Pagª 12 - EDIÇAO NºXXXIV , IIIº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Morreu o actor Raúl Solnado

Raul Solnado , 79 anos, faleceu este sábado às 10:50, de doença cardio - vascular grave, informou o hospital de Santa Maria, em Lisboa. As várias reacções à sua morte salientam «a generosidade» e a «grande humanidade», de um actor «que soube sempre inovar», como sublinhou a actriz e amiga Alina Vaz.
Raul Augusto de Almeida Solnado nasceu em Lisboa, a 19 de Outubro de 1929, na
Madragoa, bairro onde pela primeira vez pisou o palco, na Sociedade Guilherme
Cossul (1947).
Em 1953 estreia-se no teatro de revista com «Viva O Luxo», apresentado no Teatro
Monumental. Entra também em «Ela não Gostava do Patrão». 1956 é o ano de «Três
Rapazes e Uma Rapariga» no Teatro Avenida. Participa ainda nos filmes «O Noivo
das Caldas» e «Perdeu-se um Marido».
«A Guerra de 1908», um sketch do espanhol Miguel Gila, adaptado para português
por Solnado, é interpretado na revista «Bate o Pé», estreada no Teatro Maria
Vitória em Outubro de 1961. Entra também no filme «Sexta-feira, 13». O disco que
reunia «A Guerra de 1908» e «A História da Minha Vida», editado em Abril de
1962, bateu todos os recordes de vendas de discos.
Em 1962 entra em «Lisboa à Noite», em cena no Teatro Variedades, onde interpreta
os sketcks «É do Inimigo» e «Concerto do Inimigo». É protagonista do filme
neo-realista «Dom Roberto», de José Ernesto de Sousa. Vence o Prémio de Imprensa
para melhor actor de cinema.
Após 1963, faz teleteatro no Brasil e na RTP. «Vamos Contar Mentiras» é o grande
espectáculo do ano de 1963. Torna-se em 1964 fundador e empresário do Teatro
Villaret. A estreia foi em 1965 com «O Impostor-Geral» onde foi o protagonista.
Mariema e Raul Solnado recebem os Prémios de Imprensa para melhores actores de
teatro de revista.
No dia 24 de Maio de 1969 foi gravado o primeiro programa do «Zip-Zip», no
Teatro Villaret. A última emissão foi no dia 29 de Dezembro do mesmo ano. O
programa da autoria de Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz foi um dos marcos
desse ano. Em Dezembro de 1969 é o protagonista de «O Vison Voador».
A peça «O Tartufo de Moliére» é estreada em Janeiro de 1972. Ainda em 1972
participa na revista «Prá Frente Lisboa». A canção «Malmequer» tornou-se um
grande êxito popular. Em 1974 entra no filme «Aventuras de um Detective
Português».
Em 1987
interpreta um papel dramático no filme «A Balada da Praia dos Cães», de José
Fonseca e Costa, baseado no livro de José Cardoso Pires.
Foi actor convidado do Teatro Nacional D. Maria II, como protagonista da peça «O
Fidalgo Aprendiz», de D. Manuel de Melo. Publicou a sua autobiografia – A Vida
Não Se Perdeu (1991). Em 1992 foi actor convidado do Teatro Nacional de S.
Carlos, na personagem Frosch da opereta «O Morcego», de Strauss. Em 1993
participou, ao lado de Eunice Muñoz, na telenovela «A Banqueira do Povo» de
Walter Avancini.
Entrou na peça «As Fúrias», de Agustina Bessa-Luís, no Teatro Nacional D.Maria
II, em 1994. Em 1995 fez «O Avarento», de Molière, no Teatro Cinearte, encenado
por Helder Costa.
Em Março de 2000 realizou-se em Tondela uma homenagem, organizada pelo grupo
Trigo Limpo ACERT, que foi acompanhada por uma exposição biográfica sobre o
actor, baseada no livro de Leonor Xavier, «Raul Solnado - A Vida Não Se Perdeu».
Em 2001 voltou aos palcos do teatro com um papel de grande relevo na peça «O
Magnífico Reitor» de Freitas do Amaral. Recebe o Prémio Carreira Luíz Vaz de
Camões.
Foi homenageado em 2002 com a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa e recebeu, em
10 de Junho de 2004, do Presidente Jorge Sampaio a Grã-Cruz da Ordem do Infante
D. Henrique.
Foi, até à sua morte, Director da Casa do Artista, sociedade de apoio aos
artistas, que fundou juntamente com Armando Cortez, entre outros.
Ver entrevista à RTP em 3 de dezembro de 2008
Ver também um texto de João Furtado sobre Raul Solnado.
Verdades e Mentiras
Crónica
de Tom Coelho
Há circunstâncias em que, sim, cabem meias - verdades. Porque elas aliviam, em lugar de ferir. Porque elas podem confortar e promover a esperança. Uma verdade oculta não é uma mentira contumaz.
«Existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito
de dizê-las.» (Jean Cocteau)
«Não existe mulher meio-grávida».
Foi desta maneira que meu pai me ensinou que há situações nas quais inexiste o
meio-termo. Ou é, ou não é.
