Pagª 40 - EDIÇAO NºXXXIV , IIIº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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A saudade das naus e as ideias da portugalidade

Por Daniel Teixeira

 

 

 

Neste Século XXI quase XX não estamos assim tão afastados do escrito no fragmento do poeta Énio: «Nos costumes e varões antigos se apoia o Estado Romano.» nem sequer estamos afastados das lamentações e do diagnóstico de Cícero no Livro V de República: (...) «A nossa geração, embora herdasse um Estado que era um quadro magnífico, mas que começava a desbotar devido à antiguidade, não só não se preocupou em restaurar-lhe as cores perdidas, como nem sequer cuidou de lhe conservar, ao menos, o desenho e os contornos. Que resta pois dos costumes antigos em que o poeta disse que o Estado romano se apoiava?»

Trata-se agora neste período pós-colonial e tratou-se desde há séculos em certos círculos ditos culturais, de, pelo menos, conservar os desenhos e os contornos não do estado imperial (português no nosso caso) cuja romana saudade Cícero demonstra mas do imaginado estado português, confundindo aquilo que «ele devia ter sido» com aquilo que ele deve ser.

Reavivam-se nestes planos a memória de Camões, do Padre António Vieira, de D. Sebastião, de Fernando Pessoa (na parte que lhe cabe no processo) e toda a panóplia de voluntários e involuntários dopadores psicológicos deste nosso Portugal, desta renitente ideia da portugalidade na continuidade.

Na verdade estas ideologias (serão?) quase nada trazem de novo se não a reiterada evidência da descultura nacional. É uma cultura simplesmente coxa, não tem pernas para andar, arrasta-se em tapetes acetinados, banqueteia-se e acha isso extremamente giro. Para cúmulo ainda fecha as portas dos seus palácios de neblina e contrata guardas que não deixam ninguém entrar. Não estamos mesmo nada longe da «sociedade do elogio mútuo».

Conforme nos esclarece desde 1987 José van der Besselaar, no seu pequeno mas grande livro, O Sebastianismo, História Sumária, Editado na Biblioteca Breve pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, existe uma diferença fundamental entre a aceitação que se faz do documento histórico, e a aceitação que se faz da profecia.

O primeiro (o documento) serve-nos como base dos nossos conhecimentos do passado, pode ajudar-nos, eventualmente, a conhecer o presente e o futuro, dependendo das crenças; a segunda, a profecia, é a base e simultaneamente o produto das esperanças messiânicas.

Ou seja, e por outras palavras, enquanto na história nós acreditamos como se fosse (e é) uma lição, nos profetas e nas profecias, quando acreditamos, temos de acreditar como lição e como forma de atingir um objectivo determinado e até como uma forma de se ser em vista daquilo que se entende como o dever ser. O profeta e a profecia são, assim, conhecimento e alimento da ideia, desta ideia de portugalidade.

Não era e não é crime ser-se profeta que eu saiba, ou neste caso messianista, desde que as profecias não prenunciem causas ou indiciem claramente e efectivamente elementos causadores de perturbação individual ou colectiva. E poderia dar-se esse caso, embora ele não tenha lugar. Na verdade, sabe-se que o povo ou a classe social que nutre esperanças messiânicas tem, por via de regra, a ideia de ser um «povo eleito» ou privilegiado pelo Céu.

Esta (esperança messiânica) pode levá-lo a uma atitude etnocêntrica, e até megalómana e agressiva. A história mundial mais recente e a nossa própria história é fértil em exemplos ilustrativos. Mas pode ser também que o messianismo nacional ou social evolucione (e de reparar no termo «evolucione» porque nos diz que vai para além da característica primária – base) para um certo ecumenismo: o povo eleito ou o povo que se entende como sendo o povo eleito, embora reivindique para si lugar privilegiado, julga-se detentor de uma mensagem universal e de uma missão histórica válidas para todos os povos.

