Pagª 12 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Morreu o actor Morais e Castro

 

ACTOR MORAIS E CASTRO


As tuas aulas ao Tonecas
Cómicas e irreverentes
Tantas vezes me fez deixar
Outras prioridades da vida esquecidas
Refugiando-me nos sonhos da tua arte!

Muitas vezes te vi nesta mesma televisão
Ou tentando “educar� Tonecas ou na pele de
Reis ou pescador, nobres fidalgo ou simples pirata
Agora, hoje, anuncia a tua morte
Inesperada e vejo Luís Aleluia chorando
Sinto que o mundo lusófono te perdeu!

Espero e certo estou eu, continuas vivo, a tua obra existe!

Cancro de que foste vitima, teu corpo apenas levou
A tua alma, a tua imaginação, Morais e Castro
Sempre estará viva na recordação colectiva
Tanto em Portugal que tanto deste, como no
Resto do mundo Lusófono que tanto te viu e
Ouviu! Eu, resta-me desejar-te, Paz e Gloria Eterna!


João Furtado


Praia, 22 de Agosto de 2009

 

D` «A Barca Do Inferno» a «O Joãozinho, a Manuela e a Mentira»

Por João Furtado

Nota Redº: É continuação de Lisita

Esta manha a minha filha veio e me disse que eu estava convidado para ir assistir a peça ensaiada durante a semana. Foi um pequeno curso de teatro inserido do intercâmbio cultural, que tem sido feito anualmente, este foi o terceiro denominado CulturArte.

No ano passado havia assistido o produto final do segundo CulturArte, foi na sala dos espectáculos do Centro Cultural Português. O Geremias Furtado, meu filho Popas, havia participado na vertente «voz». Ele tem uma «voz» muito aceitável, aliás Cabo Verde tem tido muito boas «vozes», a musica Cabo-verdiana é bem conhecida no mundo.

Fui, alias, fomos, a minha mulher e eu. Gostamos de tudo, foi um espectáculo muito bom. Os meninos capricharam e mostraram-se muito profissionais. Hoje um ano depois, só me resta, sentir-me defraudado de não ter notícias artísticas de nenhum dos participantes do invento.

Uma boa parte era Americana é certo, mas a outra parte era Cabo-Verdiana e de várias Ilhas. Pelo talento demonstrado e pela sensibilidade demonstrada pelo selecto público presente, apenas os pais dos alunos e alguns amigos mais íntimos, podia-se prever um futuro mais promissor dos artistas. Não tive conhecimento de mais nada feito pelos presentes… o que falta para que a inércia termine e o talento dê frutos?

Pode-se dizer que os miúdos estão mais preocupados com os estudos e que a semente germinará num futuro mais ou menos próximo, assim que terminarem os estudos superiores. Espero bem que sim, não quero me convencer que todo este trabalho terminou naquele dia…

Hoje coube-me a sorte de ir ver a minha filha, a Elisa Helena, Lizita representar uma das cenas da «A Barca do Inferno» de Gil Vicente. Hoje, Dezasseis de Agosto, um dia depois da Cidade festejar a sua padroeira, Nossa Senhora da Graça.

Fui com a minha sobrinha Patrícia e com uma amiga dela a Nona que esta a passar férias connosco, é da ilha do Maio. A minha mulher, minha companheira no ano passado, não pode me acompanhar, esta nos Estados Unidos de férias.

Chegamos um pouco antes da hora marcada e ficamos na rua. É no mesmo local que dois dias antes assisti um dos últimos ensaios. No prédio do Instituto Lusófono da Língua Portuguesa, que achei por bem chamar da Casa cor-de-rosa.
Pouco depois chegou o último espectador, o Senhor Ministro. O portão abriu e nos convidaram a entrar. Entramos e… começou o espectáculo, afinal fazíamos todos parte do enredo. No nosso silêncio comprometedor, assistíamos a minha filha a tentar embarcar no inacessível «Barco da Gloria», o anjo não lhe permitia. Restando-lhe «A Barca do Inferno». No fim do acto fomos todos convidados pelo «Diabo» a entrar no «inferno» que era a sala onde iria decorrer as outras peças…

A surpresa foi maior ainda. Já estava deslumbrado com a grande representação feita pelos «actores - alunos», que continuaram a me brindar… Em crioulo apresentaram o «Nhu Lobo e a Tia Ganga» passaram por o «João e a Marquinha» para terminarem em apoteose com «O Joãozinho, a Manuela e a Mentira». A maior surpresa foi o público que adorou. Por fim houve um pequeno lanche.

