Pagª 11 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Maria da Fonseca - Poema e Prosa Poética
A água do mar explodiu !
Nasceu um novo vulcão
Neste mundo, nossa era,
Fenómeno de erupção
A quando menos se espera.
Foi na Ilha do Faial
A um quilómetro da costa,
Nesse mar especial
Em que a sua gente aposta.
A terra andava a tremer
Havia dias ou meses…
Nada o fazia prever
Pois acontecia às vezes.
Há mais de cinquenta anos
Que um ronco no mar se ouviu
E perante olhos humanos
A água do mar explodiu!
Assustou os que assistiram
E os que de longe souberam
Que as lavas emergiram
Onde alguns antes 'stiveram.
Do mar avançou prà terra
A dilatar nossa Ilha
E casas, prados, soterra,
Co’a destreza da armadilha.
De toda a parte chegaram
Curiosos cientistas
Que o fenómeno estudaram,
Suas fases imprevistas.
O vulcão dos Capelinhos,
No nosso tempo chegado,
Abriu assim os caminhos
Pra compreender o passado.
Irrupção vinda do mar
Treze meses assombrou
Com surpresas de pasmar,
Findos os quais sossegou.
Ficou a Ilha maior,
Alterada a sua imagem,
E uma percepção melhor
Da tão invulgar mensagem.
Lisboa - Portugal
Maria da Fonseca
LINHA DO HORIZONTE
Recordando que a linha do horizonte é, por definição, a linha de contacto aparente entre o Céu e a Terra, permaneço diante do Oceano soberbo, limitado por uma linha curva perfeita.
Esta visão sempre me encanta ano após ano. Não me lembro de outra linha do horizonte tão nítida como esta. Transparência rara. O Senhor a cria com seu divino compasso e não permite que seja maculada. É imperceptível a olho nu qualquer alteração na pureza dessa curva. Agora não existem dúvidas quanto à afirmação de a Terra ser esférica. Mas aqui até a criança que brinca na praia compreende a antiga justificação.
Não se vislumbra qualquer objecto vindo do Sul que afecte a bela linha imaginária que separa o mar profundo tinto de azul forte do céu azul celeste límpido sem mancha. Cair da tarde magnífico a transmitir serenidade, poesia!
Se do lado de cá vemos barcos, velas, gaivotas pousadas onde o Sol ainda ilumina e banhistas retardatários, para lá do horizonte só se nos apresenta o que a imaginação do poeta conceber.
Procurando melhor, reparo em duas faixas, uma rosada e outra lilácea que se desenvolvem paralelamente à linha do horizonte. Quanto mais me afirmo mais a cor lilás se propaga elevando-se no céu de forma a fazer desaparecer a luz. É o Sol que se está a pôr. Muito breve chegará a noite e a saudade da maravilhosa vista que desfrutei sobre o Atlântico.
Se Deus assim o quiser amanhã nascerá um novo dia!
Praia da Rocha - Portugal
Maria da Fonseca
JORNADA CREPUSCULAR
VIAGEM NO SEBASTIANISMO
Por Mário Matta e Silva
Enfrento o crepuscular dos dias seguindo em jornada sebastiânica, numa procura incessante, não de um vencido, de um perdedor, de um desaparecido, mas de um herói, de um destemido, de um salvador, de um Messias, que procuramos.
Viajo nos trilhos do sebastianismo (meu último livro de Poemas, editado em Março passado, com o título «SEI QUE VOLTAS SEMPRE») que vêm de 1598 aos nossos dias.
Não me acompanham profecias, (Bandarra: «Muitos podem responder / E dizer: / Com que prova o sapateiro / Ou como isto pode ser? / Logo quero responder / Sem me deter. / Se lerdes as Profecias / De Daniel e Jeremias / Por estas o podeis ver.»- cerca de 1538-1541) nem vaticínios imperiais do Padre António Vieira, pós 1640: («Quando tiverem por certo / Perdida toda a esperança / Portugal terá bonança / Na vinda do Encoberto.») e muito menos presságios de Nostradamus.
Não me conduzem os velhos apregoadores de mitos sebastiânicos, como Lope da Veja, Fernando de Errera ou Zorrilla, em Espanha, ou de um teatro inglês de Ernest Reeynoldas, e tantos outros.
Viajo sim num sacudir de marasmo e num grito de mudança para melhor. Viajo nos crepúsculos que trazem esperanças renovadas e nos enfeitam os olhos de matizados devires. Venho de longe, por estas linhas, trazendo mágoas, revoltas, ironizados descreres, e jogo-me em cada mensagem contra as injustiças, apontando os reveses da politica, amaldiçoando a insanidade em que vivemos.
Hoje trago o inconformismo que trouxeram noutras diferentes épocas, evocando o Desejado, os mensageiros da poesia, como João de Lemos, Luís Augusto Palmeirim, Guerra Junqueiro, António Nobre, Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, António Sardinha, Fernando Pessoa, José Régio, Vitorino Nemésio, António Manuel Couto Viana e muitos outros, que chegam até aos nossos dias.
Sem preciosismos patrióticos («Mensagem» de Fernando Pessoa) ou saudosismos desbragados ( Teixeira de Pacoaes ) trago a angustia de quem desespera em crises sucessivas duma Pátria doente, - antes e depois do 1974 -. Sem outro conforto para gente que sofre as fragilidades e amarguras de uma sociedade adversa e de uma politica incoerente, apenas me confundo com os que manejam «armas» feitas de palavras contra os males do Mundo. Talvez contra moinhos, como Dom Quixote.
Mas nas metáforas do verso andam nuvens pairando numa demonstração de algo com que a realidade crua nos avisa a cada revigorada aura crepuscular, deixando passar os dias, feitos de incertezas e angustias. Felizes os que não as têm!
E assim se restitui a sensação de um instante para retomarmos a caminhada, trazendo enfeites, bombos e flautas para cantarmos as promessas de cada um que espera alcançar o poder. E o povo acena, goza, acompanha… sempre na mesma e entusiástica maneira de encontrar a felicidade na crendice e na fé de dias melhores.
(Fernando Pessoa: «… Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro… É a hora. » do poema Nevoeiro, de 10.12.1928, publicado na Mensagem.
E já lá vão mais de 80 anos que este poema foi escrito. Em quantos outros tantos crepúsculos Portugal será nevoeiro?
Poesia de Sá de Freitas
Nem sempre dei meus passos com firmeza,
Por essa estrada íngreme da vida
E cai, recompus-me e abri ferida,
Na minha alma sofrida e já indefesa.
Muitas vezes à dor e à tristeza,
Na mente ,em desespero, dei guarida,
Outras vezes, no meio da subida,
Quase parei à sombra da incerteza.
O tempo foi passando e nessa luta,
Fui esmerando mais minha conduta,
Para encontrar caminhos mais amenos.
Pois é caindo que nos reerguemos,
É com as dores que nós aprendemos,
Que errando pouco... sofreremos menos.
TUDO PODE SER MUDADO
Vão-se as nuvens e o Astro Rei brilhante
Retorna após a tempestade ida,
Trazendo luz á tudo o que tem vida,
E a Natureza faz-se deslumbrante.
Eu observo isso... E num instante,
Vejo que se a existência for sofrida,
Pode, com a luz da fé, ser revertida,
Basta a gente lutar...Seguir adiante.
Não há escuridão que a luz não vença;
Não há barreiras para quem tem crença;
Não há derrota à quem quer triunfar.
Não há tristeza à quem só vive rindo;
Não existe o feio à quem vê tudo lindo;
Não sente ódio quem deseja amar.