Pagª 23 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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E tudo parecia bem dias depois

Sandra

O novo vizinho que queria desmanchar parte da nossa Horta para fazer garagem e gramado, recuou diante do abaixo assinado dos moradores.

Fui nomeada Prefeita da minha Quadra, mas não há motivos para comemorar, porque considero a tarefa incompatível com a Literatura e a Natureza que tanto amo.

Pretendo ficar pouco tempo no cargo, que não é remunerado e depende de boa vontade da comunidade para se fazer alguma benfeitoria a favor de todos. Creio que confundiram amor às plantas e animais com amor às pessoas.

Amo todas as plantas e animais indistintamente, intensamente e desarmada. Confio neles, especialmente quando estão bem alimentados e com sua liberdade preservada. Vocês já ouviram contar que um animal ou uma planta nessas condições age como predador?

Mais uma vez, grata pelo apoio.
Um grande abraço

MAS NAO ESTAVA TUDO BEM

Prezado Amigo da Horta Comunitária 713 Norte,

Por favor, leia!

O Capitão Miranda é militar do Exército Brasileiro, servindo em Brasília, e que, segundo ele próprio informou tempos atrás, mora em apartamento funcional do     Governo. É proprietário da CASA 04 do Bloco B do Setor Habitacional Coletivo Geminado Norte 713 (SHCGN 713 – Bloco B - Casa 04) na Asa Norte, em Brasília.

Vários meses se passaram desde a última vez que o vi. Quando comprou a casa do Sr. Walter, que é um gentlmam, há cerca de três anos, fez também uma reforma com as próprias mãos, sempre aos sábados e domingos. Depois alugou a casa a uma família de Goiânia com a qual nos dávamos muito bem. Agora me contaram que vai morar no imóvel porque se aposentará do Exército.

Há três semanas cumprimentou-me na calçada em frente as nossas casas e foi logo dizendo:
- Vou arrancar isso tudo aqui, apontando para mais de um terço da Horta Comunitária.
- Mas senhor, a Horta é da comunidade. Os antigos moradores apoiaram. Não vai lhe atrapalhar em nada.
- Mas vou arrancar tudo, porque quero fazer mais uma entrada para carro aqui. Ali ao lado vou colocar grama e pronto - respondeu ele já irritado.
Ainda tentei argumentar:
- Senhor, essa planta aqui é jurubeba, ali é babosa, aquela na frente é alfazema. São todas medicinais. Há plantas que vieram dos Andes, do Mediterrâneo, do Sul... Não podemos mexer em nada porque a umidade do ar está muito baixa.
- Não me interessa. Vou arrancar e pronto.
- Desculpe-me a insistência, mas o senhor já tem garagem para cinco carros, entrada e circulação de pessoas garantida a mais de cinco metros da Horta. Além disso, esta área é pública, não é do senhor.

Ele nem esperou que eu terminasse de falar e adentrou-se à sua casa juntamente com a filha, uma jovem bonita que tudo ouvira e concordava com suas colocações. Fiquei ali um tanto quanto desolada, olhando para as plantas e elas para mim, sem sabermos o que seria de nós. Se ele de fato resolvesse insistir naquela atitude, elas não sobreviveriam. Algumas demoraram dois anos para se adaptarem ao clima seco e arenoso do cerrado. Outras tenras não resistiriam à mudança de ambiente.

E as sementeiras? Seriam todas exterminadas. O que dizer das maiores, como o pezão carregadinho de jurubebas e os mamoeiros carregados de mamõezinhos?

Percebi que de uma hora para outra a tristeza e a dor se abateram sobre o ambiente. Meus olhos se encheram de lágrimas e, tenho certeza, os delas também.

Alguns minutos depois, vi que Leoni se aproximava. Leoni é uma vizinha que ama muito os animais. Já recolheu vários deles abandonados à sua residência, além de cuidar dos que ficam nas casas próximas quando seus donos viajam, e de chamar a atenção das pessoas que os aprisionam ou maltratam..
- Olá, tudo bem? - perguntou ela
- Não. Está tudo mal.

