Pagª 24 - EDIÇAO NºXXXV , IVº NUMERO  DE AGOSTO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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O mito do Quinto Império

Por Daniel Teixeira 

 

O Quinto Império, da forma que ele é entendido como irrompendo na história, é profundamente reaccionário, elitista, hegemonista e sob a capa de uma unificação tende á uniformização das sociedades. Ou seja, de um mito bíblico que tem atravessado um pouco todas as idades com diversas interpretações, retira-se não o seu valor simbólico como mito religioso, a contar com a intervenção de Deus ele mesmo e transforma-se tudo isso num acontecimento a ter lugar por previsão humana, da forma que se entende e quando se entende que deve ter lugar.

Ou seja, terá lugar esse acontecimento um dia destes cuja data o profeta não conhece mas que permanentemente vai sugerindo acontecer porque todos os traços lhe apontam nesse caminho nunca se sabendo quando está e se algum dia exacto estará preenchida a folha da vida. Só quando acontecer...se sabe!

Por outras palavras transforma-se aquilo que faz parte da crença em Deus numa crença em homens ou num homem. Em Portugal esteve o Quinto Império presente no Sebastianismo, que, e como se sabe, tem ele também percorrido os últimos tempos da nossa história com toda a sua carga de «esperança» interpretada na vontade colectiva de uma forma passiva e cuja última «demonstração» durou meio século.

Pois o Sebastianismo é uma espécie de messianismo. (...) O tipo de messianismo a que pertence o sebastianismo português é próprio de uma sociedade ainda não secularizada, digamos (embora o termo se preste a mal - entendidos) uma sociedade «sacral». Não quer dizer que seja uma sociedade eminentemente religiosa, ou que este «sacral» advenha do cristianismo. Trata-se neste caso de uma sociedade psicologicamente crente, uma sociedade que acredita (dá crédito) a uma possível eventualidade…o tal de Quinto Império neste caso.

A sociedade portuguesa, e muitas outras que não a portuguesa, têm ainda uma necessidade forte de misticismo, de esperança personificada ou não, uma forte necessidade de deixar uma larga margem das suas vivências à obra do acaso e da incerteza ou da semi-certeza.

O conhecimento de tudo e de todas as coisas que aconteceram e vão acontecer, o conhecimento absoluto de que falavam Laplace e Kant não é decididamente para nós uma hipótese aceitável ou minimamente desejável. Por outro lado o crescendo das seitas religiosas, dos milagres em directo pela Televisão, dos astrólogos, bruxos e outros que tal que enchem páginas de anúncios demonstram até que ponto esta necessidade de misticismo ultrapassa a capacidade de resposta da Igreja ou das Igrejas há séculos instituídas e com credibilidade adquirida.

Pode até dizer-se sem grande receio de errar que mesmo que hipoteticamente todas as respostas fossem dadas elas seriam sempre insuficientes.

Na verdade o misticismo como consequência aparece mais fortemente implantado em épocas de crise, nomeadamente em épocas de crise de identidade, de desnorte colectivo, de desconfiança perante o futuro. mas a estrutura que à volta dele se cria torna-o elemento interiorizado com valor (ou «vida») própria.

Nela, na sociedade sacral ou na sociedade que sente a necessidade de sagrado, seja ela portuguesa ou outra, todas as áreas da vida individual e colectiva parecem directa e constantemente permeáveis à actuação do mundo sobrenatural, quando as respostas usuais e institucionais correntes não convencem ou não acompanham o ritmo das necessidades em obter respostas convenientes ( ou mesmo que hipoteticamente as dessem como vimos trás).

Tal messianismo é inconcebível sem uma fé religiosa, professada pela grande maioria da sociedade.(...) diz van den Besselaar. De facto o seu cimento é uma fé (um believe) e a mais implantada é aquela que mais matéria fornece.  O povo oprimido - porque tem de haver um povo ou uma classe social que se considerem oprimidos de qualquer forma para haver messianismo - pode ser uma nação inteira, ou uma determinada classe social: existe não só um messianismo nacional, como também um messianismo social.

Aquele foi, quase sem excepção, o caso do sebastianismo português (o messianismo da nação inteira ou quase inteira), ao passo que este (o messianismo das classes sociais) marcou os movimentos messiânicos que no Sec. XIX ocorreram no Brasil. Movimentos messiânicos esses que transformaram o «positivismo» de August Comte numa religião e movimentos messiânicos esses que alimentaram por via directa e indirecta a actual chamada Teologia da Libertação existente na América do Sul sem que a Teologia disso tenha alguma culpa no cartório das realidades.

