Pagª 18 - EDIÇAO NºXXXIV , IIIº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Coluna
Antônio Carlos Affonso dos Santos.
ACAS, o Caipira Urbano.
Inadequado para menores

Carta ao Meu Primo Caipira Virtual
«Disse a caneta pra enxada/Num vem perto de mim não/ Ocê tá chuja de terra/Da
terra chuja do chão/Sabe cum quem tá falano?/ Veja tua posição!/E aperceba a
distânça/ Da nossa separação!»
«A enxada arrespondeu/De fato eu vivo no chão/Para dar o que comer/ E vestir pro
seu patrão/Eu vim no mundo primêro/Quaje no tempo de Adão...»
-Trecho de música sertaneja imortal, considerada um dos clássicos da «Música de
Raiz Brasileira».
Dia, primo!
Em primêro lugá eu pego na pena pra te escrevê. Espero que estas már traçada
linha, vá te encontrá gozano de saúde e de felicidade.
Primo; tenho me alembrado de muitas coisa aí da roça! Das veiz, me dá a impressão que aí num inziste; coisa de lôco, num é mêmo?
É que eu tenho muitas saudade das veiz que nóis brincava de tarde, lá perto do Mercado Véio de Cravinhos. Faiz tempo, né primo? Já faiz mais de sete ano que nóis num se vê! Eu tenho saudade de muitas coisa, de catá gabiroba e goiaba nos pasto, de nadá nos córgo, de pescá e inté de caçá de estilingue: eu era um porquêra no estilingue, ocê lembra?
Ocê lembra tarveis de quando eu matei meu primêro nhambu e ocê ficô contente pro
mode de quê eu nunca tinha matado um Nhambu antes e vortava sempre sapatêro pra
casa e tudo mundo caçoava de mim? Pois é, primo, naquele dia, dispois que nóis
se separemo, eu levei o coitadim do nhambusim no córgo e tuchei a cabecinha dele
n´água. E num é que o coraçãozim dele começo a batê forte i disparado? Pois é
primo, dispois de mais de diz ano que eu tenho corage de dizê procê que eu nunca
(graças a Deus) matei um nhambu siqué! E num é que fiquei feliz em lembrá disso
agora?
É primo; nóis semo primo faiz muito tempo; né mêmo?
Eu me alembro inté do dia em que nóis passemo de primo, na foguêra de São João,
lá na casa da sede da Fazenda São José do Pântano, município de São Simão, que
nóis fala que é de Cravinhos, num é mêmo?
Sabe, primo, eu tô mudano muito agora, sô!
É que eu tô começano a estudá. Num tava mais guentano as pessoa me chamá de
caipira; qué dizê, caipira eu vô sê até o fim da vida; mêmo que eu chegue a sê
um home remediado nos estudo; coisa que o Seu Joaquim, meu pai, sempre quis; num
é mêmo!
Mai hoje, primo, me deu uns aperto no coração.
Eu tava, oiâno as paisage pela janela do trem que vai de Osasco inté Santo
Amaro; uma linha de trem daqui que eis dá um nome muito difíci, que num tenho
nem vontade de fala, pruquê é difíci demais da conta, sô; é quaje um palavrão
«trem metronnipoliteano», ô arguma coisa parecida cum isso.
Pois é; eu tava ali ôiano pela janela do trem as paisage. As paisage daqui num é
tão bunita como lá no eito da «varge», ô do eito do «chapadão», ô do eito da «derrubadinha»,
cum aqueles cafezá em flor; bunito e cheroso demais da conta, tudo prantado em
fila que sumia das vista de tão grande, não, num é!
E quando os café tavam maduro, tamém era uma formusura: aqueles grão colorido,
do vermeio ô do amarelo, inté parecia uma árve de natá, que nóis dóis vimo
muitas das veiz nas casa dos patrão e do administradô, fiscá da fazenda, num é
mêmo? E nóis via os tico-tico rei, tudo colorido e de crista vermelha, os
bêja-flor «foguinho», vermeinho, vermeinho, os tizío sempre dando pinote de riba
do pé de café... .
Lembro tamém que nóis robava melancia dos eito do Zé Dérfino, que era muito intojado; lembra primo que eis interrava as melancia no chão, pra mode os moleque num vê; mais nóis descubrimo e fizemo segredo: nóis chegava lá e ia puxano as rama dos pé de melancia até que finarmente lá tava elas: era as melancia mais grande e mais gostosa que nóis comia era as dele.
O jacu e bocó do Zé Dérfino num sabia; das veiz a gente achava a melancia e
oiava no rabicho dela, perto do talo; se num tava seco, queria dizê que tava
verde ainda; das veiz nóis esperava mais de um mês inté ela madura; conferino
sempre inté que o rabicho tivesse seco. Nóis arrancava a melancia e corria até a
bêra do córgo, lavava ela e quebrava ela numa pedra e nóis comia de se lambuzá;
lembra primo?
