Pagª 19 - EDIÇAO NºXXXIV , IIIº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
O JARDIM
Poemas
de Ilona Bastos
Ontem escrevi poemas
Nos canteiros do meu jardim.
Animada, afogueada, em alvoroço,
Abraçada a vasos, folhas e pétalas,
Inspirada ao aspirar o aroma silvestre
Das flores, das plantas, da seiva,
Declinei o lápis sedutor e o papel,
Tomei a terra, o ancinho e a colher,
Decidida, quebrei ressequidas ramagens,
Exaltada, daninhas ervas arranquei,
Ao solo me lancei, confiante, e mergulhei
Minhas mãos, na terra fértil e gentil.
Tirei pedras e raízes, desenhei linhas
De promissores bolbos, enterrados
Sob o húmus revolvido e alisado.
Sementes lancei, em métrica cuidada.
Azáleas rimei com admiráveis ciclamens.
Margaridas de fogosas vestes combinei
Com amarelos narcisos em sono recatado.
Confortei o cândido limoeiro e ergui, por fim,
Para o céu, o corpo cansado e feliz,
As faces coradas, o cabelo em desalinho,
Acompanhando a aragem e o sol alaranjado –
Chave de ouro de outonal entardecer –
No caminho luminoso do Poente.
E se eu largasse o meu olhar ?
E se o deixasse percorrer o mar imenso,
Lançar-se, livre, no céu infinito,
Cavalgar pela planície, até ao horizonte?
E se o meu olhar tudo abarcasse
(A humanidade, a fauna, a flora!)
E nele guardasse toda a criação?
E se o meu olhar fosse microscópico
E distinguisse o grão, a gota, a bactéria?
E se o meu olhar fosse macroscópico,
E nele coubessem todas as estrelas e as galáxias?
E se visse o invisível, e, para si, as ondas,
Os aromas e os sons mostrassem cores
E formas dos outros desconhecidas?
E se eu seguisse o meu olhar, e com ele...
Nadasse os oceanos, tal um golfinho,
Voasse pelo azul, como gaivota,
Ganhasse velocidade sobre a pradaria?
(Cavalo selvagem, outrora detido, agora liberto…)
E se tudo soubesse do que via
E a razão de tudo se revelasse?
E se atingisse a molécula, o átomo, o quark,
A mais ínfima partícula, e entendesse
Do que é construído, afinal, o Universo?
E se o meu olhar e eu fossemos o mais longe
que é possível ir, e regressássemos
o mais depressa que é possível vir, para contar?
Que encontraríamos e saberíamos,
Que contaríamos, eu e o meu olhar?
Quando os Sonhos Morrem
Por
Francis Raposo Ferreira
O que aquela mulher desejava era que acontecesse o vazio na sua cabeça, um vazio absoluto, naquela sua cabeça que pensava o que o coração sentia.
Que tudo aquilo que a sua memória armazenou na palma da sua mão, na boca do beijo dele, no abraço ao braço negro, no sorriso ante o siso branco, na dor daquele amor, se esvaziasse.
Aquela mulher desejava operar a sua alma através da suas memória, desejava então que uma parte da sua memória desaparecesse, levando consigo todas as cenas de amor, todos os lugares em que se emprestaram um ao outro, todos os momentos que juntaram os outros a si, todos os outros que os ligaram ainda mais, todos os sonhos que aconteceram, todos os sonhos que caíram.
Aquela simples mulher desejava que tudo passasse a ser nada e esse nada pudesse ser tudo, a partir daquele dia. Ela desejava o impossível numa frase batida, que aquele dia fosse o primeiro dia do resto da sua vida.
Porque aquela mulher queria os pés no lugar das mãos e as mãos no lugar dos pés, queria pôr-se de gatas e atravessar o resto da vida, debaixo da mesa, queria esquecer aquelas rugas desalinhadas da testa ao pescoço, aquela cor de olhos, um resto de castanho que isolado já não era cor nenhuma, aquele corpo inteiro, a franja desalinhada e aquele cheiro de quem mora em muitos lugares.
