Pagª 33 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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CRUZ E SOUZA

Por Arlete Deretti Fernandes

João da Cruz e Souza era filho de escravos negros, nascido em Desterro, atual Florianópolis, em 1861. Ele foi o Mestre do Simbolismo Brasileiro, é um alto patrimônio nacional e tem a mais alta consideração internacional...

Seus conterrâneos, muitas vezes, contentam-se em dar seu nome ao Palácio Cruz e Souza e a um considerado Prêmio de Literatura. Para o escritor e Professor de Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, Lauro Junkes, «a melhor homenagem que podemos prestar-lhe é ler, apreciar e valorizar sua obra.»(p. 17). Cruz e Souza foi um ser que viveu para a poesia. Passou a sua existência para poemas. Sofreu a tortura estética.

O grande poeta foi educado até a adolescência pelo Marechal Guilherme Xavier de Souza, dono e posterior libertador de seus pais. De seu protetor recebeu as melhores condições e estímulos para o estudo. Concluiu o curso secundário em 1876. O renomado cientista Fritz Muller foi um de seus professores.

João Cruz e Souza deixou os estudos quando o protetor morreu. Passou a militar na imprensa catarinense, escrevendo crônicas abolicionistas. Empregou-se no comércio e fez parte de um grupo de literatos catarinenses., junto com os quais lutou pela implantação das idéias e da estética realista, em oposição ao desgaste do Romantismo.

Escreveu seus primeiros poemas em 1879. Em 1881 percorreu o país como «ponto» de uma companhia teatral. Seu livro de poemas «Cambiante», não chegou a ser publicado, seus poemas foram incorporados ao «Livro Derradeiro».

Em 1885 voltou para Desterro, onde assumiu a direção do jornal «O Moleque», dinamizando-o , mas sofrendo restrições devido ao preconceito de cor. No mesmo ano estreou com o escritor Virgilio Várzea o livro «Tropos e Fantasias».

Cruz e Sousa praticou essencialmente um jornalismo cultural que era também crítico. Depois de «O Colombo», publica regularmente na «Tribuna Popular». Como este jornal desapareceu da Biblioteca Pública, pode-se ainda estudar Cruz e Sousa como jornalista na coleção do semanário «O Moleque», que ele dirigiu por seis meses, acrescenta Zahidé, lembrando que o poeta «não tinha medo das palavras e usava-as com vigor contra as injustiças sociais».

«O Moleque», publicado durante um ano (1884 a 85), era um períodico de formato pequeno, ilustrado litograficamente. Com humor, sátiras e caricaturas, criticava os costume e a política. Com passagem em inúmeros outros jornais da crítica brasileira, R. Magalhães Júnior, seu biógrafo mais apurado, destaca os pseudônimos do poeta na imprensa brasileira: Felisberto, Filósofo Alegre, Coriolano Scévola, Habitué, Zé K. e Trac.

Iaponan lembra outros, Heráclito, Zat e Zot e afirma que na imprensa catarinense, Cruz usou ainda outros pseudônimos. Em «O Moleque», Zat, Zot, Zut. Com relação ao pseudônimo Zé K., Magalhães Júnior vai mais longe e revela o anagrama do Z de Cruz e da conjunção que o liga a Sousa, sendo K a transposição para essa consoante do som de C + A, isto é, da primeira e da última letra de seu nome literário.

Cruz e Sousa já era moderno, antes de ser eterno. (JL). Animado por Várzea, segue para o Rio de Janeiro onde trabalhou como jornalista. No Rio tornou-se adepto do Simbolismo O ano de 1893 tornou-se posteriormente marco histórico - literário, devido à publicação dos livros de Cruz e Souza – Missal (em prosa) e Broqueis (em poesia).

Cruz e Souza casou-se com a bela moça negra, Gavita Rosa Gonçalves que lhe dera 4 filhos. Ele trabalhava como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil. Viveu um período de muita pobreza, que se refletia em seus versos pessimistas. Tudo ele fez para superar – se, mas a adversidade era muito forte. Sua esposa chega à demência.

