Pagª 29 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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As Cerejeiras do Japão

Por José Pedreira da Cruz

Sou um brasileiro que vergonhosamente nunca viu um Pau Brasil (razão do batismo de meu País), esquecido por todos e quase que exterminado descaradamente pelo ganancioso vandalismo econômico no transcorrer de séculos, mas que muito admira a beleza exuberante do Sakura, ou «Sakurá», como se pronuncia em japonês; ou simplesmente cerejeira, como se diz por aqui.

Quando chega o mês de agosto as abelhas abrilhantam com seus zumbidos incessantes a festa das cerejeiras do Parque do Carmo: um dos maiores da cidade de São Paulo localizado na sua zona leste.

A revoada de beija-flores e de insetos à procura do néctar das flores rosadas é intermitente e uma sensação de se estar envolvido com a natureza faz com que, todos os anos, este espaço ambiental se torne alvo da visitação pública, aonde os olhos se encantam com a beleza ímpar da florada das cerejeiras, sutilmente transformando em róseo tudo que por ali antes era verde.

O quê deveria ser orgulhosamente chamado de festa do Pau Brasil, chama-se de festa do «Sakurá», isto em razão dos imigrantes japoneses terem pacientemente transladado oceanos com mudas de cerejeiras do Japão e presenteado o Brasil com sua árvore símbolo nacional, e que, anualmente, se jubilam com orgulho, cânticos, comilanças, danças, ritmos, respeito, alegria e admiração.

- E assim que se faz no Japão; é assim que matamos a saudade de lá! – foi o que me disse um velho nissei, que parecia voando na felicidade, e sorria prazeroso, ao ver sua neta vestida a rigor e dançando suavemente o Asadoya -Yunta, a dança da celebração do amor, com gestos leves na cadência rítmica da melodia nipônica.

O colorido das vestimentas se misturava alegremente ao movimento sutil da dança típica embalada pela música suave que aquietava a platéia, e todos os olhares se focavam para o deslumbrante espetáculo de som e flores em meio ao cor-de-rosa das cerejeiras do Japão.

E eu, como um simples assistente, mas com uma inquietante dúvida, sem resposta silenciosamente me questionava:
- Será que os brasileiros emigrantes no Japão têm por lá a festa do Pau Brasil?

Melhor seria se Pedro Ã?lvares Cabral tivesse batizado esta terra como antes queria: Terra de Santa Cruz, assim, quem sabe?...

Esqueceriam nossas florestas e o Pau Brasil estaria a salvo dos assassinos florestais, e eu, assim como os netos e os bisnetos (nisseis e sanseis) dos japoneses fazem, também pudesse festejar alegre e orgulhosamente nossa árvore símbolo nacional, mas, como não a temos, continuarei a festejar o «Sakurá» que agora, também, é brasileiro.

 

 

 

 

 


A valsa do mendigo

Por Se Gyn

Toda cidade é uma realidade inconfundível, com características muito próprias, que resultam num universo particular, que muda, se movimenta e expande, freneticamente.

Dentro desta realidade, a população, um contingente de destinos, propósitos e necessidades, que se constitui na mola propulsora da vida e do movimento.

A paisagem urbana muda - e, na mesma medida muda a paisagem humana. Uns poucos tipos remanescem pelos bairros, inafastáveis, como testemunhas de todas as mudanças - relojoeiros, corretores, alfaiates, malandros e... mendigos.

No centro da cidade, existem pontos em que os mendigos se fixam, como que grudados à calçada ou amarrados aos postes da rede de energia elétrica. Marcam território, exigem reconhecimento da soberania sobre ele. Ninguém se mete...

No cruzamento da avenida Anhangüera com a avenida Goiás, me lembro, havia um pedinte cego, que passava o dia agarrado à sanfona, massacrando a melodia de músicas sertanejas e nordestinas.

Batia teclas e cantava numa altura absurda, a ponto de superar todo o ruído ao redor e, chamar a atenção para si. Parava, conferia a latinha de moedas, agradecia ou praguejava baixinho, ajeitava os óculos escuros e, recomeçava.

Vi essa cena todo dia, anos seguidos, enquanto a paisagem urbana e humana do centro da cidade mudava dramaticamente, empobrecendo, que só.

Um dia, dei pela falta do tal mendigo e seu concerto azucrinante. havia desaparecido cafuzo e, sua remendada sanfona vermelha.

Tempos depois, mudei de local de trabalho e, tinha passado pelo centro, para resolver um problema qualquer. Parei no sinal fechado da rua 3 com a avenida Goiás. De repente, ouvi o som da velha sanfona e, imaginei que o velho mendigo havia mudado de ponto.

Que nada. Logo, apareceu entre os carros, um outro mendigo - um mendigo meio soturno, que sempre pedia uns trocados por ali, com a sanfona vermelha sobre a pança, tocando uma valsinha, sem se arriscar na cantoria...

O mendigo da rua 3, em vez de comprar as luvas do lugar do mendigo da avenida Anhangüera (aparentemente melhor), fez opção pelo chamariz que o outro utilizava - a sanfona!

Sorte que, o mendigo da rua 3, dominava melhor o instrumento que o outro (o que ele demonstrava pelo olhar confiante e o sorriso estampado no rosto esculpido pelo sol)...