Pagª 24 - EDIÇAO NºXXXVIII , II NUMERO DE SETEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
(Continuação) Crise na educação e a identidade da Escola - umas impressões... Por: Se Gyn (Ver início)
O que é Escola? Escola, hoje é uma instituição, mais do que prédio,
professor e livro. É mais do que um simples máquina de ensino pré-fabricado
destinado, para um contingente de população. É uma prioridade de toda
sociedade que se julga civilizada. É um meio insubstituível de oferecer ao
indivíduo, as ferramentas mínimas para a sobrevivência no meio social - a
alfabetização, a informação basilar, os valores sociais relevantes, a
consciência individual, social e, nacional é, o lugar onde acontece um
processo insubstituível de socialização e, sim, civilização...
A questão não tem nada há ver com oferta de estrutura, nem de material. Em
geral, este problema está superado. O problema está nas teses subjacentes ao
ensino ofertado, no preconceito e desrespeito da clientela escolar - que é
vista como uma espécie de população dependente e, não como a clientela a
quem é endereçado o sistema de ensino, custeado pelos impostos do
contribuinte.
Tudo isso se traduz no método de ensino escolhido, na responsabilidade do
diretor na condução da atividade do ensino regular, na presença diuturna do
professor em sala de aula, na escolha do material didático adequado e, por
aí, vai... Sem isso, vc tem prédio, escola, profissionais reunidos, mas não,
ensino.
Sobre essa questão de gratuidade do ensino público mantido pelo Estado,
creio que é preciso dizer em alto e bom som: ele nunca foi, não é, nem será
gratuito. Ele tão somente é ofertado gratuitamente ao público alvo, mas é
custeado, dia após dia com recursos de impostos arrecadados. Assim, cada
resma de papel, cada lâmpada acesa, cada hora do professor em sala de aula
(e, não raro, em paralisação), é custeada, na verdade, pelo contribuinte.
Não é dádiva, nem presente - é obrigação constitucional.
Escola não pode ser transformada numa espécie de creche para crianças e
adolescentes. A responsabilidade da família é, outra coisa.
Não pode também, ser desviada da sua função principal, a título de
utilização para fins supostamente nobres ligadas à tal da inclusão social.
Se ela cumprir o papel para o qual foi destinada, então, fatalmente uma
revolução social se processará, pois teremos gerações e gerações de pessoas
mais preparadas para a vida em todos os sentidos, que vai desaguar no mundo
da profissão, do empreendedorismo, da multiplicação de conhecimento,
oportunidades e de acesso à renda e à riqueza.
A tal da escola aberta, na prática, tem muito de liberalismo irresponsável,
pois, não raro, sacrifica horas de ensino em favor das chamadas «atividades
de cunho social». Quantas e quantas vezes, durante as caminhadas, passei por
um colégio estadual próximo à minha casa e, presenciei a realização de
atividades na quadra de esportes e no pátio do colégio em horário de aula,
que acabam tirando dos alunos que estão em classe, a atenção necessária para
o aprendizado - campeonatos de futebol, de salão, ensaios de dança de rua,
por exemplo, onde a gritaria (palavrões no meio) e a utilização de serviço
de som, é uma constante.
Escola não é lugar de experiências e improvisações sem fundamento. A função
da escola é única e, qualquer um pode defini-la sem grande esforço. Mas,
querem complicar... Pode-se enganar a duas ou três gerações, mas o número de
pessoas que vão questionar os números, a qualidade e, principalmente, os
resultados vai aparecer e, depois, crescer, até chegar a um ponto
logicamente insustentável.
A questão é a qualificação de professores - ué, mas eles não estão em pé de
igualdade com os professores das escolas privadas (pelo menos é isso que
dizem seus currículos e, as gratificações que recebem)? O problema é dos
baixos salários pagos à categoria - mas, eles não estão em pé de igualdade
com os salários dos professores da rede privada?
O empecilho é a falta de estrutura adequada - quantas escolas da rede
privada de ensino tem a mesma estrutura da escola pública? Tudo está
vinculado ao projeto neoliberal do atual governo - ah, não, façam-me o favor
de humilhar seus currículos e não insultar nossa inteligência - vamos
esperar que ocorra uma revolução socialista para começar a ensinar direito
as nossas crianças e adolescentes? Nem vem...
Nos regimes democráticos, em geral, o Estado está separado da igreja e, isto
foi fruto de longas perlengas e discussões, noites sangrentas e guerras.
