Pagª 18 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

 

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Coluna

     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Sábios, tititi, nhenhenhém


A Língua Portuguesa - Ecos da Lusofonia

Prefácio: segundo o Instituto Houaiss, in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa a Lusofonia, dentre outros significados, é o conjunto de países que têm o Português como língua oficial ou dominante e abrange , além de Portugal, o Brasil, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Abrange ainda as variedades de Português faladas em Goa, na �ndia; em Damão e Macau, na China e no Timor Leste.

O Arquivo Nacional Português da Torre do Tombo

Certa vez assisti a uma entrevista de um grande político português na televisão brasileira. Nela, Mário Soares admitia amar o modo peculiar do comportamento dos brasileiros, segundo ele hospitaleiro, bem humorado e esperançoso. Admitia também que o «acento» (sotaque) brasileiro ao falar Português era lindo: «...os brasileiros falam Português com açúcar», disse ele na tal entrevista.

Lembro-me de que conheci portugueses imigrantes na época de minha infância, que riam quando algum caboclo falava alguma coisa em língua «estranha» => em caipirês ! Eles achavam a maior graça aquelas expressões, cujos significados lhes eram totalmente estranhos. Nós também ríamos quando eles diziam coisas como «por vaixo da íagua», ao invés de «debaixo d´água»; «estou a esperar», ao invés de «estou esperando»; «saco», ao invés de «paletó»; «fato» ao invés de «terno»; «bica», ao invés de «cafezinho»; «ancinho», ao invés de «rastelo»; «péla», ao invés de «bola de borracha» e etc.

Havia ainda os italianos, que falavam «iróça», ao invés de «roça»; «lavoro», ao invés de «trabalho», «pasta», ao invés de «macarrão» e «pane», ao invés de «pão». Já os espanhóis, usavam algumas outras expressões; tais como «marrano», ao invés de «leitões»; «vou arriba», ao invés de «vou para cima». Já os japoneses eram um espetáculo à parte, pois para todos nós, as palavras eram incompreensíveis. Mas, descobrimos cedo que «Órraió» era «bom dia»; «kirêi» era «bonito»; «ôichi» era «gostoso» e que «yê» era «sim».

Com os japoneses, aos cinco anos de idade, aprendi uma canção infantil, que minha memória sexagenária esqueceu quase totalmente,mas que relembrou quando da apresentação na televisão brasileira, do filme japonês «As Cartas», que versa sobre a história de duas irmãs que se separaram ainda crianças; uma ficou no Japão durante a época da guerra e casou-se com um rico industrial e a outra veio ao Brasil trabalhar nos cafezais, como agricultora.

Nessa série, as crianças descendentes de japoneses, cantavam a «minha» canção japonesa. No filme, dramático como o cinema japonês é historicamente, até as crianças são obrigadas a parar de cantar devido à retaliação sofrida pela nobre colônia nipônica, devido à guerra do Japão; a morte de milhares de chineses devido à invasão pelos japoneses e ainda por outros motivos, tais como preconceito , jogo do poder, medo e ignorância:
«Ò tetê/ Yun Naindê/ Âque mon/ Yun queê bá/ Mina/ Ah Mina aí...» . Que me perdoem os nisseis, a minha versão latina da letra centenária da canção!

Bem, o leitor deve estar se perguntando: - aonde que o ACAS quer chegar com essa verborréia toda?; não é?
Este é o ponto, pessoal! A língua brasileira, muito mais que Português, tem influência do colonizador luso; a influência do latim e do grego; um pouco de árabe; o tupi antigo participou decisivamente do português que é falado no Brasil.

Assim, mesmo sem saber, não existe brasileiro que não conheça alguma palavra desse idioma. Que não saboreie abacaxi, pitanga, caju, jaboticaba, sapoti, gravatá ou pequi, frutas que conservaram seus nomes nativos. Ou que jamais tenha ouvido cantigas folclóricas como «Eu fui no itororó beber água e não achei. Achei bela morena, que no itororó deixei» —, mesmo desconhecendo que itororó é uma palavra indígena que significa «bica d’água», ou «mina d´água», em caipirês castiço.

Em minhas pesquisas, consultei parte do Método Moderno de Tupi Antigo, livro do professor Eduardo de Almeida Navarro, professor da Faculdade de Letras da USP. O professor Eduardo nos ensina bem no estilo do Professor Pasquale (conhecidíssimo por manter a anos um programa na TV Cultura de São Paulo, chamado de «Nossa Língua Portuguesa» e mostra trechos e músicas da MPB e as influências que estas têm, tanto com o povo colonizador, quanto com os nativos, além da miscigenação havida neste país de muitas cores), a respeito de uma música do Chico Buarque de Holanda, que diz:

«Reparando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem», pois bem; Pereba (ou bereba) do tupi, significa ferida.

