Pagª 13 - EDIÇAO NºXXXVIII
, II NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
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A CIDADE E AS SERRAS de Eça de Queirós
Por
Arlete Deretti Fernandes
É sempre enriquecedor conhecer a Obra de um dos maiores escritores portugueses,
Eça de Queirós.
Seu romance «A Cidade e as Serras» traça um paralelo entre a civilização em que
o escritor sempre vivera e a pureza rústica dos costumes que principiara a
apreciar com as suas estadas na quinta do Douro, propriedade da família, depois
da morte da sogra, a Condessa de Resende. Este livro, por seu idealismo pode
fazer lembrar A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Diniz. O crítico Alberto de
Oliveira é que sugere o paralelo.
Este último romance de Eça impõem-se pelas belas descrições e as serenas
evocações da serra portuguesa em contraste com os requintes de uma civilização
que fizera de Jacinto o herói de «A Cidades e as Serras», «a primeira
mentalidade nacionalista do romance português», segundo João Gaspar Simões.
Eça pode ter castigado sua pátria, nas críticas que a ela fizera, mas exaltou-a
após, esquecido de que o seu atraso só era benéfico para quem o podia usufruir
no meio da riqueza, e para desfastio de um cansaço de civilização.
O romance «A Cidade e as Serras» foi publicado em 1901, um ano após a morte do
seu criador, Eça de Queiroz, o mais importante escritor realista português (1845
- 1900). Trata-se de uma obra semi-póstuma, onde 65 por cento do escrito chegou
a passar pelo crivo do romancista. Com a sua morte, Ramalho Ortigão revisou e
não alterou o enredo, que tinha sido originado no conto «Civilização».
A obra foi lida sempre sob as mais diversas óticas, causando muitas polêmicas.
No tempo em que escreveu este romance, o escritor já tinha se distanciado do
espírito realista -distanciamento já anunciado uns anos antes na carta -prefácio
de «O Mandarim», datada de 02/08/1884. Na mesma época também estão incluídas
outras obras póstumas como «A Correspondência de Fradique Mendes»; «A Ilustre
Casa de Ramires»; «As vidas de Santos» contidas nas últimas páginas; «A
Capital»; «O Conde d'Abranhos» e «Alves & Cia.»
Em 1870, Eça ainda bem jovem, colaborou com Ramalho Ortigão no romance policial
«O Mistério da Estrada de Sintra» e também, mais tarde, em «As Farpas», uma
verdadeira sátira à vida social. Na etapa realista iniciou com o conto
«Singularidades de uma Rapariga Loura». Em 1874 publicou «O Crime do Padre
Amaro», seu primeiro grande trabalho. Prossegue com a crítica social unida à
analise psicológica em «O Primo Basílio»; «O Mandarim», «A Relíquia» e «Os
Maias». E de Eça a tradução do inglês do romance de Rider Haggard «As Minas do
Rei Salomão».
Referindo-se à obra «A Cidade e as Serras», a crítica de Salazar (a ditadura de
Antônio de Oliveira Salazar em Portugal foi de 1929 até 1969 - morto por
acidente vascular cerebral - o sucessor Marcello Caetano continuou a ditadura
até 1974), nacionalista do Estado Novo, quando do centenário do nascimento do
escritor, em 1945, quis à força demonstrar que no final da vida Eça estava
convertido aos ideais da ruralidade, como essência do ser português.

Na verdade, há nessa obra uma concepção bastante complexa e que não deixa de ser também problematizadora dos encontros e desencontros da humanidade na busca do conhecimento de si.
Não é por acaso que o o romance «A Cidades e as Serras» é repleto de citações de
pensadores gregos e poetas latinos, de referências a Balzac, Musset,
Schopenhauer e até mesmo ao Eclesiastes.
Também não é por acaso que o narrador (Zé Fernandes) descrevendo a biblioteca de
Jacinto fala que havia «...oito metros de economia política». Esta é uma
proposição bem própria da burguesia que comprava livros em metros para decoração
de ambientes.
O romance «A Cidade e as Serras» na altura em que é escrito, revela uma aguda
visão de fim de século e de modelos civilizacionais.
Alexandre Pinheiro Torres, crítico português, dá a entender que Eça estava
preocupado em mostrar que Jacinto e Zé Fernandes «são simultaneamente falsos
intérpretes das soluções que salvariam os espaços urbano e rural dos problemas
que Zé Fernandes se faz o principal diagnosticador.»
A ensaísta e professora da Universidade Aberta, vencedora do prêmio Ensaio
Ernesto Guerra, instituído pela Comissão Nacional para as comemorações do
Centenário da morte de Eça de Queiroz, com o trabalho «Ironia e Socratismo em «A
Cidade e as Serras», perante uma obra que ultrapassa o equacionar estrito da
velha oposição cidade/campo e que, «sob o aparente esquematismo da
associação-civilização versus natureza-felicidade, oculta um texto problemático,
recheado de símbolos, que, usando a ironia de forma multifacetada, requer
decifração, que está intimamente relacionado com o prazer inebriante que a sua
escrita proporciona, intenso sentido de humor, constante ironias, umas vezes
sutilíssimas, pintando atmosferas, outras, de conteúdos explícitos que a cada
passo percorrem o livro».
Eça de Queiroz é o único romancista portugues que conquistou, no século XIX,
fama internacional, conservada até nossos dias, apesar de muito combatido por
suas críticas à própria pátria e ao clero.
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