Pagª 12 - EDIÇAO NºXXXVIII
, II NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote»
Por
João Furtado
Vestida imaculadamente de branco, a senhora Matilde, sim era este o nome da velha que diariamente sentava-se a berma do rio Papagaio.
Usava saias longas e de pregas e uma blusa de mangas folhadas. Esperava alguém, alguém que deveria voltar e nunca mais voltaria. Aquela zona era denominada de «San Lijà Bote», em português, senhora Luísa Bote.
Que esperava a senhora Matilde? Alias quem esperava ela?O João diariamente passava por ela e tornava a passar. Passava para ir a escola e passava de novo quando voltava para a casa. A senhora Matilde lá estava.
Ia bem cedinho e só regressava a noite. Há anos que ela passava o dia sentada. Alimentava de cola e agua. Graças a Deus a cola era uma semente milagrosa. Bastava uma semente para não se sentir a fome durante longo período do dia e era fácil de se conseguir.
O fazia ela sentada ali e quem esperava ela?
A agua cristalina e transparente descia rio abaixo até o mar alheio a tudo e a
todos e a Senhora Matilde, alheia a tudo que passava a sua volta fixava os olhos
no rio e via a agua correr na sua trajectória milenar, enquanto respondia a
todos que por ela passassem o «Passô» com outro «passô».
Ninguém mais se importava com ela. O hábito de ficar sentada a beira do rio já se havia transformado em normal, natural.
Um tão estranho hábito tornou-se habitual e quando o estranho se transforma em normal, ninguém mais liga. A Senhora Matilde já tinha se tornado em parte integrante do ambiente.
Um dia ela não pode ir, ela tinha apanhado uma ligeira gripe, ai sim todos acharam anormal e correram para a casa dela, para saberem o que havia acontecido com ela.
O João sabia o caminho que devia seguir de cor e salteado. Nunca deveria encurta-la. Devia ir tomar sempre a ponte e atravessar o rio, seja porque razão ou motivo for.
Mas naquele dia estava com pressa e o rio parecia tão calmo… podia saltar a casa ficava a poucos metros da margem do outro lado do rio.
Já
estava a entrar na água quando ouviu a Senhora Matilda a chama lhe:
- Mino, minooooooooo, vem cá!
Voltou, veio responder, na Ilha era assim, todos se conheciam e se respeitavam, uma Ilha pequena e uma cidade ainda mais pequena.
Tornou a dizer «passo» era o costume. Se encontrassem mil vezes, mil «passo» era dado.
-Sabes porque estou cá sentada? Não, não sabes! Tenho uma única filha, a Maitê,
devia ter tua idade quando entrou na água, precisamente onde ias entrar. Nunca
mais voltou e eu estou cá a espera dela, um dia haverá de voltar.
-Para onde foi ela?
-A «San Lijá Bote» levou-a para o seu mundo. Todos dizem que ela nunca mais voltará, mas eu sei que um dia a Maitê voltará. Um dia a “San Líjá Bote» deverá dormir e ela fugirá e regressará.
-Há quantos anos ela desapareceu?
-Há mais de trinta anos, mas vou esperar, vou esperar até o dia que ela regressar, irá voltar um dia! Era um dia de sol como hoje. A água estava cristalina e transparente. Ela vinha em grupo da escola. Entrou na agua e as colegas ficaram a vê-la, de repente fez um remoinho no meio do rio e ela foi puxada. As outras crianças viu-a a ser puxada e nada podiam fazer, até que ela se perdeu para sempre.
-A senhora vai ficar aqui mais quanto tempo? Porque não entra no rio e vai
procurar a sua filha?
A senhora Matilde não respondeu. Caiu de novo no seu silencio e na sua resposta ao «passo» que os habitantes da Ilha lhe desejava…
Por muito tempo o João e os habitantes da ilha continuaram a ver a senhora Matilde imaculadamente vestida de branco sentada esperando a filha Maitê. Até que um dia ela deixou de ser vista. Procuraram-na por toda a Ilha, mas ninguém a encontrou. Ninguém soube ao certo o que aconteceu com a Senhora Matilde.