• Pare com este nhen-nhen-nhen. A expressão vem do verbo nhe’eng (falar, piar) e significa pare de ficar falando, de falar sem parar.

• O velho jogo de peteca, que é um pequeno saco cheio de areia ou serragem sobre o qual se prendem penas de aves, tem este nome devido ao verbo petek — golpear ou bater com a mão espalmada. É com a palma da mão que se joga o brinquedo. Daí também vem a expressão «peteléco»; dar um tapa rápido.

• Velha coroca é uma velha resmungona. O termo nasceu do verbo kuruk, que significa resmungar.

(Continua)

 

 

 

 

 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

Quase todos os dias, pela manhã, peço a Deus me aguce o senso de ridículo. Já me vou dando o tempo de desacelerar, de recolher-me a meu canto, aguardando a graça de, na velhice, merecer o momento mágico da sabedoria. Pois, sobram duas saídas ao homem idoso: o ridículo ou a sabedoria. Peço a Deus me dê um pouco da última. E que os queridos me interditem se a ridicularia for meu destino.

Tribos africanas há que conduzem os seus velhos ao alto de montanhas para, próximos a nuvens, eles olharem com mais intimidade os céus. Os moços acreditam que os deuses, no silêncio das alturas, revelam segredos e desvendam mistérios para os idosos.

Então, os anciãos são alimentados e cuidados pelos mais jovens, a quase certeza de que, quando procurados, velhos sábios tenham coisas a dizer, a revelar.

A velhice mágica reveste-se desse silêncio: sábios falam apenas quando solicitados.

Penso nisso não apenas por mim, por medo do ridículo, nessa minha provada falta de sabedoria que ainda me impele a escrever. Penso nisso por causa, também, de Fernando Henrique Cardoso.

Ele me intriga. Nele, há como que um testemunho doloroso: cultura não é sabedoria. Idade, também não. E homens idosos e cultos, mas sem sabedoria, beiram o ridículo. Precisariam de alguém para contê-los, para evitar sejam desrespeitados e que passem por tolos. José Sarney é o mais patético testemunho disso.

Ora, Fernando Henrique está próximo dos 80 anos. Deve estar. Pois pessoas sem sabedoria gostam de ocultar a idade, como se a idade não fosse uma vitória, a soma, a conquista, o alcance de um patamar.

Após os 70 anos, um homem, penso eu, não deveria mais ter ambições de cargos políticos, de candidaturas, nem mesmo a de síndico de onde mora.

E a hora da reflexão, da contemplação, de estar disponível, no alto da montanha, para ser procurado, dizer do que ouviu dos deuses, do que a vida ensinou.

E, no entanto, Fernando Henrique insiste em liderar partido, em organizar candidaturas, em manter o controle da máquina partidária. A vaidade enlouquece.

Os gregos tinham os seus conselhos de anciãos, de sábios. A democracia sonhada era a de um espaço onde o homem e a comunidade social travassem a grande comunhão na filosofia.

Governantes seriam filósofos a serviço do povo, sendo inconcebíveis um Estado alheio ao espírito e um espírito alheio ao Estado.

Havia como que uma trindade grega no comando da nação: o poeta, o sábio, o político.

Fernando Henrique, José Sarney, entre outros, podiam ser parte desse conselho de anciãos. Mas ainda querem o palco.
Quando contrariado na presidência da República, Fernando Henrique dizia que seus opositores faziam nhenhenhém.

Até pode ser. Mas, agora, ele também está fazendo. Pois um estadista, quando deixa o governo, cala-se. Recentemente, foi lembrado o que Bill Clinton respondeu ao lhe perguntarem sobre a política de seu sucessor, George Bush: «Sou um ex-presidente dos Estados Unidos. Um ex-presidente não fala.»

No Brasil, é diferente: ex-presidentes falam, candidatam-se a cargos menores, atrapalham, aguçam seus apetites insaciáveis. E ex-ministros se tornam banqueiros, assessores de financistas, auxiliares de multinacionais.

Esperava-se, de Fernando Henrique, que ele mantivesse, fora do governo, talvez aquele silêncio sapiencial de Getúlio Vargas, quando se refugiou em São Borja, de onde retornou, carregado pelo povo.

Fernando Henrique preferiu o palco. Na velhice, parece preferir o ridículo. Quase ao mesmo nível de José Sarney.

Sábio não faz nhenhenhém. Nem tititi. Ou zunzunzum. Apenas silencia.

Bom dia

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Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.

Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.