O primo lembra cuma é que vim pra São Paulo? Meu pai economizô muito para pagá a
passage doe trem noturno da Mogiana e dexô argum dinhêro pro cumpadre dêle me
trazê pra trabaiá em Osasco, que era um arrabarde de São Paulo. Era pra eu morá
na casa dele e trabaiá num armazém, dum conhecido dele. Nada deu certo, primo.
Foi minha pió viage! Sofri ingualzim um cachorro. Minha sorte foi a minha famía
chega dispois de um ano. Sabe, Primo; dijunto cum a famía, a gente divide as
lambada da vida e tudo fica mais fáci!
Mai, vôrtano ao assunto, eu tava ôiano as paisage pela janela do trem, quando vi
uma image que feiz lembrá docê, primo: na bêra do Rio Pinheiros, perto de uma
árve de flor bunita e um cantêro de bico de papagaio e de bananeirinha, muito
colorido, dijunto duma tocêra de capim gordura, inganchada numa furquía da árve;
lá tava ela, primo: uma enxada!
A enxada era uma «Duas Caras» de duas libra e meia, tinindo de nova. Observei
primo, que a enxada era nova, mai o cabo não. O cabo inté parecia de sê de
guatambu; mai eu duvido que inziste guatambu em São Paulo; aqui nem mato tem! E
os que têm são uma porquêra de uma matinha de nada....
Mai, cuma eu ia dizeno, o cabo da enxada tava lustroso. Sabe, primo, me alembrei
que quando um cabo de enxada tá lustroso, a mão que cum ela trabáia tá calejada.
Argum trabaiadô divía de tá trabaiano cum ela; precurei, precurei cum os dois
zóio e num vi adonde a pessoa de mão calejada táva naquele instante. Precurei se
via numa moita quarqué da bêra da linha do trem ô da bêra do rio; uma moringa
d´água, um imborná pra mode ele trazê o carderãozim dele com feijão e arroiz;
num vi, primo! Num vi e chorei, pruquê o trem da vida que agora tô veno e
viajano nele, quaje num pára pra gente vê as coisa mais simpres, simpres como
nóis dois primo!
Sabe, primo, o trem seguia adiante e eu tinha raiva do trem. Esse trem que eu
viajo, primo, viaja depressa demais pros meus pensamento. Paréce inté mamparra
dele! Eu sô um bosta de um caipira que véve longe das coisa que gosta e num
consegue entendê essa correria toda: pruquê que o trem não vai devagarzim, pra
mode eu vê se a pessoa que tabaiava cum aquela enxada, quem sabe se num tem um
fio da nossa idade, né primo, ô um cachorro pretim ingual ao Viajante, que eu
tinha lá na fazenda; lembra dele primo? Lembra que ele caçava frango cum a
gente?
-Ocê se alembra desse Brasil, primo?
Sabe, primo Valdomiro Camargo, hoje, primeiro de agosto de 2009, eu reli aquele bilhete que você me enviou no ano 2000, quando você fez anotações e me repassou. As imagens por escrito que você me passou, vistas da janela do trem me tocaram agora, nove anos depois, de maneira muito forte.
Acho que é a idade.... . E que você havia dito que suas imagens representavam mais para mim do quê para você, porque você dizia que eu havia vivido as coisas e você delas tinha notícias; notícias que pretendo te dar através do meu texto, dedicado a você e aos brasileiros que amam a brasilidade, tanto quanto eu e você, não é primo?
Ah, Valdomiro, eu não me esqueci que você tinha um cachorro em São Paulo que se
chamava Kuriachi, uma homenagem sua ao personagem Illia Kuriachi, da série de
filmes chamada de «O Agente da Uncle»; lembra primo?
ACAS-01/08/2009.
...enfim, deu-me vontade de chorar!
Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS-
Não há mais qualquer comentário a fazer a respeito da classe política brasileira, começando de Brasília até o mais desconhecido dos grotões deste país. A corrupção tornou-se pandêmica e a falta de vergonha, numa proporção nunca vista.
Pois o que acontece no Congresso Nacional – o Senado conseguindo igualar-se à Câmara dos Deputados – é, ainda outra vez, o palco mais iluminado para se revelar a miséria da consciência cívica brasileira. E, nessa miséria, inclua-se, também, o próprio povo, miserável culturalmente, miserável educacionalmente, miserável em sua impotência diante de grupos indecorosos que usam do poder público para interesses pessoais ou corporativos.
Nada mais há a falar, pois os fatos falaram por si mesmo e a televisão – que tanto os políticos quiseram como meio fácil de se mostrarem para o povo – desnudou a desfaçatez, a falta de pudor, o nível rasteiro em que se encontram algumas das principais lideranças políticas brasileiras. E ainda mais vergonhosamente: são os homens de Brasília que se transformam em paradigmas e pontos de referência para os intelectualmente indigentes aprendizes de feiticeiro que se espalham pelos interiores do Brasil.
Não há mais saída, pois nem mesmo as próximas eleições poderão depurar ou higienizar a estrutura política brasileira, pois a enfermidade se prova estrutural, nada tendo de conjuntural. Há uma rede de contatos, um emaranhado de fios apodrecidos que se estendem de Brasília aos municípios, destes a Brasília.
