Pagª 13 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO  DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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A CIDADE E AS SERRAS de Eça de Queirós

Por Arlete Deretti Fernandes

 

É sempre enriquecedor conhecer a Obra de um dos maiores escritores portugueses, Eça de Queirós.

Seu romance «A Cidade e as Serras» traça um paralelo entre a civilização em que o escritor sempre vivera e a pureza rústica dos costumes que principiara a apreciar com as suas estadas na quinta do Douro, propriedade da família, depois da morte da sogra, a Condessa de Resende. Este livro, por seu idealismo pode fazer lembrar A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Diniz. O crítico Alberto de Oliveira é que sugere o paralelo.

Este último romance de Eça impõem-se pelas belas descrições e as serenas evocações da serra portuguesa em contraste com os requintes de uma civilização que fizera de Jacinto o herói de «A Cidades e as Serras», «a primeira mentalidade nacionalista do romance português», segundo João Gaspar Simões.

Eça pode ter castigado sua pátria, nas críticas que a ela fizera, mas exaltou-a após, esquecido de que o seu atraso só era benéfico para quem o podia usufruir no meio da riqueza, e para desfastio de um cansaço de civilização.

O romance «A Cidade e as Serras» foi publicado em 1901, um ano após a morte do seu criador, Eça de Queiroz, o mais importante escritor realista português (1845 - 1900). Trata-se de uma obra semi-póstuma, onde 65 por cento do escrito chegou a passar pelo crivo do romancista. Com a sua morte, Ramalho Ortigão revisou e não alterou o enredo, que tinha sido originado no conto «Civilização».

A obra foi lida sempre sob as mais diversas óticas, causando muitas polêmicas. No tempo em que escreveu este romance, o escritor já tinha se distanciado do espírito realista -distanciamento já anunciado uns anos antes na carta -prefácio de «O Mandarim», datada de 02/08/1884. Na mesma época também estão incluídas outras obras póstumas como «A Correspondência de Fradique Mendes»; «A Ilustre Casa de Ramires»; «As vidas de Santos» contidas nas últimas páginas; «A Capital»; «O Conde d'Abranhos» e «Alves & Cia.»

Em 1870, Eça ainda bem jovem, colaborou com Ramalho Ortigão no romance policial «O Mistério da Estrada de Sintra» e também, mais tarde, em «As Farpas», uma verdadeira sátira à vida social. Na etapa realista iniciou com o conto «Singularidades de uma Rapariga Loura». Em 1874 publicou «O Crime do Padre Amaro», seu primeiro grande trabalho. Prossegue com a crítica social unida à analise psicológica em «O Primo Basílio»; «O Mandarim», «A Relíquia» e «Os Maias». E de Eça a tradução do inglês do romance de Rider Haggard «As Minas do Rei Salomão».

Referindo-se à obra «A Cidade e as Serras», a crítica de Salazar (a ditadura de Antônio de Oliveira Salazar em Portugal foi de 1929 até 1969 - morto por acidente vascular cerebral - o sucessor Marcello Caetano continuou a ditadura até 1974), nacionalista do Estado Novo, quando do centenário do nascimento do escritor, em 1945, quis à força demonstrar que no final da vida Eça estava convertido aos ideais da ruralidade, como essência do ser português.

 


Na verdade, há nessa obra uma concepção bastante complexa e que não deixa de ser também problematizadora dos encontros e desencontros da humanidade na busca do conhecimento de si.

Não é por acaso que o o romance «A Cidades e as Serras» é repleto de citações de pensadores gregos e poetas latinos, de referências a Balzac, Musset, Schopenhauer e até mesmo ao Eclesiastes.

Também não é por acaso que o narrador (Zé Fernandes) descrevendo a biblioteca de Jacinto fala que havia «...oito metros de economia política». Esta é uma proposição bem própria da burguesia que comprava livros em metros para decoração de ambientes.

O romance «A Cidade e as Serras» na altura em que é escrito, revela uma aguda visão de fim de século e de modelos civilizacionais.

Alexandre Pinheiro Torres, crítico português, dá a entender que Eça estava preocupado em mostrar que Jacinto e Zé Fernandes «são simultaneamente falsos intérpretes das soluções que salvariam os espaços urbano e rural dos problemas que Zé Fernandes se faz o principal diagnosticador.»

A ensaísta e professora da Universidade Aberta, vencedora do prêmio Ensaio Ernesto Guerra, instituído pela Comissão Nacional para as comemorações do Centenário da morte de Eça de Queiroz, com o trabalho «Ironia e Socratismo em «A Cidade e as Serras», perante uma obra que ultrapassa o equacionar estrito da velha oposição cidade/campo e que, «sob o aparente esquematismo da associação-civilização versus natureza-felicidade, oculta um texto problemático, recheado de símbolos, que, usando a ironia de forma multifacetada, requer decifração, que está intimamente relacionado com o prazer inebriante que a sua escrita proporciona, intenso sentido de humor, constante ironias, umas vezes sutilíssimas, pintando atmosferas, outras, de conteúdos explícitos que a cada passo percorrem o livro».

Eça de Queiroz é o único romancista portugues que conquistou, no século XIX, fama internacional, conservada até nossos dias, apesar de muito combatido por suas críticas à própria pátria e ao clero.

(Leia este texto completo e ordenado em...Documento word para download)

 

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