Mas, após as revoluções ditas burguesas, o Estado não era mais a
personificação do Rei ou déspota, que podia impor a sua religião como
religião oficial, mas a personificação do poder do povo, da sociedade
organizada democraticamente - num ambiente assim, a imposição de religião
oficial, não tem lugar. A religião, aí, é um direito individual, assim como
todas as escolhas a ela relacionadas. O individuo pode livremente escolher
sua religião e iniciar os descendentes nela.
Mas, não tem direito nem poder de impô-la a quem quer que seja, nem aos
próprios filhos. Dentro de um enquadramento assim, o ensino religioso é
inadequado, no ensino formal, pois, a Escola é lugar de escolhas e ensino
generalizante, voltado para todos os indivíduos, indistintamente, que se
colocam ali em pé de igualdade. Como se vê, a prática da religião e a
atividade do ensino tem diretrizes diferentes. A educação religiosa, assim,
só pode ser escolha e, encargo da família. E nem vou falar do resultado
tendencioso de que resulta a prática do ensino religioso, para determinadas
religiões, em detrimento de outras...
O que pensam, entretanto, as crianças e adolescentes que vêem sua escola
sendo invadida, dia após dia, com a cumplicidade de sua diretora,
funcionários e professores? Será que gosta da escola? Será que sente orgulho
dos mestres que tem? Como será que vai repercutir esses fatos, em sua
formação? Na minha opinião, eles nem sequer se manifestam porque, desde
crianças interagem com um ambiente onde ninguém está comprometido com
resultados e, eficiência, por isso, não demonstram claramente seu desencanto
com a escola que frequenta. Mas, esse silêncio é muito, muito eloquente.
Existe uma corrente muito grande de pensadores, ativistas e políticos que
querem transformar o sistema de ensino ruim atualmente estabelecido numa
outra coisa: a chamada escola de tempo integral. Atrás desse nome
aparentemente anódino e promissor, se esconde uma idéia bastante
questionavel: a do suposto combate ou inibição dos chamados riscos sociais a
que são submetidas as crianças e adolescentes de baixa renda, através de sua
manutenção em tempo integral, na escola.
Em primeiro lugar, ninguém avaliou os custos de tais medidas, que significa na prática: mais despesas com a contratação de servidores e professores, mais despesas com alimentação, material didático ou de apoio e, mais gastos com água tratada e energia elétrica, no mínimo - pergunta-se: quanto custa a implementação desse projeto e, quem paga a conta (como se eu e você não soubéssemos) .
Em segundo lugar, ninguém diz ao certo, o que essas crianças vão fazer na
escola, depois do período de aulas curriculares - reforço, dizem uns,
atividades complementares, dizem outros. E lá vamos nós, questionando se não
seria melhor encarar de frente, o problema da proposta e qualidade de ensino
ofertada à população à custa de impostos e, qual seria, exatamente, o o
efeito didático das tais atividades complementares e, se essas são melhores
do que o convívio da criança com a família e, seu lar.
E aqui, chegamos ao ponto mais interessante: muita gente vende essa idéia
como uma forma safada de garantir aos pais o descanso da consciência sobre o
destino dos filhos, enquanto cumprem sua jornada de trabalho. Ou seja, à
parte o ensino, as escolas se transformariam numa espécie de creche para
crianças e adolescentes em idade escolar custeada pelo contribuinte,
chamando para si o papel e a obrigação que é dos pais.
Me impressiona como no Brasil, querem empurrar ou responsabilizar o Estado
pelas responsabilidades do indivíduo. Todo mundo que acompanha o noticiário
sabe no que resultou a implementação da chamada escola de tempo integral, no
do Rio de Janeiro, desde os tempos de Brizola... Mas, os ativistas da
educação, os militantes de movimentos populares e políticos vão em frente,
defendendo essa idéia irresponsável (aí, incluido o Senador por Goiás,
Demóstenes Torres, em quem votei).
Lugar de criança, sem dúvida, é na escola - mas, olha lá, no horário letivo.
Depois disso, não conheço lugar melhor que sua casa, seu mundo familiar,
onde deve ficar sob a vigília e a orientação dos pais - ou, alguém da
família, em seus lugares, que lhe deve noções básicas sobre a sua relação
consigo mesma, com o mundo e com os outros...