Dei parabéns à minha filha, a professora portuguesa Ana Helena, a maior parte dos actores e também recebi muitos parabéns pelos textos escritos. Ao todo eram 12 «actores -alunos» de três diferentes ilhas. Seis da Ilha do Fogo, quatro de Santiago e dois da Ilha do Maio.

Alguns deles, eu já conhecia, os de Santiago, todos colegas e amigos da Lisita, o Ché, o Cláudio e o Luis. Outros via pela primeira vez, como a Isabel, a Keila e o Daniel da Ilha do Fogo ou a Elisabete e o Ailton da Ilha do Maio. Todos eles me surpreenderam pela positiva…

O que também me surpreendo é saber que as roupas da minha mulher tinham efeitos artísticos. Não fui só eu o lesado, a minha mulher também ficou momentaneamente sem «guarda-fato». Fomos efectivamente «assaltados» pela «gang» da «CulturArte» encabeçada pela minha própria filha, Lisita, mas o que importa e que …

… Fiquei com a mesma sensação de há um ano atrás. A semente esta sendo lançada, acho que temos talento, não entendo nada de artes cénicas. Talvez esteja a ver tudo com olhos paternos o que julgo ser talento não passa de carinho e amor que vejo na «actriz principal», a minha filha. Não obstante o discurso do senhor Ministro da Juventude e Desporto que também afirmara a qualidade de trabalho apresentado, feito apenas numa semana.

Passei por «Pão Quente», comprei muito menos pão do que havia comprado há três dias. Estava com sensação de saciedade. O nosso espírito também se alimenta e reflecte no nosso corpo.

Resta-me ir descansar um pouco. Amanha é segunda-feira, dia de trabalho.

Praia, 16 de Agosto de 2009

Verdades e Mentiras

Crónica de Tom Coelho

Há circunstâncias em que, sim, cabem meias - verdades. Porque elas aliviam, em lugar de ferir. Porque elas podem confortar e promover a esperança. Uma verdade oculta não é uma mentira contumaz.

«Existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las.» (Jean Cocteau)

«Não existe mulher meio-grávida».

Foi desta maneira que meu pai me ensinou que há situações nas quais inexiste o meio-termo. Ou é, ou não é.

Da mesma forma eduquei-me acreditando que a verdade também não admite interpretação dúbia. Como diria um provérbio iídiche, meia-verdade é uma mentira inteira.

Em tempos de crise de valores, quando a integridade, a idoneidade, a dignidade e tantas outras virtudes se despedem, tornando-se peças de museu, artigo raro seja na gestão pública, no mundo corporativo ou nas relações interpessoais, adotamos a verdade com vigor ainda maior. Primeiro, por princípio. E segundo, porque ela sempre vem à tona, cedo ou tarde.

Mas aí, como disse certa vez Luís Fernando Veríssimo, quando a gente acha que sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

Escrevi um artigo intitulado «A fragilidade da vida» no qual relato a experiência da descoberta de um câncer que acometeu meu pai. O fato nos foi revelado após exames para diagnosticar o que parecia ser um AVC (acidente vascular cerebral). E durante vários dias vivenciamos um dilema: os familiares sabiam que era um tumor maligno, enquanto meu pai imaginava tratar-se apenas de um breve coágulo no cérebro.

Quando penso em meu pai, sempre me vem à mente uma pessoa ativa, dinâmica, criativa e muito batalhadora. Com pouca instrução, teve a capacidade de promover grandes realizações em sua vida. Proporcionou estudo aos seus cinco filhos e jamais permitiu que algo nos faltasse. Domina a matemática de maneira invejável para muitos estudantes de nível superior. Porém, ao lado de tantos aspectos positivos, há um contraponto tenaz: um terrível hábito de cultivar o pessimismo em momentos de adversidade.