E, finalmente, acrescenta o mesmo autor, o messianismo é um fenómeno tanto apropriado a fomentar a inércia e a inactividade dos indivíduos, como a estimular-lhes iniciativas particulares e actos de heroísmo. A esperada intervenção do Céu (ou do ente esperado ou da coisa esperada) pode paralisar-lhes a actividade, mas pode também incentivá-los a preparar o solo terrestre para a irrupção de Deus (ou do ente esperado ou da coisa esperada) na história. (...).

E a esperança na irrupção de Deus na história é teorizada desta forma por Espinosa na sua Ética:

«A esperança, enquanto alegria instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida, é, afirma Espinosa, indissociável do medo, que é uma tristeza instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida. Aquele que está suspenso pela esperança não possui ainda a certeza, porque imagina sempre que alguma coisa pode ainda vir a opor-se á existência daquilo que se espera vir a acontecer no futuro.

Porque está suspenso, a sua alegria não tem uma base firme e, consequentemente, viverá sempre com medo de que não aconteça o que espera. Viver no medo é não saber que coisas funestas lhe advirão duma coisa que lhe repugna. Mas quem se encontra possuído pelo medo também imagina que alguma coisa poderá vir a acontecer que contrarie tais coisas funestas. O que nos leva a concluir que entre a esperança e o medo não existe verdadeira diferença.» (Neste caso acrescentamos nós, esclarecendo).

Por outras palavras – digo – esperar é viver um estado de angústia e angustiar-se é deprimir-se.

Para fundamentação do Quinto Império os tratadistas alegam frequentemente alguns textos dos profetas Isaías e Ezequiel, que se referem à paz e harmonia universal do reino messiânico, tema por eles, geralmente, combinado com a restauração de Israel. Mais importantes, porém, são os textos apocalípticos da Bíblia.

O género apocalíptico, que floresceu entre 200 A.C. e 200 D.C., descreve em sonhos ou visões o combate decisivo entre Israel e os seus inimigos nos tempos derradeiros, e o triunfo final do povo de Deus. A descrição faz-se por meio de figuras simbólicas (Leão, �guia, Dragão, etc.) cujo significado vem a ser explicado, ou pelo próprio profeta, ou por um Anjo, ou por Deus. Entre esses sonhos cumpre salientarmos os do profeta Daniel (cap.2 e 7), referentes aos quatro grandes Impérios que no Próximo Oriente se sucederam e que a exegese tradicional identificava, respectivamente, com o dos Assírios (I), o dos Persas e Medos (II), o dos Gregos (Alexandre Magno) (III) e o dos Romanos (IV).

O primeiro sonho representava os quatro impérios sucessivos na figura de uma estátua enorme, cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, sendo de ferro também uma parte dos pés, mas de barro outra parte. Desprendendo-se, de repente, duma montanha uma pedra feriu e despedaçou a estátua, crescendo até se transformar numa grande montanha, que acabou por encher a terra inteira. (Vidé á frente transcrição da Bíblia, D.T.)

Esta pedra que se transformou numa grande montanha e encheu a terra inteira deu, em Portugal, origem ao «Quinto Império» e á Fifth Monarchy entre os metodistas da Inglaterra.

Eis o comentário de António Vieira: «Aquela pedra (...) que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza dos seus metais, significa um novo e Quinto Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de conquistado ou destruído, como sucedeu (...) aos demais.»

O mesmo Padre António Vieira, na sua «História do futuro» fala do Quinto Império dizendo que este seria o Reino consumado de Cristo na Terra, um reino universal, com todas as raças e todas as culturas, um reino cristão e católico que havia de rematar a conversão dos hereges, maometanos, pagãos e judeus. (...) Um reino regido por Cristo mas não directamente: o governo espiritual seria exercido pelo Papa em Roma e o governo temporal por um rei português.

Convenhamos que, embora não achemos um «rei» português, ou um Presidente da República Portuguesa, menos capaz que qualquer outro rei para governar o mundo, me parece, apesar disso, uma grande peneirisse, e talvez uma notável falta de sentido das realidades andar por aí a proclamá-lo como verdade absoluta a esperar, com...esperança. E é este o famoso Quinto Império.

Mas, e para terminar, eis a base do mito que se fundamenta numa interpretação da Bíblia e que já foi objecto de centenas de interpretações neste campo. Bíblia – Daniel:

2.31: «Tu, ó Rei (Nabucodonosor), estavas vendo, e eis uma enorme estátua, que era grande e cujo esplendor era extraordinário, erguia-se na tua frente e sua aparência era atemorizante.

Continua na coluna seguinte

 

 

 

32:Quanto á estátua, sua cabeça era de ouro bom, seu peito e seus braços eram de prata, seu ventre e suas coxas eram de cobre,

33:suas pernas eram de ferro, seus pés eram parcialmente de ferro e parcialmente argila modelada.