Ou há quem tenha, ainda, a doce e santa ingenuidade de acreditar seja diferente o panorama nas assembléias legislativas e câmaras municipais, a não ser as proporções?
Se, para exemplificar, um vereador tem seus vencimentos e privilégios de conformidade e proporcionalmente aos parlamentares federais, por que haveriam, esses homens sem grandes luzes, querer que as coisas modifiquem? E os partidos políticos, ainda com seus coronéis e caciques, até mesmo em cidades interioranas, entre as quais Piracicaba , politicamente, se destaca como uma das mais medíocres?
As próximas eleições não mudarão nada, mesmo que se mudem pessoas. Pois é o organismo federativo que se deteriorou e o Congresso Nacional está em estado terminal e comatoso. O mais lastimável, agora, penso eu, é o comportamento claramente parcial da chamada grande imprensa, que peneira o noticiário, como que ignorando a presença da televisão que a tudo mostra e revela.
No caso da última xingação vulgar e vergonhosa no Senado, tendo como protagonistas Renan Calheiros e Tasso Jereissati, a imprensa tem tentado mostrar apenas Renan Calheiros como o grande vilão, quando, na verdade, ninguém escapou.
E, para o mundo ver, foi Tasso Jereissati quem cometeu a primeira grande e imperdoável grosseria, quando, sem ter o direito de fazê-lo, gritou, de sua cadeira senatorial: «Não aponte esses seus dedos sujos para mim».
Foi atitude de quem está acostumado, em grandes parcelas do infelicitado Nordeste brasileiro, dar ordens com o chicote nas mãos, o coronel todo poderosos que arrotou o seu poder econômico, «o jatinho é meu, com o meu dinheiro.» Se é dele, se tem dinheiro para comprar e bancar despesas, por que surrupiou as passagens, pagas pelo povo, para uso próprio?
De Renan Calheiros, nada mais há a falar. E, quanto a José Sarney, não haja mais dúvidas: sairá, dessa lama toda, como um mártir, pois, sobre ele, estão – em especial a imprensa – lançando a culpa por todo a podridão. E Sarney nada mais é do que parte dessa podridão toda.
Afinal de contas, por que PSDB e seus aliados se escandalizam em punição para Arthur Virgílio, o mercurial político nortista que é réu confesso de corrupção? Ou, diante dos cofres da nação, basta confessar a esperteza e devolver em parcelas o dinheiro da malandragem? A moralidade do PSDB está cada vez mais tosca.
O fato é que ninguém mais escapa. Incluindo Eduardo Suplicy, que, com cara de santo do pau oco, já encheu a paciência da nação com suas infantilidades que lembram a Peterpan. Não há saída.
Mas uma providência o Ministério Público poderia adotar, em benefício de crianças e adolescentes: que as tevês da Câmara e do Senado, das assembléias legislativas e de câmaras municipais coloquem o aviso de «programa inadequado para menores.»
E bom dia.
Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.
Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA
A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.
Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.
O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».
Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.
Eis-me aí, de cara lavada!
Envio esta foto, logo pela manhã desse dia chuvoso e frio em São Paulo. A maior metrópole da América do Sul dormiu debaixo de chuva. Aninhou-se entre os problemas, as tensões e o barulho e adormeceu.
Se por um lado isso é muito bom no combate à poluição ambiental; o frio e a chuva vêm trazer à baila um velho problema: os miseráveis que moram nas ruas. No meu trajeto, observo três deles. Eles moram nas ruas. Casas de papelão, cobertas de plástico, o cão fiel deitado junto aos pés, talvez em solidariedade; aquela solidariedade que nós humanos muitas vezes não fazemos aflorar, acostumados que estamos a conviver com a miséria ao nosso lado.
No trabalho também sinto os sinais: alguns funcionários da rica empresa em que trabalho, moram longe. Um deles entra às sete da manhã, hora em que costumo também chegar ao escritório. Só que ele mora no «Capão Redondo», bairro de São Paulo, lá nos confins da periferia da zona sul; morar na zona sul é sinônimo «de morar fora da civilização», onde a violência impera, aonde a justiça social não chega e a justiça divina carece de reforço das pessoas do bem.
Esta pessoa toma dois ônibus para chegar ao escritório. O primeiro, cujo ponto dista três quilômetros da sua casa, demora duas horas no percurso. O outro, demora meia hora; conclusão: sai de casa às quatro. Per ommia saecula saeculorum isso acontece por aqui. Até quando?
Não é à toa que um cineasta fez um curta metragem sobre o ônibus do Capão Redondo. O «busão» demora tanto que as pessoas se conhecem e se tratam como se irmãos fossem, ou «trutas», na linguagem que usam e como se referem entre si. Gostaria que eles todos melhorassem de vida, agora, debaixo d ´água e sob o frio, isso me parece mais grave ainda.
Espero que meu coração sexagenário agüente mais este inverno; até que o Pai Eterno nos convide a passar o inverno junto dele; o que espero que demore muito!!!
Baguàkiliê!!!!!!!!!
ACAS