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O Barão

Novo filme de Edgar Pêra
O novo filme de Edgar Pêra adapta Branquinho da Fonseca em tom de falso
filme de terror expressionista. História de um «filme extraordinário»
assinado por um cineasta que não consegue deixar de brincar com a forma
mesmo quando conta uma história.
«Há uma frase do Slavoj Zizek em que ele diz que, com o «Eles Vivem!» do
John Carpenter, aprendemos a ver a ditadura na democracia, com aqueles
óculos escuros. «O Barão» é um bocado ver até onde é que vão esses
limites. Só que sem óculos. é um filme 2D.»
Esclarecidos? Não? Nós ajudamos. «O Barão» é um filme 2D de Edgar Pêra;
é a «remake» de um clássico proibido pela ditadura fascista rodado entre
nós pela produtora Valerie Lewton; é uma adaptação da novela de
Branquinho da Fonseca, a preto e branco expressionista, sobre um
inspector das escolas (Marcos Barbosa) que viaja até um ermo recôndito
que vive sob o jugo do Barão (Nuno Melo).
Uma destas afirmações não é verídica. (E não ganham mais por adivinhar a
alegoria salazarista por trás da trama.)
Se continuam confusos, é normal que assim seja; é mesmo obrigatório com
Edgar Pêra, cineasta «desalinhado». «O Barão», apesar de tudo, é o seu
filme mais aberto. E é apenas a sua quarta longa de ficção
«tradicional», a seguir a «A Janela (Maryalva Mix)» (2001), ao telefilme
«Oito Oito» (2002) e a «Rio Turvo» (2007), já baseado em Branquinho de
Fonseca (e até hoje inédito em sala por vicissitudes várias). E é a sua
terceira estreia em sala, depois de «A Janela» e do documentário sobre
Carlos Paredes «Movimentos Perpétuos» (2006).

Edgar Pêra
Culpa, em parte, de um sistema de produção demasiado formatado para a
criatividade endiabrada de um cineasta em «movimento perpétuo», que
filma desde a década de 1980 quase inteiramente fora dos circuitos
tradicionais de produção e em todo o tipo de suportes, formatos e
durações. Perfeccionista obsessivo, está sempre a filmar e um filme seu
nunca está acabado (entre a sua passagem no IndieLisboa em Maio último e
a estreia em salas esta semana, continuou a trabalhar a montagem de «O
Barão» ao ponto de lhe retirar sete minutos).
"E é muito difícil construíres um percurso clássico quando te empurram
sistematicamente para a improvisação,» diz ao Ipsilon. «As pessoas usam
muito a palavra «experimental» para os meus filmes, quando o que faço é
sobretudo investigação. Mas havendo armas para ir para a guerra, acho
que se deve tentar... Aqui, tive-as. No fundo, estava à espera desta
oportunidade há muito tempo para transmitir uma série de coisas que
sempre achei que precisavam de bastante maturidade, de uma certa
sabedoria para serem ditas.»
Desalinhados
Branquinho da Fonseca (1905-1974), um dos fundadores da revista «Presença» e criador das Bibliotecas Itinerantes, tornou-se no «veículo» perfeito para essa maturidade.
«Tal como eu, ele era alguém totalmente desalinhado», segundo Pêra. «Identifico-me com a ideia dele de fazer coisas, de não ficar quieto - ao criar as Bibliotecas Itinerantes ele fez muito por este país, e as pessoas não se dão conta da importância que tem partilhar esse conhecimento numa altura de grande obscurantismo.
Conheço a obra dele desde meados dos anos 1990, quando estava a rodar «A
Janela» com o [director de fotografia] Luís Branquinho [neto do
escritor], mas nunca tinha pensado em adaptá-lo antes do «Rio Turvo».
Quando fiz esse filme, entrei pela obra dele, falei com especialistas,
fiz todo um trabalho de campo. E depois tornou-se difícil resistir a
fazer «O Barão.»
«O Barão» teria sido inicialmente filmado em 1944 por uma realizadora
americana, Valerie Lewton, mas essa primeira adaptação teria sido
destruída pela censura devido à «proximidade» entre o Barão e Salazar.
Assim reza um cartão no início do filme, suportado por uma
curta-metragem paralela, «Um Filme Extraordinário», que recolheria
imagens descobertas no arquivo da PIDE dessa rodagem inicial.
Mentira galhofa: são tudo falsas pistas que revelam que, mesmo dentro de
uma narrativa mais «convencional», nem assim Pêra deixa de subverter as
convenções. Valerie Lewton nunca existiu, é uma homenagem ao lendário
produtor da RKO Val Lewton, responsável por obras clássicas como «A
Pantera» de Jacques Tourneur - ao qual o preto e branco trabalhado de
Luís Branquinho presta homenagem, estilística e não só.
Ao longo de uma ilustre carreira internacional que já viu o filme passar pelos festivais de Roterdão e (na semana passada) Busan, na Coreia do Sul, bem como pelo IndieLisboa e pelo MOTELx, muito se tem falado também dos filmes de terror da Universal dos anos 1930, de autores como Tod Browning ou James Whale.
«Mas não são essas as referências, mal conheço a obra do James Whale.
Quando entrei para a escola de cinema, nos anos 1980, os meus heróis
eram Fritz Lang e Jacques Tourneur - e um pouco também, mas menos,
Howard Hawks», diz Pêra. «Queria fazer filmes mais nesse género, mas
tive de dar uma grande volta para lá chegar...»
Rodado em apenas 25 dias inteiramente em estúdio, o filme representou
também para Pêra uma tentativa de rodar como esses cineastas o faziam.
«Tenho vinte e poucos dias para fazer um filme, o que é que posso fazer
com estes cenários e esta história que me veio parar às mãos? A pessoa
tenta adequar-se e inventar uma forma de resolver certas equações.
Comecei por pensar fazer o filme todo em super-8, com cores saturadas,
entre as produções da Hammer dos anos 1960 e os filmes do Paul Morrissey.
Mas não foi possível e acabei por ir dar ao super-16.»
No meio de tudo isto, uma coisa é certa: «O Barão» é o abrir de um novo
ciclo para Pêra. «Para mim, A Janela foi um resumo daquilo que fiz no
século XX, e O Barão é uma síntese daquilo que aprendi no século XXI. O
que é paradoxal, porque A Janela era um filme mais modernista, mais
futurista, e este é um filme de um certo expressionismo abstracto, mais
próximo do cinema clássico.
Mas, a partir do meu documentário sobre António Pedro [«O Homem -
Teatro», 2001], tenho-me aproximado cada vez mais das emoções. E o
Branquinho da Fonseca é também uma plataforma para essas emoções
desbragadas...»
Jorge Mourinha, Público