E contei-lhe o triste diálogo com o futuro morador. Prontamente, ela disse:
- Vamos lá tentar falar com ele novamente.
Aproximamo-nos da grade de proteção e o vimos pela porta aberta varrendo sua sala.
- Podemos falar com o senhor sobre a Horta?
- Não, não podem. Estou ocupado.
E bateu a porta na nossa cara.

Dois dias depois tive uma idéia. Vou providenciar um abaixo assinado para tentar sensibilizá-lo. Procurei ser rápida, com medo que ele cumprisse o prometido.


Consegui mais de cem assinaturas rapidamente, manuscritas e do grupo amigos da Horta que me enviaram pela internet.
Tirei cópia e mandei entregar-lhe em mãos, logo que foi visto na casa. Assim mesmo continuamos passando as folhas para reunir mais assinaturas. O Sr. João do Bar. Com, a Leoni, a Maria ficaram colhendo mais assinaturas.

Agora o Capitão do Exército Brasileiro vinha sempre porque decidira trocar o piso de sua casa e fazer outros reparos. No início da última semana, no começo da tarde, eu o vi chegar fardado em uma Kombi do Exército dirigida por um soldado, da qual descarregou material de construção, retornando ambos no mesmo veículo.

Na maioria das vezes, ele aparece em uma caminhonete antiga Placa , e ora estaciona ao longo da lateral esquerda da Horta, ora nos fundos da casa, ora junto ao meio fio da frente da casa.

E um homem de estatura baixa, magro, cabelos ralos, bigode branco, moreno de pele maltratada pelo excesso de sol, que não se aproxima das pessoas e nem as encara de frente. É do tipo arredio, fechado. Pega no batente junto com os peões, varre, lava, limpa. Nunca vi sua esposa e apenas aquela filha por alguns minutos.

Hoje, domingo, dia 23 de agosto de 2009, por volta das 14h30min ouvi Dona Dica, vizinha e secretária da Prefeitura me chamar lá na Horta. Desci as escadas e fui atendê-la. Ela disse:
- Só vim trazer comida para as minhocas.

E foi se dirigindo ao minhocário. Acompanhei-a. Ao mesmo tempo vimos que o Capitão, a quinze metros de distância, varria a calçada em frente à Horta, jogando todo o lixo sobre as plantas. ( papéis sujos de banheiro, papelões, folhas secas, restos de obra.
Comentei:
- Oh, Meu Deus! Ele está sujando toda a Horta. E com raiva. Veja, Dona Dica!
Ao que ela respondeu:
- Deixe pra lá, Dona Sandra. Depois a gente limpa. Vou apanhar umas capuchinhas para a minha salada. Até logo.
- Até logo, Dona Dica.

Entrei em minha casa e dona dica foi para a sua. Alguns minutos depois, ouvi o Skypie latindo forte e o barulho de paus e pedras lá fora.
Desci novamente as escadas, senti o pedido de socorro das plantas e me dirigi para onde elas estavam. Levei um choque diante da cena. Estava quase tudo destruído.

Os canos de irrigação e as mangueiras de aguação danificados, vasos de plantas quebrados e espalhados pela Horta, as alfazemas arrancadas, os funcho quebrados, a cerca viva de guaco destruída sobre a calçada, a lateral do minhocário arrancado e os bambus que haviam sido cuidadosamente trançados jogados no chão enquanto o Capitão acabava de ingressar em sua residência com uma enxada nas mãos.

Senti ao mesmo tempo vômito, cegueira e tontura. Olhei a volta e não vi mais ninguém nas proximidades que pudesse me socorrer. Minha família havia saído e eu estava só com o Skypie.

Mesmo assim reuni forças, retornei a casa, apanhei a máquina fotográfica e voltei á Horta, fotografando tudo. O Capitão que estava entre a grade de proteção e a porta da sua sala, ao perceber minha aproximação, atravessou a porta e a fechou.

Sem saber quantas fotos tirei, perdi a noção de tempo e espaço diante da minha dor e da dor das plantas, das minhocas, dos pássaros. Depois apareceram algumas pessoas que foram verificar se havia testemunhas. Meu genro conversou com o pessoal da Padaria em frente, com o guarda do conselho Federal de Farmácia também em frente, com algumas senhoras que passavam, chamei a dona Dica e a Carla, depois apareceu o Sr. José Afonso, um carro da polícia passou e parou alguns minutos, mas teve que ir porque aconteceu um assalto na Quadra 113.

