casa... hoje mal se escutou um
canto triste e vozes que alto protestavam...
Amanhã, dia da Revolução dos Cravos, darão o nome do Ditador a uma praça, na sua
terra. Será homenageado o tirano, por ordem de quem tantos morreram.
Os homens da minha idade ainda não conseguem falar das bombas de Napalm, das
emboscadas no mato, do fogo lavrando em Ã?frica, do barulho dos tiros que lhes
estremecem os pesadelos.
Hoje, foram mais operários despedidos, já são cerca de quinhentos mil
desempregados entre os dez milhões que éramos.
A população decresce, envelhecendo na miséria.
Não apetece cantar Abril!
Estou muito, muito triste... Ah, se outra Revolução houvesse como há 35 anos,
surgiriam de novo os cantos que no peito guardamos!
25 de Abril de 2009