O João tinha uma certeza, a Matilde havia entrado no rio, havia ido procurar a Maitê e a «San Lijá Bote» ficou com ela também. Disse para toda a Ilha, afirmou que foi ele que a aconselhou a fazer tamanho disparate, mas ninguém acreditou nele.
Ainda hoje fala-se na «San Lijá Bote» na sua fome insaciável de povoar o seu reino encantado e também fala-se do desaparecimento misterioso da Matilde.
Mas nunca ninguém ligou os dois casos.
Ninguém não, o João os ligou sempre.
Praia, 08 de Setembro de 2009
João Furtado
O Coral das Lavadeiras de Almenara

Minas Gerais e o cantor e compositor Carlos Farias vêm realizando um importante trabalho de preservação e divulgação do patrimônio cultural imaterial do Vale do Jequitinhonha.
Fundado em 1991, o coral gravou os CD-livros «Batukim Brasileiro» (2002) e «AQUA» (2005), contendo batuques, moçambiques, sambas de roda, chulas, rezas, modinhas e toadas - herança dos colonizadores portugueses, negros, índios, canoeiros e ribeirinhos. Exemplo bem sucedido de inclusão social através da arte, o grupo está percorrendo o Brasil com o espetáculo «Batendo roupa, cantando a vida», fazendo uma singular e comovente leitura dessas canções, temperadas com histórias vividas na beira do rio, ao som de violões, sopros e percussões.
Além do espetáculo musical, os artistas apresentam a palestra/oficina «conversa de lavadeira» e a cerimônia de «bênção das águas». Em todos eles, o público terá a oportunidade de conhecer e trocar experiências com as protagonistas, verdadeiros tesouros humanos vivos. Ouvirá canções e histórias plenas de emoção e brasilidade, retratos do cotidiano de quem soube vencer as adversidades, completados pelo amoroso gesto de abençoar as águas do nosso planeta.
Soa como cantigas de amigo, cantigas de roda, cantos ancestrais, lembranças queridas guardadas no mais fundo da memória...Suas histórias e canções podem nos levar do riso às lágrimas, no mais puro encantamento. Elas revelam a porção melhor que existe em nós: nossa humanidade.
A história do Coral das Lavadeiras começou em 1991, a partir da construção de
uma lavanderia comunitária no Bairro São Pedro, em Almenara, pelo ex-prefeito
Roberto Magno. Incentivadas pelo cantor e pesquisador cultural Carlos Farias,
elas passaram a cantar em grupo e criaram a ASLA – Associação Comunitária das
Lavadeiras de Almenara, reunindo mais de cinqüenta mulheres. O trabalho teve
logo uma ótima repercussão e elas começaram a participar de festivais na região
e em outras cidades do Brasil.
Com a volta do compositor Carlos Farias a Belo Horizonte, em 1994, para cuidar
da sua carreira musical, o coral passou a ser coordenado por Tânia Grace
Almeida, que permaneceu com o grupo até 1998.
Em outubro de 1999 as lavadeiras tiveram a primeira experência em estúdio, ao
participarem da gravação de um CD coletivo, em Teófilo Otoni, juntamente com
outros grupos culturais do Vale do Jequitinhonha. Esse disco chama-se «Por Cima
das Aroeiras» e ficou pronto no ano 2000.
Em 2002, com o lançamento do CD-Livro «Batukim Brasileiro – O Canto das Lavadeiras», terceiro álbum de Carlos Farias, reunindo uma parte do repertório pesquisado, a música das lavadeiras cruzou as fronteiras do país e chegou à Europa. No período de 07 a 17 de março o coral participou do 3º FACR- Festival de Arte, Criatividade e Recreação, realizado na Ilha da Madeira, em Portugal.