Da mesma forma eduquei-me acreditando que a verdade também não admite
interpretação dúbia. Como diria um provérbio iídiche, meia-verdade é uma mentira
inteira.
Em tempos de crise de valores, quando a integridade, a idoneidade, a dignidade e
tantas outras virtudes se despedem, tornando-se peças de museu, artigo raro seja
na gestão pública, no mundo corporativo ou nas relações interpessoais, adotamos
a verdade com vigor ainda maior. Primeiro, por princípio. E segundo, porque ela
sempre vem à tona, cedo ou tarde.
Mas aí, como disse certa vez Luís Fernando Veríssimo, quando a gente acha que
sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.
Escrevi um artigo intitulado
«A
fragilidade da vida» no qual relato a experiência da descoberta de um câncer
que acometeu meu pai. O fato nos foi revelado após exames para diagnosticar o
que parecia ser um AVC (acidente vascular cerebral). E durante vários dias
vivenciamos um dilema: os familiares sabiam que era um tumor maligno, enquanto
meu pai imaginava tratar-se apenas de um breve coágulo no cérebro.
Quando penso em meu pai, sempre me vem à mente uma pessoa ativa, dinâmica,
criativa e muito batalhadora. Com pouca instrução, teve a capacidade de promover
grandes realizações em sua vida. Proporcionou estudo aos seus cinco filhos e
jamais permitiu que algo nos faltasse. Domina a matemática de maneira invejável
para muitos estudantes de nível superior. Porém, ao lado de tantos aspectos
positivos, há um contraponto tenaz: um terrível hábito de cultivar o pessimismo
em momentos de adversidade.
Este aspecto já nos distanciou algumas vezes. Chegamos a trabalhar juntos por
alguns anos, mas a divergência entre nossas posturas era objeto constante de
conflito. Perante uma vicissitude ou uma oportunidade, eu sempre acreditava que
seria possível, que daria certo. Já meu pai partia do pressuposto de que o jogo
estava perdido.
Conhecendo este padrão de comportamento eu sabia que o ideal seria omitir a
verdade sobre sua doença. Afinal, a cabeça comanda o corpo, de modo que em seu
período de maior debilidade física, o melhor seria fazê-lo acreditar que tudo
era relativamente simples e passageiro.
Contudo, hospitais trabalham com protocolos médicos. E um deles determina que
todo paciente deve ser esclarecido com franqueza sobre seu quadro clínico e o
tratamento ao qual será submetido. Diante disso, o pneumologista sentenciou: «Ou
vocês, familiares, contam a ele o que está se passando, ou contaremos nós».
Minhas irmãs decidiram por consenso que esta tarefa caberia a mim. E dois dias
depois lá estava a sós com meu pai, em seu quarto, ao lado de seu leito.
Solicitei -lhe que se sentasse, por um instante, de frente para mim. Segurei-lhe
as mãos e reproduzo a seguir um resumo do diálogo que sucedeu:
– Pai, você acredita em Deus?
– Sim, acredito!
– E confia em mim?
– Com toda certeza, meu filho.
– Pois então, seu problema é um pouco mais grave do que imaginávamos...
– Eu já sabia... Mas não me conte. Eu não quero ouvir! Não quero! (virando o
rosto)
– Mas eu preciso lhe dizer, porque ou você ouve de mim, ou ouvirá dos médicos.
Você está com um tumor no pulmão. É algo raro, ainda mais para quem, como você,
nunca fumou. E o coágulo em seu cérebro é uma consequência deste tumor.
– Então estou liquidado...
– Pai, deixe de pensar assim! Há tratamento, há cura, e é por isso que você está
aqui, num dos melhores hospitais do país e com ótimos especialistas.
– É verdade? Mas me diga uma coisa, meu filho: isso não é câncer não, certo?
– É pai. É câncer. Tumor e câncer são a mesma coisa. Pouco importa o nome que se
dê, mas sim que a medicina está muito evoluída e que juntos vamos sair desta.
Após esta conversa, senti que sua aceitação foi muito positiva. As lágrimas que
rolaram foram menos intensas do que se poderia esperar. Mas fundamentalmente
notei que ele decidiu abraçar a luta pela vida, em vez de entregar-se à
enfermidade.
Eu poderia ter lhe dito que o tumor é maligno. Que seu estágio é avançado,
alcançando os dois pulmões e que o edema no cérebro é fruto de uma metástase,
caracterizando a evolução da doença. Poderia ter lhe dito que os oncologistas
trabalham com expectativa de vida e que a luta não é pela cura, mas pelo que
chamam de sobrevida.
Mas optei conscientemente pela omissão. E descobri que há circunstâncias em que,
sim, cabem meias - verdades. Porque elas aliviam, em lugar de ferir. Porque elas
não são um erro, nem tampouco um acerto, mas apenas o adequado. Porque elas
podem confortar e promover a esperança. Uma verdade oculta não é uma mentira
contumaz.
Nietzsche dizia: «Não pretendo ser feliz, mas verdadeiro». Abro mão da verdade
plena e da minha felicidade, para ver feliz quem amo.