Pagª 3 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Sentir na pele

Por Francis Raposo Ferreira

 

Um destes dias tive uma ideia meio estúpida, resolvi deixar crescer a barba, calculo que estareis a pensar, em que é que o facto de deixar crescer a barba pode ser uma ideia estúpida, pois aquilo que eu acho de meio estúpido não foi a decisão de deixar crescer a barba, mas sim o propósito que estava por detrás dessa ideia e tudo o que lhe estava associado.

Como imagino que deveis estar a pensar que a ideia não tinha assim nada de especial e eu é que devo estar a ficar passado da cabeça, eu passo a explicar, a minha decisão de deixar crescer a barba estava relacionada com uma investigação que eu queria fazer, observar até que ponto o visual das pessoas influencia o comportamento dos outros para com ela.

Deixei crescer a barba, alguns pontos brancos começaram a marcar território, não muitos, e nem sequer a aparei durante algum tempo, o necessário para provocar o efeito que eu pretendia. Ao principio, quando a barba de um homem começa a dar aquele ar de não andar aparada, reparei que as pessoas me olhavam assim meio de lado, mas não dei muita importância, poderia ser só coisas da minha cabeça, mas à medida que os dias iam avançando, eu fui reparando que nem a ideia fora assim tão estúpida nem aquilo eram coisas da minha cabeça.

Eu entrava num transporte público, sentava-me e reparava que havia pessoas que preferiam ir de pé a sentar-se ao meu lado, nunca descurei a minha higiene pessoal, aliás tinha, agora, ainda mais cuidado, pois tenho a noção de que a barba, ou o cabelo, grande requer muito mais atenção a nível de higiene, por isso só podia ser o meu visual a condicionar os outros.

Fui continuando as minhas investigações e, naquele que decidi que seria o último dia, resolvi completar o cenário, vesti-me todo de preto, no trabalho perguntaram-me se me tornara adepto do islão, outros disseram-me que não sabiam como é que a minha mulher permitia que eu saísse assim de casa.

Mas o que mais me chocou ainda estava para acontecer, foi no regresso a casa, entrei no autocarro, sentei-me e pouco tempo depois entrou uma senhora com o filho, a mãe fez questão de se ir sentar ao meu lado, a criança disse de imediato:
- Mãe, ao lado do cigano não.

Confesso que não fiquei chocado, era apenas uma criança a quem, provavelmente, até já a tinham assustado com a figura do cigano mau, mas foi a resposta da mãe que me fez sentir indignado:
- Cigano não, filho, tem ar de estar muito limpo.

Para aquela senhora, ser-se cigano é sinónimo de sujidade, é assim com estes exemplos que os pais apregoam que é preciso construir um mundo mais tolerante.

Agora vou cortar a barba, vou procurar aquele mesmo autocarro para tentar encontrar aquela mãe, se tiver essa felicidade irei oferecer-lhe um dos meus poemas sobre a condição humana e convidá-la a tomar um café com o cigano da barba cortada. Não sou cigano, porque Deus não o quis, mas naquele dia senti na pele o que é ser marginalizado.

Numa época em que tanta se fala em globalização, catalogam-se as pessoas pelo seu aspecto.

Bem hajam

 

 

 

 

Poemas de Sá de Freitas

Cada nova amizade que surge em nossa estrada, é mais uma luz em nossa vida - (Sá de Freitas)

QUANDO EU NASCI PRA SER POETA

Quando eu nasci pra ser poeta um dia,
A inspiração e o sonho festejaram,
Mas num canto escondidos, com ironia,
O pranto e a dor, sem pejo, gargalharam.

Mas hoje, mergulhado na poesia,
A dor e o pranto, que de mim zombaram,
Não podem retirar minha alegria,
Porque nunca... jamais... me escravizaram.

Eu sou poeta e igual a toda gente,
Sofro em meus dias, quando estão nublados,
Embora de maneira diferente.

É porque nos momentos adversos,
Enquanto muitos sofrem a dor, calados,
Eu desabafo a dor fazendo versos.


AO SOM DA LIRA

Ao som da lira eu fico embevecido,
Meio perdido até... se o amor decanto,
Porque o pranto flui-me tão sentido,
Quando envolvido estou por esse encanto.

Mas da lira não ouço o som doído,
Nem o gemido do meu peito, enquanto
Fujo de pronto, do meu tempo ido
E tão sofrido por desgosto tanto.

E as dores?... Busco eu sempre esquecê-las,
Pois prefiro ficar olhando estrelas
E nelas encontrar os versos meus.

Enquanto estrelas olho... a dor esqueço;
Quando esqueço da dor eu agradeço
E enquanto agradeço... eu sinto Deus.


SEM AMOR A VIDA FINDA

As ilusões se vão...vão de repente...
E, de repente, surge a realidade,
Que faz-me compreender que não é tarde,
Para sonhar de modo diferente.

Mais consciente agora e realista,
Meus castelos possuem outra estrutura...
Não alço vôo em demasiada altura...
Somente luto certo da conquista.

As ilusões da mocidade ida,
Serviram-me de ponto de partida,
À longas lutas que empreendo ainda.

Pois sem ter sonho o ideal fenece,
Sem ideal o amor desaparece
E sem amor, por certo, a vida finda.