Aquela mulher queria esquecer, definitivamente, aquele homem, mas aquela mulher queria um enterro sem cortejo, sem padre, sem missa, sem despedida.
Aquela mulher não queria que lhe doesse o coração no lugar da alma, aquela mulher não só queria esvaziar a concha da água, como também queria destruir a forma da concha para que nunca pensasse em enche-la com o que quer que fosse, queria o vazio no lugar do amor.
Aquela mulher queria pegar nele e molda-lo à medida de uma só pessoa, de um só corpo, queria um prato cheio daquilo, queria uma mesa só para si e esvaziar a barriga de todos os sabores que conhecia.
Mas aquela mulher também queria mais, queria o futuro, mergulhar nele e, através dele, mudar de pele, perder o liso da barriga, mudar aquele sorriso estúpido de quem não sabe dizer não, cortar o cabelo, mudar a cor dele, vestir encarnado, mudar de restaurante, mudar de rua, dançar descalça talvez.
Aquela mulher queria renascer sem mãe e sem pai, respirar pela primeira vez, encostar-se a uma estátua e gritar bem alto, rezar a um Deus distante e cair de costas na vida, sem medo, que entretanto é a mesma vida de sempre e dizer olá, sem falar, ao viajante que lhe entrou pelo corpo dentro antes de ela o pedir.
Aquela mulher não se arrependia de ter provado o néctar do amor.
Coluna de João Furtado

LISITA
Mais uma vez me vi na pele do «pai babado» aconteceu ontem, dia 14 de Agosto, na véspera do dia de Nossa Senhora da Graça Padroeira da Cidade da Praia, hoje. A minha filha esta neste momento no encontro internacional de artes e cultura anual em Cabo Verde , o «Cultura Arte».
Ontem ele veio e «despojou-me» de quase todo guarda-fato e levou-o. O meu guarda-fato irá ser de certeza o guarda-fato da «Cultura Arte». Ela vinha com um minúsculo aparelho de som vermelho que disse chamar-se «Hi-Pod», creio bem que seja a marca do aparelho e não o nome, mas actualmente os nomes das marcas e dos utensílios são frequentemente trocados e adoptados.
A Lizita, sim estou a falar da Lizita, de nome Elisa Helena, sempre a
chamamos de Lizita, em honra de única irmã que a minha mulher tem e que
reside na Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe, ainda passou pelo meu
trabalho. Levou-me uns documentos de habilitação literária dela, ela
terminou os estudos liceais e estamos a ver onde conseguirá continuar os
estudos. Mas também foi ao meu trabalho para me informou que eu estava sem
nenhuma roupa até o fim do espectáculo.
Aproveitei para sair e tratar de uns assuntos pendentes. Levei-a até perto
de onde estavam a ensaiar, na «Casa Cor-de-rosa» que situa-se junto do
Quartel Militar do Platou perto do tão conhecido Cruzeiro.
O Cruzeiro tem sido o melhor e o pior da Praia. É o ninho dos namorados e
sonhadores, onde se ama e se faz amar, onde se sonha e se imagina os sonhos
realizados, mas também tem precipício para os desesperados, quantos são os
que escolheram o Cruzeiro para porem termo a curta vida que temos nesta
existência? Mas não é do Cruzeiro que estou a falar.
Retornei ao meu trabalho. O meu telefone móvel tocou, peguei nele e atendi:
- Pai quando fores a casa, toma o «HI-Pod» que esqueci lá e traga, que irei
buscar ai no trabalho. Encontrei motivo para me vingar o ter que ficar «nu»
sine-die.
-O Hi-pod é para pagar as roupas. Quando elas voltarem, darei o Hi-pod!
-Deixa de brincadeira, pai. É de uma minha colega, e esta furiosa por eu ter
me esquecido.
