Pagª 28 - EDIÇAO NºXXXIX
, III NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
A COLUNA DE Jorge M. Pinto
CASOS AO ACASO
Nota introdutória elucidativa:
(Essencial à compreensão de quanto se relata...). (Ver esta nota no
seguinte endereço:
Arquivo
IV. )
O meu amigo Zé Bruno
- Ainda durante esta guerra, num recôndito lugarejo guarnecido por um batalhão, entre muitos outros serviu um 1º cabo miliciano (1) J.B.J.S de seu nome - que tinha um notável historial no que ao seu relacionamento com o Exército se refere...
Dotado de inegável superior inteligência, era verdadeiramente cáustico quando se propunha dissertar sobre a hierarquia militar, instituição que não suportava, não compreendia nem aceitava de nenhum jeito.
Conseqüência directa:
Tornara-se o 1º Cabo Miliciano mais antigo de todo o Exército português
(à época ia já no 5º ano consecutivo do seu serviço militar, como 1º
Cabo Miliciano) precisamente porque sofrera várias punições, resultantes
de, quando em quando, despejar o que pensava no jornal da caserna.
Entre outros dos seus conceitos um tinha que era nem mais nem menos o seguinte: General não é senão o Alferes que não teve a inteligência necessária para se deixar morrer enquanto jovem assim tendo perdido a oportunidade de a todos proporcionar um bonito cadáver a carpir . Ao invés, deixara-se envelhecer jogando bridge, saltando o plinto e bebendo whisky como únicas actividades produtivas em vida exercidas. Escrevera também que: O Exército é uma instituição em que a idade aliada à estupidez, confere autoridade.
(1)-Posto presumivelmente inventado por algum visionário dirigente militar com o auto-convencimento de iluminado economista e o objectivo único, ,julgamos, de manter ao serviço Furriéis e/ou Sargentos baratos, já que todas as suas funções eram, nem mais nem menos que as do já referidos Furriéis ou Sargentos, mas o salário as deferências e honrarias, isso sim, permaneciam iguais às de Cabo – ou praça - .
Não hesitava em divulgar estes e outros dos seus pensamentos tão logo os concebia, publicando-os nos tais jornais da caserna e que lhe valeram as punições. Certo dia, ao batalhão estacionado na frente Norte, foi de visita o General Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola.
Procedia este à visita e vistoria das instalações do batalhão, naturalmente acompanhado pelo respectivo comandante da unidade e correspondente oficialato. Pouco atrás fiel, a todos seguia, o 1º Cabo Miliciano J.B.J.S.
Estranhando o facto, o General em determinado momento, pára e
diretamente o interpela:
- Quem é você, e o que faz sempre atrás de nós ?
Perfilando-se e assumindo a respeitosa posição de sentido que se
impunha, responde: (Para todo o diálogo, se as palavras não foram
exatamente estas, delas não andaremos muito distantes):
-Saiba Vossa Excelência meu General que sou o 1º Cabo Miliciano
nº......./..... no momento, desempenhando as funções de Sargento de Dia
à unidade .
-Sargento de Dia ? Mas, então, que é feito da obrigatória braçadeira
identificativa ?
-Com as arrumações a que se procedeu para receber a visita de Vossa
Excelência, e apesar dos esforços desenvolvidos até agora ainda não foi
possível localizar...
-Gostei de você ! (Risos) Venha cá falar comigo. Ora diga-me:
- Há muito serviço no Batalhão ?
- Saiba V. Ex.ª, meu General, que vai dando para as despesas l... É
assim, quase que hoje sim, amanhã também...
-Então, você, hoje, está de sargento de dia. Que fez ontem?
-Ontem, meu General, estive de Sargento Minhoca, .perdão, de Sargento de
Ronda.
-Sargento Minhoca disse você? (mais risos complacentes) Que é isso ?
-O Meu General fará a fineza de me desculpar, mas o hábito e uma imperdoável falta de cuidado na escolha dos termos a empregar na conversa que me dá a honra de comigo manter levou-me a empregar a designação que internamente – e ao nosso nível - usamos para definir a actividade do Sargento da Ronda. Chamamos-lhe de minhoca, porque ele não é senão um «isco» visto que durante a noite outra coisa não faz que andar ao longo do arame farpado, de posto de sentinela em posto de sentinela, à espera que terrorista pegue. Daí, o minhoca !