Este aspecto já nos distanciou algumas vezes. Chegamos a trabalhar juntos por alguns anos, mas a divergência entre nossas posturas era objeto constante de conflito. Perante uma vicissitude ou uma oportunidade, eu sempre acreditava que seria possível, que daria certo. Já meu pai partia do pressuposto de que o jogo estava perdido.

Conhecendo este padrão de comportamento eu sabia que o ideal seria omitir a verdade sobre sua doença. Afinal, a cabeça comanda o corpo, de modo que em seu período de maior debilidade física, o melhor seria fazê-lo acreditar que tudo era relativamente simples e passageiro.

Contudo, hospitais trabalham com protocolos médicos. E um deles determina que todo paciente deve ser esclarecido com franqueza sobre seu quadro clínico e o tratamento ao qual será submetido. Diante disso, o pneumologista sentenciou: «Ou vocês, familiares, contam a ele o que está se passando, ou contaremos nós».

Minhas irmãs decidiram por consenso que esta tarefa caberia a mim. E dois dias depois lá estava a sós com meu pai, em seu quarto, ao lado de seu leito. Solicitei -lhe que se sentasse, por um instante, de frente para mim. Segurei-lhe as mãos e reproduzo a seguir um resumo do diálogo que sucedeu:

– Pai, você acredita em Deus?
– Sim, acredito!
– E confia em mim?
– Com toda certeza, meu filho.
– Pois então, seu problema é um pouco mais grave do que imaginávamos...
– Eu já sabia... Mas não me conte. Eu não quero ouvir! Não quero! (virando o rosto)
– Mas eu preciso lhe dizer, porque ou você ouve de mim, ou ouvirá dos médicos. Você está com um tumor no pulmão. É algo raro, ainda mais para quem, como você, nunca fumou. E o coágulo em seu cérebro é uma consequência deste tumor.
– Então estou liquidado...
– Pai, deixe de pensar assim! Há tratamento, há cura, e é por isso que você está aqui, num dos melhores hospitais do país e com ótimos especialistas.
– É verdade? Mas me diga uma coisa, meu filho: isso não é câncer não, certo?
– É pai. É câncer. Tumor e câncer são a mesma coisa. Pouco importa o nome que se dê, mas sim que a medicina está muito evoluída e que juntos vamos sair desta.

Após esta conversa, senti que sua aceitação foi muito positiva. As lágrimas que rolaram foram menos intensas do que se poderia esperar. Mas fundamentalmente notei que ele decidiu abraçar a luta pela vida, em vez de entregar-se à enfermidade.

Eu poderia ter lhe dito que o tumor é maligno. Que seu estágio é avançado, alcançando os dois pulmões e que o edema no cérebro é fruto de uma metástase, caracterizando a evolução da doença. Poderia ter lhe dito que os oncologistas trabalham com expectativa de vida e que a luta não é pela cura, mas pelo que chamam de sobrevida.

Mas optei conscientemente pela omissão. E descobri que há circunstâncias em que, sim, cabem meias - verdades. Porque elas aliviam, em lugar de ferir. Porque elas não são um erro, nem tampouco um acerto, mas apenas o adequado. Porque elas podem confortar e promover a esperança. Uma verdade oculta não é uma mentira contumaz.

Nietzsche dizia: «Não pretendo ser feliz, mas verdadeiro». Abro mão da verdade plena e da minha felicidade, para ver feliz quem amo.

 

MULHER BORBOLETA

João Furtado

Voa mulher voa
Tuas asas nunca se limitarão
As coisas terrenas
Es do alto
No alto ficaras sempre
Lá bem alto
Teu espírito
Cheio de amor a vida
Eternamente
Voará
Voa mulher
Borboleta és
E sempre serás!

Não

Digas
Isto
Apenas!

Mesmo isto
Unicamente grite alto
Não, não desanimarei jamais
Diga, sinta a força da vida
Inda, custa, sei que custa
Aceito, acredito que fraquejaria, mas peço-te
Liberta da tristeza, diga não ao desânimo!

Claro que amanha
O sol brilhará para todos
Não te quero ver triste
Te quero alegre e bem disposta
Rija e com confiança
A tua esperança é o teu remédio!

Com coragem e determinação
Atitudes que sempre tiveste
Na tua luta constante e titânica
Contra a doença que te aflige
Resististe a muitas adversidades

O passo seguinte é o mesmo resistir, resistir sempre!