Pagª 27 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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As doideiras de Zé Doidim

(causo) Por José Pedreira da Cruz

me lembro perfeitamente
da Escola Silva Jardim
onde tinha um moleque
chamado de Zé Doidim
era um garoto capeta
que vivia arrumando treita
e jogando a culpa em mim

ele um dia entrou na igreja
bem na hora do sermão
e chamou o padre de corno
só por pura diversão
o vigário bem irritado
disse que tinha um diabo
lhe fazendo tentação

fez quatro sinais-da-cruz
pra melhor se proteger
e deu ordem a Zé Doidim
pra dali se escafeder
o moleque não gostou
e tão logo retrucou
dizendo: vai se.......

*
voltando pra nossa escola
onde o «bicho» ali pegava
não vou dizer outra coisa
senão a história passada
foi soco pra todo lado
o maior arranca-rabo
por causa d’ua namorada.

o safado do Zé Doidim
era mesmo atrapalhão
passava a mão nas meninas
só pra arrumar confusão
quando u’a briga ele arrumava
bem depressa escapava
deixando todos na mão.

me lembro de uma menina
chamada de Juliana
que se achava a boazuda e
certamente a mais bacana
foi ela a causadora
de uma rixa duradoura
por se sentir gostosona

Certo dia essa menina
começou uma choradeira
era um choro bem nojento
que alarmou a escola inteira
e o Zé Doidim comovido
foi consola-la no ouvido
sentado na sua carteira.

a coitada da menina
não parava de berrar
foi então que Zé Doidim
foi depressa acalentar
aproveitou o momento
e sem ter constrangimento
começou a lhe apalpar

mão aqui e mão acolá
foi Zé Doidim esfregando
e Juliana em prantos
foi logo se esquivando
mas a coisa perigou
um soco ela acertou
e ele caiu se estatelando

o namoradinho dela
que se chamava Romeu
quando viu aquela cena
logo se enfureceu
ficou todo avermelhado
de olhar arregalado
e ai o pau comeu

o Romeu partiu pra cima
querendo mesmo brigar
parecia um leão faminto
querendo se atracar
foi um corre-corre danado
o maior arranca-rabo
um pega aqui, pega acolá.

Zé Doidim tomou u’a surra
como nunca esperava
e a menina Juliana
que há pouco tempo chorava
dava pulo de alegria
dizendo, sim, agora via
a vitória de quem amava

quase ninguém sabia
daquele namoro escondido
se a turma fica sabendo
o Romeu estava perdido
pois o pai de Juliana
era uma fera insana,
um perigoso bandido

foi então que Zé Doidim
encontrou uma solução
pensou direito na vida
pra tomar uma decisão
- Vou avisar ao pai dela
disse com toda cautela
e foi procurar o Tonhão

o Tonhão depois que soube
que a filha namorava
jurou dar uma surra
na pessoa que mais amava
e ainda prometeu:
vou dar o maior cacete
quando eu encontrar o Romeu

Zé Doidim voltou feliz
radiante de alegria
e disse pra todo mundo
que esperança agora via
de ver o Romeu caído
quebrado, todo moído
pra vingar aquele dia.

o Romeu ficou sabendo
do grande alcagüete
e avisou pro Zé Doidim
vou te dar outro cacete
pra você nunca esquecer
e de uma vez logo saber
que comigo não tem macete.

Zé Doidim tomou outra surra
bem pior que a primeira
e nunca mais ele apalpou
as menininhas na traseira
ficou um homem direito
de pudor e de respeito
e pôs fim na brincadeira.

A turma ficou contente
com aquele final feliz
pois ninguém mais suportava
tanto sangue de nariz
e Romeu com a Juliana
foi a coisa mais bacana
foi isso que o amor quis

José Pedreira da Cruz

 

 

 

Poesia de José Manuel Veríssimo

Fumos

Viver em silêncio
Alguns gestos
Sopros de claridade
De esperança
Entre nuvens carregadas
Consenso
De olhares
Serenos
Fraternos
Brisas
Ou fortes ventos
De lés - a - lés
Luares
Enrolam e desenrolam
Seres
Corpos……….
Momentos
Acesos
Nos encontros
Entre vagas
Rochedos
E o fumo das marés

Seixal 18.07.2009


Mar dos Sargaços

Importa descobrir o espaço
A espera do tempo marcado
Lágrimas de ampulheta
Caídas
Sonoras
Em compasso

Vento que empurra
Asas de gaivota
Rumo ao Mar dos Sargaços
Reproduzir vida
Cardumes de espécies
Em invasão desmedida
No oceano imenso
Simples traços
A exactidão dos momentos
Naturalmente exactos
Natureza – medida
Neste Mar de Sargaços

Seixal, 18.07.2009


Não me Basta - ou sobre um passeio tardio por Lisboa á noite

Não.
Não me basta olhar
Tocar ao de leve
Nos teus cabelos
Soltos
Rebeldes
Macios.

Despentear-te
Provocar-te
Esse pestanejar
Medroso
Esquivo…………

Quero enfrentar
O teu corpo
E os teus gestos de surpresa
Sem rostos lívidos
Incluir-me em ti
Sem certezas
Rodopiarmos
E cansar-me
Mais do que meia dúzia de vezes

Olhar de novo para mim
E para o refúgio
Em que me escondi
Poder gritar-te
Em silêncio
Amo-te assim

Seixal, 18.07.2009

José Manuel Veríssimo

 

Esquecer a vida

Autora: Pequenina (www.pequeninapoesias.com.br)

Quero esquecer a vida
E o tudo o que me acerca
Viver com a realidade
Sem luxos, e sem vaidade
Ser livre, com liberdade.

Quero comer «pamonha»
Do milho verde, tenrinhos
Feita na casca, em tubinhos
Dos céus, o melhor manjar
Melhor que este não há.

Quero dormir na rede
Olhando de perto o teto
Por folhas secas coberto
Ver a chuva regando a horta
E o galo a cantar a porta.

Pisar na terra molhada
Com os gansos a dar risadas
Ao verem-me despenteada
Muge o rebanho no curral
Os pássaros fazem o coral.

Quero ter luzes vagando
Com os pirilampos piscando
Voando daqui para acolá
Nas densas matas verdinhas
No alto das «Andorinhas».

Onde o plantio é fecundo
Num paraíso de um mundo
Tão pobre e tão desgastado
Ali, vou sepultar o meu fado
E com ele, todo o passado.