Quando nasceu seu 3º filho o poeta ficou tuberculoso. Viu dois de seus filhos morrerem, enquanto lutava tenazmente contra a pobreza e a doença. Mortos seus pais e dois de seus filhos, agravam-se os problemas do poeta. Torturado por tantas desgraças, compõe magníficos poemas, como o que dedicou à recuperação de Gavita:

«Alma! Que tu não chores e não gemas,
Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
Lá onde a loucura mora!
Veio mesmo mais belo e estranho,
acaso, desses lívidos países,
Mágica flor a rebentar de um vaso
Com prodigiosas raízes (...)
Ah! Foi com Deus que tu chegaste, é certo,
Com tua graça espontânea,
Que emigraste das plagas do Deserto
Nu, sem sombra e sol, de Insônia».

Enfraquecido pela tuberculose, em 1897 o poeta retira-se para a estação mineira de Sítio, à procura de melhor clima . Morre um ano depois. Após a morte a glória de Cruz e Souza foi crescendo sempre mais.

Figura insuperável do Simbolismo Brasileiro, e seu grande mestre, tornou-se das mais altas expressões da poesia universal, cada vez mais descoberto e estudado no estrangeiro. «Poeta Negro», «Dante Negro», «Cisne Negro»... não são poucos os epítetos colocados nesse poeta que, tendo morrido em 1898, já foi comparado a Mallarmé, Baudelaire, Stefan George e Lautréamont, entre outros escritores de grande importância internacional.

Num momento em que o Naturalismo e o Parnasianismo determinavam o cânone literário do país, o aparecimento de «Broquéis» inaugura o Movimento Simbolista no Brasil, adquirindo com Cruz e Sousa uma característica inteiramente singular.

Muitos críticos chegam a afirmar que se não fosse a sua presença, a estética Simbolista não teria existido no Brasil. Sua obra apresenta diversidade e riqueza.

De um lado, encontram-se aspectos noturnos, herdados do Romantismo como por exemplo o culto da noite, certo satanismo, pessimismo, angústia morte etc. Já de outro, percebe-se uma certa preocupação formal, como o gosto pelo soneto, o uso de vocábulos refinados, a força das imagens.

Em relação a sua obra, pode-se dizer ainda que ela tem um caráter evolutivo, pois trata de temas até certo ponto pessoais como por exemplo o sofrimento do negro e evolui para a angústia do ser humano.

 

 

A moura encantada

Por Arlete Piedade

 

 

Este conto passa-se numa época recuada, nos primórdios da fundação de Portugal, quando os árabes no século VIII D.C. tinham invadido a península ibérica e dominado os seus reinos instalando-se em cidades e difundindo a sua cultura e estilo de vida.

Os habitantes originais mistura étnica de vários povos europeus que nos séculos anteriores se tinham vindo a instalar progressivamente naquelas paragens paradisíacas, refugiaram-se nas montanhas a norte, reorganizando-se e preparando a reconquista dos territórios usurpados.

Progressivamente foram avançando para sul, travando batalhas, cercando cidades e castelos e traçando as novas fronteiras dos reinos cristãos da actualidade.

Entre os reinos mais afamados dominados pelos árabes estava o Al-Garb, região a sul de Portugal, que hoje se chama Algarve, e foi o último a ser conquistado em Portugal, já no século XIV.

Numa das cidades deste reino junto ao mar, acessível por via marítima e dotado de bons portos de mar, vivia um sábio de origem normanda, cujos antepassados, grandes exploradores marítimos se tinham fixado naquela região do litoral na sequência de um naufrágio do seu navio de mercadores.

Sem meios para regressarem á sua pátria e cativados pelo clima e pelas maneiras afáveis dos habitantes que apreciavam as suas mercadorias resgatadas das ondas, tinham-se habituado a viver na cidade árabe.

O filho do comandante, única vítima mortal do acidente, que era uma criança na altura do naufrágio, tinha sido adoptado pelo sultão e crescido no castelo, aprendendo as várias disciplinas do saber com os sábios que frequentavam a corte.

Era um jovem alto e bonito, de cabelos louros e olhos claros, que todas as meninas mouras, morenas e tímidas espreitavam ás escondidas, por trás dos véus que lhe cobriam os rostos escuros.

