Pagª 7 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Poemas de Patrícia Neme

FUGA

O que existe em você, que me agita, incomoda...
E desperta em meu ser emoções escondidas?
Em meu corpo, minh'alma não mais se acomoda...
E eu vagueio num mar de ilusões proibidas.

Já não sei mais de mim, a cabeça anda em roda...
Tive as minhas defesas, sem dó, invadidas...
E você nem cogita que tanto incomoda,
nem supõe, em meu peito, as candentes batidas.

E eu me escondo, eu me guardo, não sei o que faço
- quanto anseio sentir o seu beijo, um abraço -,
O meu tempo passou... Nada mais a sonhar.

Nada mais... Como pode tal fado, ferino,
me falar de você e marcar-me o destino
de fugir, e fugir, e fugir... Sem parar?


Soneto da Saudade

O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.

Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.

Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!


Estupidez

No circo armado na praça,
grita alucinada massa,
sem algo de humanidade.

Chega o homem prepotente,
embrulhado pra presente,
com olhar de crueldade.

Bandeirolas enfeitadas,
prontas pra serem fincadas
no que, de mal, nada fez.

O portão escancarado,
o touro vê-se empurrado
à sanha da estupidez.

E a turba grita excitada,
quer vida sacrificada,
quer sangue banhando o chão.

E baila, dança o toureiro,
ante o indefeso cordeiro,
num rito fútil, pagão.

Até que o corpo ferido,
sem vida, jaz consumido...
Pela civilização!

 

 

 

Poesia de Mário Matta e Silva

AS ARVORES E O CARACOL

Como vai a vida?
A vida não vai. Ela cresce aqui, nos ramos, nas folhas, nos frutos…
Contada por segundos, minutos, horas, anos
Ora molhados, ora enxutos;
Pelo número de folhas, de frutos e de flores
No desbotar das cores.
A vida são as nossas copas, conquistadas em enganos e desenganos
De muita passarada
Nelas poisada.
O tempo é feito de sangue, essa seiva que nos percorre desde a raiz
E da harmonia que criamos pelas matas, lúgubre, misteriosa mas feliz…
Nosso coração palpita compassadamente
Não ao ritmo dessa humanidade, agreste, louca, doente.
Nós somos amigas certas, permanentes
Do Universo todo
Respiramos e fazemos respirar a nosso modo
Até que nos matem
Ou não nos tratem
Como deveriam.
Em cada sonho desfeito
Vai-se acolchoando o leito
De folhas esvoaçando desprendidas
Procurando cada semente suas próprias vidas
Seu caminho
Depois de se fartarem do nosso carinho
E vão até ao fim do mundo
Em trabalho fecundo!

Enquanto as árvores entre si assim filosofavam
Os riachos, bons ouvintes, se calavam
Os sinos ao longe não repicavam
Os homens não as perturbavam

Então esfuma-se o dia
A noite cai em sua melancolia
Húmida e fria
E as árvores emudecidas
Recolhem-se em orvalhadas embevecidas
Sem o fascínio do sol…
A lua por sua vez, bate no caminho
E nele, devagarinho, muito devagarinho
Coçando a cabeça, sem se agitar
Depreende em todo este filosofar
Um paciente e incrédulo caracol.