Pagª 32 - EDIÇAO NºXXXVIII
, II NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes
Baleia Franca
Segundo conta a História, em 1814 Antônio Martins Lage aportou em Imbituba,
instalando uma das primeiras armações baleeiras. Eram estes os nomes dados
para o sistema de caça às baleias, para industrialização do óleo e de outros
produtos e para a iluminação.
Com as barbatanas eram feitos pentes, estiletes para espartilhos, cintas
para deixarem as mulheres acinturadas, botões, réguas e outros utensílios.
Estas baleias são oriundas do pólo sul, vindas para as costas brasileiras
onde as águas são mais quentes, para acasalar e parir suas crias.
A cada ano repete-se esta cena natural. Conhecida como baleia franca a espécie recebeu esse nome por ser a mais fácil de matar, dada sua docilidade e hábitos costeiros na época de reprodução.
Durante muitos anos as baleias francas foram sendo caçadas, quase chegando à
extinção. Graças às campanhas ambientais e a proteção de leis, foi proibida
a caça às baleias.
Lembro-me bem, quando criança e também na minha juventude, presenciei
algumas baleias abatidas nas praias que banhavam Imbituba e Garopaba.
Recordo-me dos arpoeiros, homens de coragem, que quando iam arpoar os
enormes cetáceos, muitos chegavam a encostar a baleeira junto à baleia, para
com as mãos fazerem penetrar o arpão próximo à cabeça, acendendo o estopim e
afastando-se para que a carga de dinamite explodisse e com isto o enorme
mamífero fosse sacrificado.
Aí o animal era levado para a praia, era puxado com um guincho até fora da
água. Alí faziam o desmonte, iam derretendo os blocos de gordura para
fabricar o óleo que era exportado para indústria de fora do Estado.
Muitos anos se passaram até que chegaram as leis para a defesa das espécies.
Foi aí que os cardumes aumentaram. O trajeto percorrido pelas mesmas ainda é
o anterior.
Há alguns anos, em Imbituba foi formada uma ONG para estudo, observação e
controle.
Nas épocas de visitas e passeios destas espécies, turistas de várias cidades
e estados se deslocam para Imbituba, onde é maior a concentração de baleias
entre meados de agosto a meados de outubro.
Tive uma grande satisfação, no dia 09-09-99, quando morava na frente da
Praia da Vila, em Imbituba, da sacada do terceiro andar, entre as Ilhas
Santana de Dentro e Santana de Fora, observei o movimento de seis baleias
com três filhotes. Pareceu-me um ritual de Festa de nascimento.
Devido à quantidade, neste dia, onde nunca se havia visto tamanha reunião de
baleias, entre as duas ilhas, começaram a vir pessoas, adultos e crianças
para apreciar o espetáculo.
Pelo dia lindo que fazia, parecia uma homenagem da Natureza para com aqueles
seres que estiveram tão próximos da extinção.
Observei e senti-me inspirado, passando para o papel em 15 minutos uma
poesia, que até hoje não consegui alguém para colocar-lhe a música, pois não
nasci com este privilégio de musiscista.
Talvez até um fado. Se algum leitor do RaizOnline quiser homenagear esta
bela espécie de cetáceo, dando uma melodia em qualquer ritmo que se amolde a
esta poesia, tem total e ampla autoridade para fazê-lo. Se, por acaso vier a
dar alguma conversão financeira, será revertida totalmente para alguma
associação de deficientes visuais.
BALEIA FRANCA NA PRAIA DA VILA
Oh baleia, baleia franca,
Na praia da Vila.
O turista faz fila pra te admirar.
Franca és baleia, que após seres vista,
Fazes as pessoas sentarem na areia,
Franca és baleia!
Da areia da praia, olhando para o mar,
O turista admira
A baleia a bailar.
Voando e plainando, gaivotas e calixtos,
Do ar mergulhando para a água bicar.
O peixe a pular, o peixe a pular.
E a baleia? ... Continua a bailar.
Crianças constroem castelos na areia,
As ondas crescendo, aparece a baleia.
Baleia Franca, como tu me encantas,
No teu bailado pareces sereia!
O turista faz fila e mudo se planta.
Baleia franca, baleia feliz, feliz és baleia,
Porque te vejo pertinho da areia.
Baleia que encantas, serás sempre vista,
Baleia Franca, Baleia Franca,
Como tu me encantas!
(Continuação) Trasladação de Jorge de Sena foi «quase clandestina»: afirmou Manuel Alegre (Ver Início)
A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte
colectâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um
acto, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta
volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre
Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante
diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos
sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura
inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das
culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes
plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da
Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de
poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do
século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e
Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções
de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro
(com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov).
A criação poética de Jorge de Sena foi desde cedo acompanhada por uma
intensa actividade intelectual e cultural, como conferencista, como crítico
de teatro e de literatura, em diversos jornais e revistas, como comentador
de cinema, nas «Terças - feiras Clássicas» do Jardim Universitário de
Belas-Artes, no cinema Tivoli, como director de publicações, com destaque
para os Cadernos de Poesia, como coordenador editorial, na revista Mundo
Literário, como consultor literário, na Edição «Livros do Brasil» Lisboa ou
na Editora Agir (Rio de Janeiro), tendo sido ainda co-fundador de um grupo
de teatro, «Os Companheiros do Páteo das Comédias», em 1948, e colaborador,
nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance
Policial (Rádio Clube Português, Lisboa), adaptando contos de Chesterton,
Hammett, Maupassant, Poe e outros.
A intervenção do intelectual nos domínios da cultura ganha novos horizontes
com a actividade de docente e investigador universitário no Brasil, onde
reforça também a sua acção cívica como opositor ao Estado Novo.
É co-fundador da Unidade Democrática Portuguesa, de cuja direcção se demite em 1961, e integra o conselho de redacção do jornal Portugal Democrático, até 1962, participando ainda em actividades do Centro Republicano Português, de São Paulo.
Uma vez nos Estados Unidos, a actividade cultural de Jorge de Sena fica
restringida aos círculos académicos e da emigração (no período californiano,
desempenha um importante papel no esclarecimento das comunidades portuguesas
sobre o 25 de Abril de 1974), apenas compensada por uma enorme e rica
correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e
brasileiros, e pelas suas viagens de trabalho à Europa e, em 1972, a
Moçambique e Angola, falando de Camões, no IV Centenário de Os Lusíadas.
Com toda esta vasta experiência, longamente marcada pelo exílio, que Jorge
de Sena vai construindo a sua obra. Daí que ele sempre tenha entendido a sua
poesia (o seu teatro, a sua ficção) como uma forma de dar testemunho de si
mesmo e das suas circunstâncias, sem com isso menosprezar, antes pelo
contrário, o trabalho de organização estética das emoções e dos sentimentos,
ancorados na observação, na meditação e na rememoração de uma experiência de
mundo concreta, no plano individual e colectivo.
E dessa experiência fazem parte as visões de mundo que as obras de arte (literária, visual, musical) vão cristalizando, codificando, no decurso da história humana, entendida esta como uma peregrinação secular.
O que, por sua vez, faz dessas obras de arte (dessas metamorfoses) objecto de uma experiência poeticamente meditada. Assim, a poesia (a obra) de Jorge de Sena, em que a ética e a estética se confundem, e em que o lirismo se mescla com um forte pendor especulativo e narrativo, deve ser lida, nas suas palavras, como uma «meditação sobre o destino humano e sobre o próprio facto de criar linguagem».