Embora fosse protegido do sultão, como estrangeiro era impensável apaixonar-se por uma princesinha árabe e ele sabia disso e nem tinha vontade de namoros, pois só a ânsia de aprender e viajar, dominava os seus pensamentos. Mas quando o exército conjunto de portugueses e cruzados atacou a cidade de surpresa, Henrique viu-se forçado a pegar em armas para defender a vida, juntando-se aos defensores da cidade que combatiam nas muralhas, contra os inimigos cristãos.

Sendo Henrique também cristão, religião há muito adoptada pelos seus antepassados que embora com origens vikings, tinham adoptado os costumes e cultura da Normandia, região a norte de França de onde o seu pai era natural, sentia o seu coração dividido entre permanecer leal ao velho sultão que o acolhera, ou juntar-se ao exército que cercava a cidade.

Para sair dali vivo e poder regressar ao seu país, dizia-lhe a razão que o melhor seria juntar-se ao exército invasor, mas embora ele não quisesse confessar nem a si próprio, naqueles momentos de lutas, havia uns olhos negros gravados na sua mente e no seu coração. Eram os olhos feiticeiros e meigos da Princesa Fátima, a filha mais velha do sultão, aquela que os cavaleiros cristãos mais cobiçavam e cuja fama pela sua beleza e meiguice, tinha chegado longe, para lá da fronteira do reino do Al-Garb.

O cerco no entanto prolongava-se pelo verão quente e embora os mouros estivessem mais habituados ao clima e se acolhessem na parte central da cidade, a almedina, sempre que os cristãos atacavam, deixando a guarda da muralha aos seus guerreiros, os cristãos e em especial os cruzados originários do norte, sufocavam com o calor tórrido e já pensavam em abandonar o cerco.

Mas Henrique tinha um plano. Uma noite saiu discretamente por uma vigia da muralha que tinha derrocado naquele local, e dirigiu-se ao acampamento dos invasores, pedindo para falar com o rei D. Sancho I. Apresentando-se como um príncipe normando aprisionado, facilmente cativou a confiança e simpatia do rei que o escutou com atenção.

Henrique propôs abrir as portas aos invasores em troca de poder trazer consigo a princesa Fátima e ela ser-lhe dada como esposa, e serem acolhidos como cristãos e serem-lhe facultados os meios para regressar á Normandia, na companhia dos cruzados que regressavam aos seus países vindos de Jerusalém.

D. Sancho concordou mas propôs ao príncipe Henrique ele ficar como seu conselheiro para a reconquista do Al-Garb, dando-lhe protecção e guarida e a sua esposa. Não se sabe exactamente como as coisas se passaram depois, pois Henrique regressou á cidade e cumpriu a sua parte do acordo, abrindo as portas ao exército invasor, que penetrou na cidade, saqueando e destruindo, apanhando os mouros de surpresa na madrugada.

Mas do príncipe normando nunca mais se ouviu falar. Diz-se que arrependido e cheio de remorsos ao ver mortos os seus companheiros de estudos, se suicidou, sem ter coragem de propor a Fátima que fugisse com ele. Outra versão diz que os dois apaixonados se suicidaram em conjunto, pois a princesa não lhe perdoou a traição de ter entregue o seu povo e o seu velho pai.

Mas seja como for, pelas madrugadas enluaradas, no mês de Agosto, costuma-se avistar nas muralhas do velho castelo, a silhueta de uma linda jovem, enquanto se escutam longos lamentos ao longe, dos mouros mortos na batalha.

 

Noite de verão

Numa linda noite de verão,
cortas-me a respiração,
brota-me a inspiração,
sobe da areia,
enquanto brilha dengosa
a lua cheia.
sensações doces e salgadas,
sonhos gostosos
que levaram séculos para chegar aqui.
Como estrelas cadentes descem velozes
até o horizonte, ora verde, ora azulado
que cingem as nuvens em quadros surreais.
Ah, este cheiro de maresia,
a vida a pulsar e a nascer, há milhões de anos.
E este cheiro gostoso de mar,
Mar potente, enorme, mar poderoso e premente.
Mar que sobe límpido,
cheio de vidas coloridas,
o sal que te tempera,
luzes que em tua superfície se refletem em desalinho.
A vida lateja e pulsa.
A vida cambiante e calma.
Engoles tudo, mar violento e voraz.
A estrela, a baleia, mil vidas coloridas,
E eu, aqui, tentando te decifrar!

(Arlete Deretti Fernandes -2009)