Nos tempos modernos, afastada que está a possibilidade da conversão à força (enfim...pelo menos à força bruta) e tendo evoluído, ainda que não muito, a consciência política e social dos povos e consequentemente a sua capacidade crítica, daremos menos relevo a este aspecto

A ideologia que nos pespegaram durante anos, e que consciente ou inconscientemente alguns continuam a querer pespegar-nos durante mais anos, mostrou-nos como povo eleito, agressivo em certos períodos da nossa história, e ecuménico, nomeadamente no que se refere anteriormente ás chamadas descobertas e mais recentemente, á triste ideia da nossa «nova» forma de sermos colonialistas. Uma forma sublime que se perde no confronto das realidades com que se esbate.

Em termos de história politica e económica sabe-se que, se o racismo é um fenómeno considerado eminentemente anglo-saxónico ou com forte incidência em países colonizados por anglo-saxónicos, e que tal se deve ao facto dos excedentes populacionais existentes nesses países terem fomentado a colonização e o estabelecimento efectivo das populações nas possessões conquistadas e que a colonização, como ocupação de espaços que é, origina a reacção negativa dos anteriores proprietários desse espaço e culmina no fecho da sociedade colonizadora em núcleos que são tanto mais duros quanto maior for a reacção exterior contra eles.

Nada que o Império Romana não tenha feito e conhecido há milhares de anos. A colonização é uma questão de estômago (de barriga, de fome) dizia esse colonizador que se chamava Cecyl Rhodes que deu origem ao nome de Rodésia.

Contudo e o mais grave talvez esteja algures por aqui colocado, no profeta existe um núcleo irredutível á racionalidade, ou seja, e por outras palavras jogadas, existe um núcleo de irracionalidade («pura») na profecia. A profecia tem um núcleo mítico e o mito é um motor poderoso da história. Leva uma grande vantagem sobre as construções racionais porque afecta o homem na sua totalidade, não se dirigindo apenas ao intelecto, toca-lhe no coração e incentiva-lhe a imaginação, motivando-lhe a vontade. A quem acredita nela, na profecia e na missão messiânica, ela dá-lhe uma visão do futuro convidando o homem a colaborar.

Mas, na sociedade moderna – científica e tecnológica a profecia típica já não funciona, faltando-lhe para tal as condições indispensáveis. Vem a ser substituída por análises científicas e processos técnicos, que invadem quase todos os terrenos da cultura hodierna e, dentro dos seus limites, funcionam com grande perfeição, dado que suprem, pelo imaginado consentido pela ignorância dos outros os campos antes povoados pela irracionalidade dando-lhes uma outra irracionalidade «culta».

Contudo a ciência e a técnica têm também os seus limites fatais: ambas são incapazes de dar sentido à vida dos indivíduos e das colectividades. Examinando de perto as ideologias modernas, que a muitos parecem objectivas e definitivas, descobrimos nelas também elementos míticos, ou seja, um núcleo irracional. Estes mostram muitas vezes ter mais força existencial e maior poder conquistador do que os componentes meramente racionais.

Assim, não se pratica já tanto a profecia integral ou a profecia pura, se a quisermos chamar assim. Dá-se-lhe uma roupagem ideológica, mais consentânea com os tempos modernos, alicerçada em especulações sobre a parte mística. Finalmente e como plataforma última de uma rebuscada ideia de afinidade e busca de empatia evangelizadora usa-se o recurso último do cardápio: «somos todos igualmente filhos de um Deus…e para o melhor e para o pior a essa verdade ninguém escapa».

 

 

 

 



Apresentação de Helena Lisboa

Por João Furtado

Encontrei Helena num encontro cultural. Um dos poucos que participei, sou uma pessoa muito tímida e muito discreta. Sou daqueles pessoas que se sentem bem, fechadas na sua casa deitado a ver televisão ou sentado no computador a escrever.

Iria fazer a minha primeira apresentação pública dentre de dias, havia participado numa Antologia da ULLA – União Lusófona de Letras e Artes. Quisemos fazer um lançamento. Eu pessoalmente estava a tremer de medo de enfrentar o publico, o meu colega e amigo Jorge Soares acho que devíamos ir a Cidade velha ver um Lançamento de um livro Histórico do Historiador Daniel Pereira, tendo eu que enfrentar o Publico dias depois, não tinha como negar. Não podia arranjar uma desculpa. A única solução era ir.