NINGUEM VIU NADA. NINGUEM SABE QUEM FOI.

Então me lembrei das reportagens que mostram os morros tomados por traficantes no Rio, onde impera a Lei do Silêncio. Fui tentar resgatar as imagens das minhas câmeras, mas estão fora de alcance e foco.

Dá para ver apenas vultos se mexendo. Com tecnologia avançada, talvez se possa identificar o criminoso.

Criminoso? Qual é a definição de CRIMINOSO no meu País de nascimento? Qual são os valores que vigoram nas pessoas que dizem não ter visto nada, quando estavam de frente para o crime.

E o criminoso é muito especial, porque ele é o único que quebrou e destruiu alguma coisa, em quase quatro anos de existência da Horta.

Ela já foi promovida a Santuário Verde pela Tanira, sua maior fã e divulgadora. Agora é 01h20m da manhã. Estou sem sono.

Mas devo tentar dormir, porque às 9h00m virá à Horta a Secretária de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda, SEDEST, Deputada Eliana Pedrosa, que deseja apoiar o projeto da Horta Comunitária e sua expansão.

Gostaria de contar com sua presença e pedimos que retransmita o convite aos seus amigos.

Necessitamos de vocês em frente à Horta.

Um grande abraço


(Continua)

 

Os lamentáveis acontecimentos na Horta Comunitária Quadra 713 Brasília

A Sandra Fayad, nossa amiga e colaboradora, tem um historial como escritora e poetisa longo, extraordinariamente longo e rico , dando-nos sempre uma qualidade tão cuidada nos seus trabalhos que faz com que nós sintamos a sua presença connosco não só necessária como indispensável.

Mas tem também a Sandra uma outra valência pessoal que enriquece mais quem com ela contacta ou a conhece pessoalmente: desde 2000, quando se aposentou de Economista no Banco Central do Brasil dedicou uma parte da sua vida ao convívio com a natureza: uma parte substancial da sua obra escrita, senão toda, espelha precisamente essa sua unidade com a natureza, com os animais, com todo o meio envolvente que tem possibilidade de contactar.

Militante activa, não só na escrita, a Sandra dedica-se à plantação generosa de plantas medicinais, utilizando para progresso e manutenção da sua Horta - que sempre foi uma horta comunitária mesmo quando instalada em terreno próprio - utilizando a Sandra, dizia, sistemas de permuta para compensar as saídas das plantas que fornece gratuitamente, de trabalho voluntário e de recebimento de doações financeiras para gastos em equipamentos de rega, gastos de preservação, inovações...e afixa as contas todas num painel, para além de nele publicar noticias sobre o andamento da Horta.

Logo em 2000 o seu trabalho foi notícia, então na saudosa Chácara Capuchinha, que teve de abandonar em 2004 /2005 por razões pessoais.

Carregue na foto para ler em tamanho natural

Em 2003, melhor instalada e melhorada a plantação é de novo noticia...

Carregue na foto para ler em tamanho natural

Ora, na Quadra 613 Norte de Brasília, em 5 de Agosto deste ano algo de novo e difícil de digerir se desenhava:

Sandra Fayad

Prezados amigos da Horta,

Ouçam: http://recantodasletras.uol.com.br/audios/entrevistas/11791

Como é do seu conhecimento, criamos aos poucos uma Horta Comunitária com a colaboração de todos, na área pública em frente ao Bl. B da Quadra 713 Norte. A proprietária da casa 12 e os então moradores da casa 04 deram seu total apoio para expansão da Horta para a área pública em frente àquelas residências, já que seria preservado o completo direito de acesso a pessoas e veículos, além de ser mantido um recuo de cinco metros em relação às grades externas, para preservar – lhes também a privacidade.