A conversa prosseguiu com mais situações que se me esvaíram,... todas
elas hilariantes, e desta vez, sem outro resultado que não o da simpatia
do General Comandante Chefe pelo 1º Cabo Miliciano J.B.J.S. xadrezista,
leitor assíduo e admirador convicto de, NIETZSCHE, ZAROASTRES,
ARISTOTELES, SOCRATES, KANT, JEAN PAUL SARTRE..... entre outros .
( Isto ocorreu em 1963...64)
Trasladação de Jorge de Sena foi «quase clandestina»:
afirmou Manuel Alegre
O antigo candidato à presidência da República criticou a trasladação, referindo
que foi «quase clandestina» e ao mesmo tempo que o lugar de Jorge de Sena seria
no Panteão Nacional, onde se encontram outros vultos da Cultura portuguesa,
entre os
quais a fadista Amália Rodrigues.
Por outro lado, Manuel Alegre defende que o acontecimento deveria ter tido mais
impacto nos noticiários televisivos. «Devia ter sido notícia de primeira página
e de abertura dos telejornais.
Não foi. À noite, vi apenas uma nota de rodapé. Daqui a muitos anos terá sido esquecido o que entre nós nesse dia se passou», escreve no seu Blog.

A cerimónia teve lugar 30 anos depois da morte do escritor nos Estados Unidos e cumpre um seu desejo, o de regressar à pátria.
Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu em Santa
Barbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. Hoje é considerado um dos grandes
poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso
século XX.
A sua infância de filho único é marcada pelas expectativas que o pai, comandante
da marinha mercante, alimenta para ele como futuro oficial da Armada, em
confronto com a educação musical que a mãe procura proporcionar-lhe. Em Setembro
de 1937 ingressa na Escola Naval como primeiro cadete do «Curso do Condestável»,
mas vicissitudes diversas da viagem de instrução no navio - escola Sagres ditam
a sua exclusão da Marinha em Março de 1938.
Parte importante destas vicissitudes tem que ver com o endurecimento das normas que regem a instrução dos cadetes, em consonância com a fascização do Estado Novo por ocasião da Guerra Civil de Espanha. A passagem pela Armada no preciso momento da luta pela liberdade em Espanha constitui uma experiência traumática da sua adolescência que será matéria de diversos poemas e ficções, como «A Grã-Canária» e, no caso da Guerra Civil, Sinais de fogo.
Jorge de Sena, que começara a escrever em 1936, estreando-se em 1942 com
Perseguição, acaba por se licenciar em Engenharia Civil (1944) pela Universidade
do Porto, trabalhando
na Junta Autónoma de Estradas de 1948 a 1959, ano em que se exila no Brasil,
receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe
de estado, a 11 de Março desse ano, em que está envolvido.
A mudança para o Brasil permite-lhe uma reconversão profissional que vai ao
encontro da sua vocação, dedicando-se ao ensino da literatura, acabando por se
doutorar em Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara
(São Paulo), em 1964, obtendo também o diploma de Livre - Docência, para o que
teve que naturalizar-se brasileiro (1963).
Os anos de Brasil (1959-65), os primeiros vividos, como adulto, em liberdade,
são talvez o seu período mais criativo: completa a sequência de poemas sobre
obras de arte visual, Metamorfoses (uma das obras que mais influência teve na
poesia portuguesa), escreve os experimentais Quatro sonetos a Afrodite
Anadiómena, as metamorfoses de Arte de música e a novela O físico prodigioso,
inicia o romance Sinais de fogo, investiga e publica sobre Luís de Camões e o
Maneirismo, trabalha na edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa,
retoma a escrita para o teatro, etc.
A alteração da situação democrática no Brasil, com o golpe militar de 1964, faz temer um regresso ao passado, quer em termos políticos quer em termos de dificuldades económicas, mas em 1965 surge a oportunidade de se mudar para os Estados Unidos, com Mécia de Sena e os seus agora nove filhos.
Em Outubro desse ano passa a integrar o corpo docente da University of Wisconsin, Madison, onde é nomeado professor catedrático efectivo (1967), transitando, em 1970, para a University of California, Santa Barbara (UCSB).
Durante a sua permanência na UCSB, até ao final da vida, ocupa os cargos de director do Departamento de Espanhol e Português e do Programa (interdepartamental) de Literatura Comparada.
Foi ainda membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of America.