O Jorge me apresentou a Helena Lisboa, que imediatamente se fez minha amiga e se ofereceu para ler alguns poemas no lançamento do livro. Trocamos email e mais tarde lhe enviei alguns poemas. Ela leu e gostou, escolheu os que iria ler. Mas no dia marcado, não apareceu. Foi no dia em que a Cidade Velha foi transformada em Património Mundial da Humanidade. Compreendi, a Helena devia estar na festa em Cidade Velha. Era um valor mais alto que se levantava e eclipsava o meu humilde lançamento.

Dias depois recebia outro email da Helena. Disse que queria falar comigo. Não foi fácil. Hoje por fim a vi. Fui ver uma amiga e madrinha da minha mulher que o infortúnio lhe levou os dois pés. A Helena e ela são vizinhas, aproveitei e falei com a Helena. Fomos para uma pequena doçaria «Boca Doce».

Ela me mostrou um caderno, falamos cerca de 10 ou 15 minutos no máximo, enquanto ela tomava um café, eu li três ou quatro poemas no caderno de poemas e algumas prosas manuscritos. Gostei do que li e lhe propus que publicasse alguns no Jornal Raiz Online.

Ela enviou-me três poemas e Biografia. Espero que como eu gostei do que li, os leitores também gostem. A Helena Lisboa, desejo tudo de bom e que continue a escrever e que consiga um dia publicar o seu livro.

 

Helena Maria Ramos Lisboa

Concelho de são João Baptista Ilha da Brava.

Cabo Verde

Formação - Professora do ensino básico integrado, fiz a formação no Instituto Pedagógico _ Escola de Formação de Professores da Praia no ano de 1992 a 1995. Participei em varias formações profissionais, entre eles a formação de Cidadania.

Também participei no filme «Cabo -Verde Nha Crectheu» da realizadora Cabo-verdiana Ana Lisboa, em que escrevi um texto alem de fazer parte de outras funções como guarda-roupas, cabeleireira, produção, foi uma experiência de quase três meses em gravações cinematográficas.

Sou representante da casa de produção cinematográfica Brava Florida.

Participei como actriz, no filme O meu Coração, do realizador Nigeriano Jean Paul Ume. Participei na leitura de trechos do ultimo livro do escritor Cabo-verdiano Danny Spinola , no qual vem por escrito um agradecimento ao meu nome pela colaboração no livro; organizei a exposição do mesmo artista , neste caso pintura, que decorreu nos dias 25, 26 de Julho e 1 de Agosto deste ano 2009.

Sou uma dos integrantes do Documentário sobre Eugénio Tavares, do realizador Júlio Silvão. Sou membro integrante da SOCA - Sociedade Cabo-verdiana de Autores.

Participo em vários eventos culturais , como apresentadora. Sobretudo, gosto de escrever poesias e contos infantis.


Amarga partida

Amarga partida

Que nem na despedida
Me adoçou

Deixou só
O meu leito
Sem onde colocar
O meu peito

Amarga partida
Que me rouba as noites
Que leva com ela os dias

Já não tenho
Mais vida
Nem sonhos doirados
Porque neste ser
Domina a inquietação

Amarga partida

Que me parece sem regresso
Que o tempo não passa
Onde estou sem consolo

Amarga partida
Traga de volta
O meu amparo

Paixão é uma revolução do amor que melhora o coração.

A flor

Que arrepio no meu corpo
Ao te ver entrar pela porta
Trazendo na mão
A flor amarela

Não sabia se era para chorar
Ou para sorrir
Palavras não saíram
Naquele momento magico

Andei sorrindo
Andei pensando
No abrir da porta
E na flor amarela

Procurei uma jarra com urgência
Para colocar a flor amarela
Coloquei-a em cima da banquinha
Ao pé da minha cama

Acordo de manha
Vejo a flor ao meu lado
Lembro-me assim de ti
Quando abri a porta

Tenho a flor
Tenho a ti
Tenho a imagem
De um momento guardado
No meu peito

Noite

Noite escura, noite serena
Noite calma
Noite de luar
Noite de labor

Noite que esconde a imperfeição
Que nos faz sentir emoção
Que nos leva a perdição

Noite a beleza onde não há manchas
Noite onde despertas a tua mascara

Noite de murmúrios
Noite de vozes enlouquecidas

Enfim é noite