Sócrates ensinava aos discípulos numa praça pública ou, à sombra de uma
árvore. Hoje em dia, em muitos países do chamado terceiro mundo, a despeito
da gritante falta de material didático e estrutura, as crianças conseguem
com tranquilidade absorver o ensino básico. Pois bem, pelo menos quanto às
escolas públicas mantidas pelo Estado que conheço, sua estrutura física e
humana parece bastante razoável, se não muito boa. Esse negócio de escola
aberta, escola solidária e sei lá, mais o que, não passa de desvio de curso,
de fuga da responsabilidade.
Para mim, o negócio é parar de inventar histórias para disfarçar o fracasso
e a falta de coragem e, fazer a escola pública mantida pelo Estado cumprir
sua função básica, isto é, ensinar muito bem as crianças que a frequentam
(para fazer valer o seu custo e, o dinheiro do contribuinte). Se isso
acontecer no Brasil, não tenho dúvidas de que, acontece uma revolução e, a
alavancagem de nosso desenvolvimento social e econômico.
O que falta? Vontade, compromisso, objetivos e, coragem para implantar um
ensino de qualidade - e isso começa no gabinete do governante e acaba na
sala de aula (com o professor dentro, pra variar).
Quando comecei a estudar, fui fazer o pré, numa escola rural a cerca de quatro quilômetros da casa onde morava, na zona rural (distância que a gente percorria a pé, todo dia, alegremente). A escola tinha turno único e, em cada fileira, uma turma, do pré escolar até a quarta-série. O professor, era também secretário e merendeiro. Mas funcionava - os alunos aprendiam os rudimentos do português, da matemática, de história e geografia. Pelos simples fato de que o saudoso professor João Teixeira ia lá, todo dia nos ensinar e, não confundia humildade com determinação.
Se Gyn
O
papel da escola como fonte de afirmação da cultura e da identidade: Currículo
Escolar em questão.
Mirian Cristina Ubaldo
Todo educador reconhece a grande dificuldade e o desafio que é desenvolver e aplicar nas escolas espaços pedagógicos que trabalhem atividades voltadas à valorização da multiplicidade de identidades que formam o povo brasileiro.
Para Moura (2001), este espaço deve ser criado por meio de um currículo reflexivo, que leve o aluno a conhecer suas origens, saber quem são e desta forma reconhecer-se como brasileiro. Este currículo deve levar o aluno a valorizar sua cultura orgulhando-se de sua história sem nunca negar sua identidade como muitos brasileiros fazem.
O esquecimento premeditado e consciente da própria cultura acontece muitas vezes em razão da escola não oferecer meios para que o aluno conheça sua história percebendo o papel dela na formação cultural e social do país. Repensar o papel da escola como bem sua função e sua importância na afirmação cultural dos diferentes povos do nosso país, é uma atitude urgente a ser tomada não só por educadores, mas por todos os seguimentos políticos. Para reconhecer isto basta observar a realidade social e educacional em que o Brasil se encontra.
De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apesar de 45% a população brasileira ser mestiça compondo a maioria do povo trabalhador e contribuindo para o desenvolvimento econômico do país, através de sua história, como afirma Moura (2001), ainda se encontra na classe dos menos favorecidos e discriminados socialmente.
A cultura dos povos brasileiros principalmente das comunidades negras rurais vem sendo banalizada ao longo do tempo e nós educadores somos grandes responsáveis não passando aos nossos alunos a importância das tradições. Estamos matando o passado de um povo e um povo sem passado é um povo sem identidade que se deixa marginalizar continuando a sombra da sociedade constituindo esta aceitada minoria de menos favorecida.
Moura (2001), em pesquisa realizada nas comunidades quilombolas de Minas Gerais, Maranhão, e Rio Grande do Sul constatou a existência de uma vivência de identidade baseada na «cultura do contraste» onde a cultura das festas é o objeto usado para sua elaboração e aquisição. É com estas festas que os quilombolas afirmam de maneira vigorosa sua diferença e é através desta afirmação da identidade que eles reivindicam o direito de viverem de seu trabalho quase sempre do campo e artesanato, vivenciando sua fé com danças, cantos e práticas de devoções.
Em sua pesquisa Moura (2001), buscou analisar a importância das festas quilombolas na transmissão e internalização dos valores culturais e sociais que possibilitam a afirmação e a expressão da diferença permitindo desta forma a inserção das comunidades negras na sociedade de maneira significante.
Desde o planejamento à execução e avaliação das atividades e tarefas comunitárias as crianças permanecem ao redor dos adultos numa interação natural e descontraída. As festas ao fazerem parte do contexto cotidiano, tornam-se um veículo informal de transmissão do saber que é assimilado aos poucos ao mesmo tempo em que possibilita uma reflexão sobre as necessidades de mudanças e adequação às condições dos novos tempos sem romper com sua essência.
