Pagª 32 - EDIÇAO NºXXXIV , IIIº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

Eleições Político Partidárias – 2ª Parte
(época de promessas)

Há mais de 50 anos, nas cidades onde existiam ônibus, estes eram contratados para transportar os eleitores e simpatizantes partidários, para assistirem os comícios e ouvirem as mentiras que são as promessas que os candidatos fazem quando sobem ao palanque. Raros são os que conseguem cumprir com o prometido.

Embora os analfabetos não tivessem o direito de voto, tinham alguém na família que era eleitor e iam todos juntos para torcer e bater palmas nos comícios.

Lembro-me de uma noite de comício. O antigo PSD, ou Partido Social Democrático, era chamado pela oposição de Partido sem Dono. A UDN, União Democrática Nacional, chamada pelos opositores de Unidos Desgraçaremos a Nação. Eram estes dois os partidos mais fortes.

O candidato ao governo em Santa Catarina chamava-se Aderbal Ramos da Silva, de uma tradicional família política.

Como naquele tempo não tinham táxis, os veículos para locomoção de pessoas eram duas charretes ou caleças de tração animal, puxadas por um ou por dois cavalos. Seus proprietários eram o Seu João Pouca Força e o Seu Peduca, conhecidíssimos por estes seus carros de mola.

Os usuários eram marinheiros, médicos para atender pacientes nas casas e pessoas em geral para passear.

Onde hoje é a Rádio, era a escola pública, de dois pavimentos e oito salas de aula. Ali em frente circulava a estrada, formando uma esquina ou curva acentuada.

O movimento estava grande, tratando-se de política, muitos fogos a estourar. Ao estourar um foguete perto da charrete, os cavalos assustaram-se e saíram em disparada. Mesmo assim o cocheiro tentou segurar os animais pelas rédeas para diminuir a velocidade e dar-lhes um certo rumo.

O ônibus de meu pai ia em sentido contrário, transportando passageiros para participarem do comício. Devido ao ângulo da curva os cavalos bateram de cara contra o onibus, felizmente não aconteceram danos físicos. Entre cavalos e passageiros salvaram-se todos, escaparam ilesos, pois a charrete vinha dominada pelo cocheiro e muito devagar.

Quem saiu com o prejuízo foi o ônibus que teve o radiador do sistema de refrigeração de água perfurado. Pela lança de separação dos cavalos.

O candidato ao governo pelo PSD, tendo como amigo o dono do ônibus era revendedor de ônibus da GM. Mandou trocar o radiador.

Sabendo que o dono da charrete era da UDN, o candidato de nome Aderbal, popular Deba, mandou um recado para o Peduca: _Diga a ele que se algum cavalo morrer e se ele precisar renovar a parelha é só mandar me dizer, pois farei com gosto e não irei convidá-lo para mudar de partido.

Assim como meu pai era membro do diretório da UDN, a amizade de Aderbal Ramos da Silva com ele era sincera e de negócios. Democracia é isto, não se deve misturar opções político-partidárias, esportivas ou religiosas.

Imbituba, por ter como sustentação financeira os dois grupos empresariais, Indústria Cerâmica Imbituba e Companhia Docas de Imbituba e comércio em geral, havia ainda uma certa liberdade de opção político-partidária.

Era exceção com os funcionários do Governo, como professores, exatores e outros. Quando optavam por um partido político que fosse derrotado, eram perseguidos politicamente, sendo transferidos para cidades até bem distantes.

(Ver a 1ª parte deste tema carregando aqui)

 

Olhinhos de água

Prosa Poética de Maria Petronilho



A nuvem menina, que se condensara na fria alvorada, abriu os olhos de água e espreguiçou-se em respingos de alegria, fazendo brilhar arcos íris cada vez que um raio de sol nascente lhe tocava.

Arremessou a capa branca de algodão e debruçou-se curiosa, lá do alto.

Viu o chão cinzento e negro, até onde a vista alcançava.

Boiava num azul límpido e fundo.

Achou estranho o contraste entre a alegria lá no alto e a tristeza que avistara ao longe.

Um menino muito loiro espreitava no horizonte, sacudindo a cabeleira fulgente, e ria, ria… a desafiá-la para brincar.

Mas de cada vez que se aproximava, a nuvenzinha ia ficando mais pequena.

Lembrou-se da escuridão que vira e sentiu muita pena.

Chegou-se mais perto do chão, onde galhos moribundos lhe estendiam os braços, talos amarelos em clareiras na calvície tostada, espinhos…

O resto era um reticulado de frestas, feridas abertas, pedras calcinadas.

Um ou outro bicho lazarento farejava atento, lambendo gotas de orvalho, as costelas ressaltando, os nós da espinha quase rompendo o dorso.

Os mil olhinhos de água sentiram-se comovidos, zangados com o lindo menino loiro, que se tornara uma brasa imensa, afogueando tudo.

Cada vez mais pequena e mais próxima, a nuvenzinha viu sementinhas à espera, que acordaram nela o impulso imperioso da chuva.

Diminuindo descia, imbuída de tristeza, ao passo que se evaporava no ar quente que a cercava.

