Pagª 16 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Prosas e Poéticas

 Por Ilona Barros

Olhares

Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.

Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.

Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.

Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!


Oração

Neste dia vou dizer mil palavras.
Palavras de júbilo ou de tristeza,
Palavras de ira ou de comoção,
Substantivos aos centos,
Pronomes sem conta,
Adjectivos à discrição,
Preposições simples e compostas.

Neste dia sair-me-ão da boca
Expressões que nem conheço como minhas.
Vou ser sisuda no discurso,
Ou irónica no comentário.
Vou gritar chamamentos,
Laconicamente concordar,
Ou irromper em desabafos.

Que dessas mil palavras
Sejam duas dezenas das que valem,
Das que sabemos ser puras,
Das que garantem ser sãs,
Das que pronunciamos com candura,
Das que se erguem ao alto,
Numa oração ao Senhor!

Ilona Bastos
Lisboa, 15 de Junho de 2004


É difícil, sim, prosseguir esta caminhada solitária em que não existe resposta aos nossos apelos. Como o conseguimos antes? Levados por um impulso inicial, que nada parecia deter ou refrear. Não contava, então, o silêncio que perseguia as nossas palavras. Nem o eco, por vezes perturbante, das releituras insistentes que fazíamos, esperançados de encontrar a resposta na própria pergunta formulada.

Depois, não sei porquê, tudo se tornou diferente. Onde dantes se avistava um campo fértil - em que uma nova planta sempre se destacava, do solo surgida -, nasceu um deserto com as suas dunas, apenas interrompido por súbitos e tristes oásis, que mais faziam sobressair a desolação em redor.

Agora, lendo outrem que do mesmo modo esmoreceu, se apagou e deixou simplesmente um antigo rasto no ciberespaço, senti-me compreendida e acompanhada neste caminho solitário que ambas percorremos, cada uma por si, inicialmente inspiradas e felizes, mais tarde desiludidas e murchas, como a flor que brilhou ao sol e encantou, mas finalmente viu perdido o seu fulgor e se escondeu entre as páginas fechadas de um livro que ninguém lê.

Nem vejo o que escrevo, mas isso não interessa. Não é agora o desenho das palavras que me toca, nem a estética dos seus traços sulcando o papel - conta somente a torrente que da minha alma jorra e nesse desabafo intempestivo encontra inesperada pacificação.

Como eu, também tu percorreste esta via, indiferente à indiferença, auto confiante e esperançosa, adivinhando algo que nos últimos meses perdeu contornos e se esfumou, mas que uma súbita luz faz ressurgir no horizonte.

Talvez agora regresse. Quem sabe o reencontro tenha acontecido e de mim para mim possa retomar o diálogo que o tempo interrompeu mas não calou em definitivo.

 

 

Dia do Pai

 

Por Arlete Piedade

 

 

Poema para meu Pai

Queria fazer-te um soneto, pai
Um poema maravilhoso e lindo
E lá coubesse tudo que sinto
Mas ai, meu pai, estou triste
De te ver nessa cama de hospital
A lutar com todas as tuas forças
Para vencer a doença e o mal

Ninguém tem um nome para ela
Para a doença que te atacou pai
Falam mas não dizem a verdade
Escondem de nós a complexidade
De todos os problemas em ti, pai
Mas seja como for és um lutador
Mesmo na alucinação da febre
Lutas com toda essa galhardia
E vais melhorando dia para dia

Em breve estarás de volta a casa
Para tratares da tua horta e jardim
Para viveres os teus dias um a um
Com serenidade no teu cantinho
Sentado debaixo do pessegueiro
Com calma lá no teu banquinho
Enquanto as pessoas passam na rua
E te saúdam sempre com carinho

E eu estarei contigo para te cuidar
Dar-te o meu braço para te apoiar
Conversar contigo para te distrair
Falar dos tempos que não voltam
Da chuva, dos coelhos, da horta
Dos tomates que estão maduros
Das couves que estão a crescer
Das estrelas no céu, na via láctea
Que me mostravas em criança
Quando me ensinaste a sonhar
Quando me cantavas as canções
Do barqueiro, recordas-te pai?

Agora que estás cansado meu pai,
Quero ficar contigo na nossa casa
Esquecer as mágoas e tristezas
Ouvir as tuas antigas recordações
De quando andavas longe, a serrar
De tudo que lá tinhas que passar
E depois quando andavas a namorar
Uma rapariga de lá mas era tão longe
Que ficaste com a mãe para casar...

Pai agora apenas te quero dizer
Continuo a ter muito orgulho em ti
Dos teus ensinamentos sobre a vida
De sempre seres um homem lutador
Integro, amigo, honrado e respeitador
E poder dizer sempre que fui digna
Dos teus ensinamentos e do teu amor!

 

(Este poema é dedicado ao meu pai, que está a lutar pela vida, com muito amor e admiração)



Arlete Piedade