Montamos um sistema simples de irrigação com mangueira e canos, que custou R$ 600,00 à Administradora da Horta. Recuperamos o solo contaminado por produtos tóxicos de restos de obras e realizamos o trabalho paisagístico com curvas de nível para conter as erosões do terreno danificado. Esse trabalho completo demorou aproximadamente dois anos para ser concluído.

Mensalmente remuneramos de 3 a 5 dias de trabalho de jardinagem, ao custo de R$ 40,00/dia, para ajudar duas senhoras de 61 e 72 anos a fazer limpeza, poda, peneiramento de terra e adubo, confecção de mudas sob encomenda, revolvimento do húmus do minhocário. Estamos
preparando as tabuletas de identificação de cada espécie e novo mural.

Professores tem visitado a Horta com seus alunos e elaboram projetos de aulas práticas para ensino de ciências, literatura, artes. Pesquisadores, ecologistas, naturalistas, curiosos visitam diariamente o projeto e se inscrevem como amigos da Horta. A imprensa local, do Brasil e da Europa tem divulgado constantemente esse trabalho como sendo um exemplo de iniciativa alinhada com as propostas de cuidados com a natureza e como modelo a ser seguido.

EMATER/DF, Ministério do Desenvolvimento Social, UNB, Ministério do Meio Ambiente, ADASA, CAESB, Banco Central do Brasil, embora não tenham nos contemplado com nenhum centavo de recursos, aplaudem, apóiam e divulgam a iniciativa como sendo um bom exemplo a ser seguido.

No caso do MDS, não só isso. Complementada com a fala do próprio Ministro Patrus Ananias, a Voz do Brasil, em 06/05/2009 divulgou que nossa Horta é um modelo nos moldes do Programa de Combate à Fome do Ministério e que «qualquer cidadão que desejar, pode criar uma horta urbana ou periurbana em qualquer terreno disponível» inclusive com o apoio financeiro de verbas próprias do Ministério para esse fim.

Só não conseguimos ainda porque nossa Prefeitura está em fase de regularização e é necessário cadastrar um CNPJ para se habilitar aos recursos.

O livro relacionado a esse Projeto (Animais Que Plantam Gente), está sendo utilizado na Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente. As reportagens na mídia realizadas pelos Jornais Lago Oeste, Correio Brasiliense, Diário de Catalão, Raiz On Line de Portugal, Aqui DF, Esquina do CEUB, TV Globo, TV Brasília, UNBTV, TV Bandeirantes, Projeto Cultural ABRALI (Paraná), Jornal da Asa Norte estão à disposição no Mural da Horta e no site:
www.sandrafayad.prosaeverso.net (e várias chamadas no Google, ORKUT, Youtube).

A Horta assim como está, ainda meio feiosa, já não pertence só a esta nossa pequena comunidade, mas ao mundo, uma vez que veículos de comunicação a divulgam em vários países.

Pois bem, há um novo morador recém chegado à Quadra 713 N, Bl. B, C/ 04, disposto a desmanchar a metade da Horta, para fazer calçadas, entrada para veículo e «talvez a colocação de grama comum», justo nos locais onde estão plantadas ervas medicinais importadas do Mediterrâneo, dos Andes, do Sul, e que levaram anos para se adaptarem ao local.

Ele já tem garagem para 5 carros e todo a sua privacidade e oportunidade de acesso à casa garantidas. Venham conferir com seus próprios olhos. Conversem com ele, antes que seja tarde. Evitem esse crime ambiental. Está circulando um abaixo assinado com o seguinte texto:

ABAIXO ASSINADO PELA DA PRESERVAÇÃO DA HORTA COMUNIT�RIA

Manifestamos nosso desejo de manutenção permanente e integral da Horta Comunitária 713 Norte, com 103 espécies de ervas medicinais e ornamentais e 19 espécies de animais silvestres livres, na área pública em frente ao Bloco B residencial da 713 Norte .

NOME ENDEREÇO (opcional)TELEFONE
( )

Se você desejar poderá também assiná-lo e enviar para este e-mail. Anexaremos ao abaixo assinado que já conta com dezenas de assinaturas. Se preferir, envie seu próprio texto, apelando pela não destruição deste micro - ecossistema, que certamente agradecer-lhe-á com suas generosas dádivas.