Pagª 7 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poemas de Patrícia Neme
Auto-retrato
Me pedes das feições... Contempla os traços
das vidas, cujo lar é uma calçada.
Caminhos, onde os sonhos são escassos,
aos quais o fado oferta o nada... Nada!
Encontra-me no olhar do pequenino
privado de carinhos, de alimento;
na infância - filha de único destino:
um chão, sem sepultura, alma em tormento.
É minha a voz pungente em elegia
às ilusões ceifadas pela guerra
(por quê pretendem vã toda agonia
da cruz, a suplicar por paz na terra?).
Meu rosto é feito da pura energia,
criando as esperanças do amanhã;
é cheiro de pão quente e mão macia
que planta e colhe o fresco do hortelã.
Em mim repousa o credo na igualdade
dos povos, pouco importam credo ou raça;
e a gratidão à eterna divindade
que a bichos, gente, plantas, tudo abraça.
Eu sou o verso aceso, alma serena,
sou noite perfumada de jasmim;
mãe de toda Maria - ou Madalena...
Me pedes das feições... Eu sou assim!
Fiz do verde meu caminho...
Fiz do verde meu caminho,
fiz da vida plantação;
plantei flor e passarinho,
filhos, versos e oração.
Plantei pão e plantei vinho,
com o amor da minha mão.
Caminhei por verdes mares,
fiz sorrir verdes olhares,
verde foi o meu jardim.
Verde foi minha esperança
no verdor das minhas tranças...
Hoje restam só lembranças
com as quais brinco cantares
da ventura que há em mim.
O Senhor é meu pastor
e nas verdes pradarias
me regala paz sem fim!
Das rosas e dos Sonhos
«O sonho que se esvai na desventura»
do anoitecer das pétalas das rosas,
é sonho embevecido pela alvura
da mão entregue às tramas amorosas.
O sonho que se esvai... Sonho ou loucura?
No sonho habitam cores enganosas...
E na loucura habita a entrega pura
de quem sonhou venturas ardorosas.
As rosas... Sempre as rosas por pretexto
para ilustrar a forma e dar contexto
ao que a palavra anseia em demonstrar.
Os sonhos... São as rosas desfolhadas
ao vento de ilusões vãs, derrocadas...
Em busca de um alguém a quem amar!
Libertação
E certo, amei-te além do meu bom senso,
com força, com delírio... Com loucura!
Amei, tão de profundis, tão intenso...
Que me perdi... Quando à tua procura.
E achei-me em pranto largo, triste, denso,
nos campos semeados de ternura.
Amei-te... E o meu amor foi tão imenso...
E para ti, foi tudo uma aventura...
Porém, quando faltou-me o tudo e o nada,
a vida fez surgir nova alvorada,
nos sonhos que eu sonhei, como jamais.
E agora, hoje eu me encontro em outro peito,
que pulsa em meu viver e no meu leito...
De ti... Por fim, eu não me lembro mais!
Poesia de Mário Matta e Silva

A JANELA QUE NAO RESPIRA
Há uma janela que não respira
Amorfa, sem vida
Que olha da parede para mim.
Não resguarda gente do frio
Não se abre para o jardim
Meio esgotado e selvagem.
A magia daquela janela
É não querer ser ela.
Sim, uma janela mostra o interior
Escancara-se para o exterior
Geme nas ferragens
E faz-se carcomida nas madeiras
Mas tenta representar pessoas, sensações, luz.
Aquela janela meus calafrios produz
Para além de imaginações perversas
Um verdadeiro estertor
Uma agonia sem arquitectura nem brios
Sem reposteiros ou cortinas de renda
Onde o pó cresce em camadas
E os gatos não se aproximam
Mostrando seus olhos celestes
E seus veludos de pelo.
Aquela janela suscita-me o nada
O vazio
Um torpor frio
De um sem abrigo
E há ali praga, abismo, inimigo
Que lhe põe mau olhado
Que lhe tirou o bafo, as vozes, os movimentos.
Não mostra mulher ou homem no seu interior
Nem crianças, nem velhos
Nem canário empoleirado
Nem quadros pendurados
Ou um pano correndo meigo pelos vidros
A limpá-los da sujidade acumulada
Mostrando o esqueleto que a trás emoldurada
E perra talvez, quem sabe.
Não mostra mulher de pijama ou nua
Nem homem de tronco aberto ou camisola interior
Ou idosa de carrapito fazendo crochet
Nem o saltar na frigideira de uma omeleta
Que seja, para acalentar o estômago enraivecido…
E eu pergunto-me desiludido
O que faz ali aquela janela
De olhos tristes… corpo abandonado?
Numa parede esquadrinhada
Sabe-se lá quando e por quem
Ela consome-se no tempo
Empena-se nas intempéries
Suportando ventos agrestes
Na companhia de uma acácia, dois ciprestes
E tendo ainda a admirá-la um banco de jardim
Onde os cães mijam quando a lua vem no fim
De cada tarde morna que a bafeja.
Não há vida que se veja
Casa adentro e a porta tem ferros a trancá-la
Mostrando que a casa se cala
Desde há muito
Sem palpitações
Como que num estado de coma
Alheado a tudo e a todos
Em melancolias tais
Indiferente aos vendavais.
Cada vez que ali paro admiro a sua postura
A envelhecer de madura
E de tristeza.
A última vez, com os olhos e a alma
Ganhei forças, perdi a calma
Quando a vi
E arranquei-a para que não se tornasse
Mais um escombro, um esqueleto
E em moldes de cântico de velório
Tentei oferecer-lhe frescura
Pintei-a, fiz uma moldura na sua moldura
Pendurei-a no escritório.
Surrealismo, 08.09.2008
Mário Matta e Silva