34: Estavas olhando até que se cortou uma pedra, sem mãos, e ela golpeou a estátua nos seus pés de ferro e de argila modelada e os esmiuçou.

35:Nesta ocasião, o ferro, a argila modelada, o cobre, a prata e o ouro foram juntos esmiuçados e tornaram-se como a pragana da eira do verão, e o vento os levou embora, de modo que não se achou nenhum traço deles. E no que se refere á pedra que golpeou a estátua, tornou-se num grande monte e encheu a terra inteira. (...)

36(...) e nós diremos a sua interpretação (...)

37: (...) tu mesmo (Nabucodonosor) és a cabeça de ouro.

(39) E depois de ti surgirá outro reino inferior a ti; e outro reino, um terceiro, de cobre, que dominará sobre a terra inteira.40:E no que se refere ao quarto reino, mostar-se-á forte como o ferro. Visto que o ferro esmiúça e tritura tudo o mais, assim, qual ferro que quebranta, esmiuçará e quebrantará todos estes.(...)

44: E nos dias daqueles reis o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será arruinado. E o próprio reino não passará a qualquer outro povo. Esmiuçará e porá termo a todos estes reinos, e ele mesmo ficará estabelecido por tempos indefinidos;

45 pois viste que se cortou do monte uma pedra, sem mãos, e que ela esmiuçou o ferro, o cobre, a argila modelada, a prata e o ouro. (...).

É só meter em Daniel (como o fez António Vieira) um Papa que já existia na altura e existe hoje e um Rei português que ainda existe.

 

FOI O BICHO

Conto de Michel C.

Era um grande pássaro, um pássaro enorme, de asas negras e peito acinzentado e ele rodava, rodava , rodava à minha volta como se estivesse preso num mastro pelas pernas, fazendo círculos quase perfeitos e largando pios profundos, que soavam como gritos de criança e pareciam começar nas suas entranhas, como se fossem expirados por um sopro ainda maior que ele, maior que os seus pulmões.

Era um Haiaiaiai! prolongado que durava minutos, muitos minutos, ou era impressão minha, e acabava num som rouco, como se o ar sorvido antes se não tivesse ainda esgotado dentro dele. Era um roncar em cordas agudas, forte, ensurdecedor, como se os ruídos da própria terra e o ar à sua volta nada fossem comparados com ele, com o gritado.

Depois havia o índio que era um índio com uma só pena presa tombada da cabeça por uma fita que parecia de couro, pintada com uma enormidade de cores em pequenos quadrados e um rosto que parecia cavado na pedra, sem expressão, de olhos fechados e cabeça tombada, cantando e rezando num hahãonhahãon, como se estivesse a invocar aquela terra muito vermelho acastanhada, seca, batida pelo sol que passava pelos meus olhos à frente e atrás das asas do enorme pássaro.

Durou tudo muito tempo, não sei bem quanto tempo mas foi muito tempo, tempo demais, demorou até que o animal, que estava preso no seu circulo de voo, parecendo estar preso pelas pernas, começou a alargar os círculos que fazia, como se o elástico do seu arco se fosse esticando e sempre gritando passou rente a mim uma vez e outra vez e por fim lá partiu, também não sei para onde nem em que direcção.

Tinha os meus olhos protegidos com os braços e a partir de certa altura preferi não olhar para o pássaro e cruzava ainda com mais força os dedos, entrelaçando-os junto aos olhos, como se isso para mim fosse a esperança, aquilo que me restava, a melhor arma que o meu medo arranjara: não ver para evitar sofrer.

Eram dois mundos, duas realidades ao mesmo tempo contando como se fossem tempos diferentes e a minha recolhia-se por tempo infindo e abria-se por segundos, apenas pelo tempo suficiente para eu ver o pássaro, a sua sombra e o índio de boca entreaberta e a terra onde eu estava deitado.

E o índio lá continuava sempre, de pernas dobradas junto ao solo, de quando em vez fazendo pequenos movimentos como se procurasse assentar melhor os pés a cada voo e a cada passagem do pássaro mas não saía praticamente do mesmo lugar, estava sempre ali, esteve sempre ali mesmo depois que o pássaro partiu.

Procurava precaver-se do seu regresso, do pássaro enorme, de asas negras e peito acinzentado, pensei eu, tal como se tinha protegido do voo do pássaro enquanto ele durara, cantando e rezando sempre numa lenga lenga hahãhahãon de que não se sabia nem o começo nem o fim.