O que restava do seu coração, uma gota pequenina, desprendeu-se e caiu…

Ainda escutou o riso alto do sol, não mais um menino, mas um sopro angustiante, que a dissipou antes que lograsse humedecer um círculo de poeira de poeira no solo dorido.

Tentativas de suicídio dos adolescentes aumentam

Recolha noticiosa e texto «O Suicídio»

de Irina Krolov

Os comportamentos suicidários entre os adolescentes estão a aumentar em Portugal. Todos os anos, mais de dois mil jovens atentam contra a vida, mesmo quando a morte não é o objectivo. «Para eles, a vida vale pouco». Só às urgências dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) chegam diariamente dois ou três novos casos. Mas há muitos outros, que nunca entram para as estatísticas: são silenciados em casa.

«Trata-se de jovens com comportamentos repetidos que a família já nem valoriza. Por isso, em vez de irem para as urgências, ficam em casa a dormir um ou dois dias», explicou Carlos Braz Saraiva, psiquiatra responsável pela Consulta de Prevenção do Suicídio nos HUC.

«Em Portugal existe um fenómeno crescente de para-suicídio adolescente, mas felizmente suicidas consumados há poucos», diz o psiquiatra, explicando que «o para-suicídio pressupõe que a intenção de suicídio é quase zero». Uma jovem que, perante um desgosto amoroso, toma comprimidos é um para-suicídio, o que é uma situação diferente de um rapaz que se decide enforcar e escolhe um local ermo para o fazer, explica.

As estimativas nacionais apontam para 200 casos por cada cem mil jovens, «mas se analisarmos apenas as raparigas o número sobe para 600 por cem mil habitantes», alerta o especialista. A vida para os adolescentes não é nada fácil. Para eles, a vida vale pouco, lembra, por seu turno, o chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital Júlio de Matos, António Albuquerque.

A maioria chega aos hospitais com sobredosagens medicamentosas, mas também há muitos casos de auto-mutilações. «Um em cada cinco jovens que entra nas urgências por sobredosagem também são cortadores», avança o especialista de Coimbra, explicando que se trata de um «método para trocar a dor de alma pela dor do corpo».

A questão nuclear do para-suicídio é a rejeição: sentem-se marginalizados, incompreendidos e, no final, não sabem como lidar com o desespero. O para-suicídio é um fenómeno das classes sociais mais baixas, estando normalmente associado a famílias com histórias de alcoolismo, toxicodependência ou abandono. «São normalmente filhos de famílias disfuncionais, que sentem que não têm com quem contar. Nunca tiveram confidentes, sentem-se rejeitados ou então foram abandonados pelo pai quando eram crianças», explica Braz Saraiva.

O retrato é corroborado pelo colega e chefe do Serviço de Psiquiatria do Júlio de Matos, António Albuquerque. Mas também existem casos nas classes sociais mais altas: «Onde os níveis de exigência são muito elevados, porque esperam que os filhos continuem uma espécie de dinastia na carreira. Esperam que sejam brilhantes no sucesso escolar». Numa sociedade que não concede grandes escapatórias para o fracasso, muitos jovens sentem que a realidade pode ser ameaçadora e acabam por ter comportamentos suicidas.

Se para muitos estes actos servem apenas para chamar a atenção, Braz Saraiva lembra que «é preciso valorizar o desespero de quem o faz». Apesar de poderem ser precipitados por aspectos infantis insignificantes, isso não quer dizer que não voltem a repetir os mesmos comportamentos. Braz Saraiva diz que «cerca de 25 por cento dos jovens têm tendência a ter comportamentos recorrentes, porque têm uma estratégia desadequada para lidar com o desespero».


O Suicídio

Irina Krolov

Há diversas formas de se morrer. Uma delas é o suicídio. Hoje em dia enquadramos o suicídio num contexto psicológico e vemos aqueles que o cometem como pessoas com problemas, passíveis de ser ajudadas por profissionais.

Mas o suicídio, a sua prática sempre existiu, desde os tempos mais remotos, e foi a forma de o encarar que mudou radicalmente ao longo dos tempos. As mentalidades evoluíram e o suicídio tomou outros contornos.

Só no século IV é que se começa a tomar o suicídio como algo negativo, graças a S. Agostinho que rejeita a prática. Mais tarde, a Igreja, órgão de suma importância nas sociedades do século XIII veio, sob a forma de S. Tomás Aquino, veio a trazer um conceito que mudou para sempre a visão dos que cometiam suicídio. Foi o conceito de «pecado» que até hoje ainda influencia a opinião de muitos neste assunto.

Foi então que, através de «castigos», como a ameaça do Inferno (ao cometer o pecado), e a exposição do corpo em praça pública, denegrindo a pessoa morta e família, o suicídio ganhou o seu cunho de «proibido» e mau.

Hoje o suicídio é visto essencialmente de uma forma psicológica (considerando-se as problemáticas psicológicas relacionadas), e entendido mais abertamente que sob a suma influencia da Igreja.

No entanto, não existe uma posição permissiva em quase nenhuma sociedade, mas sim uma preocupação crescente da saúde mental e não só de proporcionar uma existência em que o suicídio não seja contemplado como alternativa. Assim, desenvolvem-se esforços vários para promover condições de vida em que o suicídio não seja visto como uma hipótese viável.

(Continua)