-Problema teu, não vou trazer!
-Beijos, pai, - ela disse e desligou, ela sabia que eu estava a brincar e
ela estava a gastar saldo do telemóvel.
Efectivamente levei o Hi-pod mas a Lizita não foi tomar no meu trabalho. Não
obstante ter lhe ligado para o telemóvel várias vezes, ninguém atendia.
Acabei por chegar a conclusão que ou ela tinha atirado a telemóvel a um
canto ou ela estava muito ocupada. Resolvi levar-lhe eu mesmo o telemóvel.
Assim que terminei o trabalho me dirigi para a «Casa Cor-de-rosa» e lá
estava ela. No meu descuido habitual a chamei em voz alta, mas ela me fez
sinal com o dedo na boca para que me calasse. Notei que ela procurou fazer
com que o sinal fosse ambíguo. Que me mandasse calar, mas também, se acaso
tivesse outro público, pensassem que fazia parte da cena. Vi o que ela me
falava de improvisação reflectido no gesto e também notei que ela estava a
ensaiar uma peça de teatro.
Tornei-me num espectador atento, mas tinha olhos apenas para a minha Lizita.
Eram três os participantes da peça, mas eu via apenas a Lizita. Não obstante
a professora vir falar comigo no ouvido e tomar o Hi-pod para entregar a
minha filha mais tarde eu continuei parado a assistir a cena.
A professora é uma Portuguesa, veio especificamente para este trabalho de
intercambio, foi me apresentado dois dias antes por um amigo que também esta
no evento, como autor de três contos que a minha filha me havia pedido para
trabalharem com eles, creio bem que para se dedicarem na leitura em voz
alta.
Vi a minha filha representar e senti que, olhos de pai babado, temos actriz
em casa. Já havia visto ela representar, fazia um papel de uma mulher de
vida nada fácil que insistimos a chamar «mulher de vida fácil», foram 3
minutos de filme que custarem um dia de filmagem e um dia de sentir-me
humilhado vendo minha filha representar uma mulher que abandonava um filho
às mãos de um homem que duvidava da paternidade da criança, para segundo a
peça deixava subentendida começar uma nova aventura que se previa de tudo
menos honesta.
Foi num mini-curso para o cinema e cada aluno escreveu um roteiro, o
escolhido foi do Cesar Scorfield, pelo que demonstrou durante o curso, ele
já era um «profissinal-amador» na material. Foi sem surpresa a escolha. O
que ninguém estava a espera era a escolha da Lizita para unico papel de
actriz que existia, pois a peça era de 3 minutos como já disse e tinha
apenas dois actores on como o Cesar mesmo falou, todo o resto era off. A
Lizita contracenou com o Ché um rapaz de talento reconhecido.
Ontem no ensaio a Lizita, bem não vou entrar no pormenor, pois não sei para
quando será a peça e não quero estragar a surpresa. Digo apenas que ela
chorava como se sentia a dor, ria, como se estava alegre, parecia tudo
normal, até o encontro com a eterno «Senhor do Mal» parecia tão natural...
espero ir para a Gloria!
Terminaram a peça que utilizara o espaço vazio do quintal frontal da «Casa
Cor-de-rosa» e desapareceram para o interior. A professora fechou o portão e
eu fiquei trémulo de emoção na parte de fora. Quis bater palmas, mas achei
que não devia. Podia passar por louco que já sou. Virei e me dirigi para a
padaria «Pão Quente», comprei os pães que precisava e regressei a casa.
De noite, ao falar com a minha mulher no «Skype», no intervalo da
assistência que o meu pai está a precisar, a minha mulher esta de férias nos
Estados Unidos, disse para ela:
-Tua filha é uma grande actriz, gostaria de a ver um dia, se a sorte lhe for
propícia no mundo do teatro e cinema!
João Furtado - Praia, 15 de Agosto de 2009