Havia várias lendas sobre aqueles pássaros, tinham-mas contado na aldeia e todas elas apontavam para a destruição certa de quem fosse cercado pelo «bicho negro», que havia olhos arrancados primeiro, braços decepados e por fim o pouso triunfal do animal sobre o peito da sua vítima arrancando com o seu enorme bico a carne do peito, os intestinos, a carne das pernas, a carne da face, ficando apenas o esqueleto partido e o coração.

Este órgão, segundo as lendas ficava palpitando e se alguém chegasse após a partida do bicho e o arrancasse e o metesse numa ânfora de barro meio cheia de sangue de cabra - tinha de ser de cabra, o sangue - ficava vivo para sempre, o coração, latejando baixinho que só quem olhasse atentamente podia ver, mas lá estaria ele, a mexer, sorvendo o sangue de cabra a expelindo-o num compasso quase imperceptível.

Eu não conhecia o índio, não conhecia nem acreditava no pássaro, nem acreditava na imortalidade do tal coração deixado intacto pelas bicadas do pássaro negro. Era uma lenda, nada mais que isso, não significava nada. Mas tudo isso estava ali, tinha estado ali, ao pé de mim e eu estava lá, naquele lugar. 

E foi então que apareceu uma jovem, para mim as jovens têm mais de 18 e menos de 30, nunca fui muito selectivo nem explícito sobre estas coisas mas era mesmo uma jovem, uma jovem que não constava da lenda que me tinha sido contada e que dificilmente encaixava no voo do pássaro negro com peito acinzentado, nem sequer do velho com face petrificada que rezava ainda.

No fundo acho que ele fazia parte da paisagem, que ele era também uma pedra e que o seu cantar hahãhahãon não era mais que a minha impressão mais o vento da montanha.

A moça agarrou-me na mão esquerda que tal como a direita tapavam ainda os meus olhos receosos, fez um pouco de força para me erguer, sorriu e levantando os braços finos começou a içar-me, primeiro pondo-me de pé e depois elevando-me em voo que eu não entendia como podia ter lugar uma vez que ela não tinha asas e fez-me sobrevoar uma montanha, depois outra e ainda outra e depois, entre duas montanhas, e sobre um vale verdejante que contrastava com o vermelho acastanhado do resto que nos rodeava, deixou-me a mão e eu senti que também podia voar.

Estava aterrorizado embora voasse livremente sobre o vale verdejante, tinha medo que o impulso acabasse, que eu viesse a cair a pique da altura em que encontrava mas nada disso aconteceu e pousei os pés no solo, num espaço livre de arbustos. A jovem ficou lá pelo ar, olhando-me, vigiando o meu pousar - pareceu-me a mim uma vez que já não via os seus olhos mas via a sua face virada para mim - e depois, partindo na mesma direcção que tinha tomado o pássaro negro de peito acinzentado foi-se fazendo cada vez mais pequena até que a perdi de vista.

Belisquei-me, não era sonho, tinha sido assim mesmo, era assim mesmo, tudo tinha sido real, desde o pássaro negro até ao índio dançante de pedra ou não, não sei, e à jovem que voava e eu que voara e ali estava eu no meio do nada, verdejante, é certo, mas sem ter noção do caminho a seguir para regressar a casa.

Consegui divisar uma estrada logo ali no cimo do vale, uma estrada que era estrada para mim porque via nela passarem carros, camiões e até um puto de bicicleta amarela ainda com rodinhas daquelas de sustentação. Que fazia um miúdo ali ? Estávamos próximos de uma povoação, seria certo, mas não tanto...pensei mas não sei se pensei mesmo porque estava zonzo, mesmo zonzo, não percebia o que se passava, o que se tinha passado, não sabia nada e em certo sentido não queria saber. Só queria sair dali, abandonar, aquele lugar, aquele sonho que não era sonho, aquele mundo tão surreal, aquele mundo onde tanta coisa tinha acontecido em tão pouco tempo, para aí umas duas horas, mais ou menos.

Tentei assobiar ao mesmo tempo que colocava o dedo em posição de pedir boleia mas não conseguia assobiar. O carro que parou com alguma chiadeira de pneus, a estrada era longa e direita e convidava à velocidade, estava vazio, completamente vazio e eu, depois de alguma tempo a pensar sentei-me ao volante, estavam lá as chaves tilintando como se alguém tivesse acabado de sair dali e carreguei no pedal, verdadeiramente no pedal, com força, queria sair dali e saí.

Depois o carro desapareceu sob mim e eu vi-me a correr, a correr muito, sentia o vento na face, era um vento fresco, cheirou a terra molhada o tempo todo e cheguei a casa e sentei-me ofegante no sofá.

À minha frente, o meu cão, um rafeiro mesmo rafeiro, recolhido abandonado, via o Canal Disney e rebolando-se na carpete ria a bandeiras despregadas.