Desta forma constitui-se a existência de um currículo invisível segundo Moura, por meio do qual são repassadas através das gerações as normas de convívio comunitário. O currículo invisível ao ser desenvolvido sem uma intenção explicita oferece às crianças o conhecimento que elas precisam sobre suas origens, o valor de seus antepassados, o contexto presente e as expectativas para o futuro, fazendo com que elas valorizem a cultura de seu povo não deixando a sua identidade perder-se no tempo.
É notória a seriedade das festas nas comunidades quilombolas que lutam segundo Moura (2001), com alegria, mas de maneira contextualizada e compromissada para viver o momento presente sem esquecer o passado, alegria esta duramente conquistada.
As festas nas comunidades negras estudadas por Moura passaram a ser ao longo da história uma educação informal extremamente importante na formação das identidades no processo de ensino aprendizagem. Esta maneira de trabalhar a educação informal, currículo invisível, possibilita que o aluno conheça a história de seu país, a importância de sua cultura e sua formação étnica, o que raramente acontece nas escolas tradicionais e que poderia ser mais bem aceita na educação formal.
A grande diferença destacada por Moura (2001) entre a transmissão do saber das comunidades negras rurais pesquisadas e das escolas tradicionais é que enquanto, no primeiro caso o processo de aprendizagem como fruto da socialização procede de maneira informal e espontânea, na escola tradicional o saber não esta pautado na experiência do aluno como também não é levado em conta os diferentes valores culturais presentes na sala de aula.
O ensino neste caso é sistematizado, imposto como único e as historicidades que formam o contexto de origem destes alunos não servem de referência na formação do currículo. Desta forma a educação formal pode criar um sentido de exclusão para o aluno ao invés de facilitar a sua construção de identidade e a afirmação de sua cultura por não conseguir estabelecer uma relação lógica entre os conteúdos que lhe são ensinados e sua experiência pessoal e familiar de vida.
Nas comunidades quilombolas como afirma G. Moura (2001-pag.64), [... as crianças se identificam positivamente com tudo que esta acontecendo a sua volta, como condição de um saber que os forma para a vida].
A importância da vivência do aluno fora da escola, esse saber que lhe é transmitido pelas gerações, ou seja, a educação não formal e sua importância como papel educativo vem sendo enfatizada à várias décadas por diferentes correntes pedagógicas, mas este discurso cai por terra quando posto em pratica.
O que encontramos na realidade, no lugar de currículo invisível como o dos quilombolas é a existência de uma didática estritamente formal onde o conhecimento válido é aquele construído especificamente para ser «transferido», um conhecimento de igualamento, ou seja, ao entrar na escola as vivencias, experiências e cultura de cada criança deixam de existir e todos aprenderão à mesma coisa da mesma forma, aprendizado este que já esta pronto não foi construída com a participação da parte mais interessada – o educando.
Não pretendo aqui afirmar que a forma ideal de transmissão do saber é a das comunidades negras rurais criticando os demais currículos sem nada oferecer em troca para reflexão, mas que certamente existe nelas um forte aprendizado para nós educadores, isto é inegável.
Se buscarmos com atenção as lembranças que trazemos de nossa infância como as brincadeiras de roda, as conversas de comadre, os contos e causos que nos ensinaram muito sobre regras, valores, condutas e muito mais, entenderemos como as crianças aprendem com mais alegria e de forma prazerosa se associarmos o que elas já sabem ao entrarem na escola com o que temos a oferecer.
O que precisamos para tal parece ser simples se dermos um salto da teoria para a prática: Uma didática com a proposta de enaltecer a cultura dos diferentes povos e comunidades que formam o nosso país possibilitando desta forma a criança aprenda desde cedo à importância de afirmar sua própria cultura e sua identidade valorizando os saberes que o passado lhe deixou como herança.
Ensinar é aprender. Ensinar não é transmitir conhecimentos. O educador não tem o
vírus da sabedoria. Ele orienta a aprendizagem, ajuda a formular conceitos, a
despertar as potencialidades inatas dos indivíduos para que se forme um consenso
em torno de verdades e eles próprios encontrem as suas opções.
Ivone Boechat
Bibliografia:
MOURA, M. G. V. . Direito à diferença. In: Kabengele Munanga(org). (Org.).
Superando o racismo na escola. : Ministério da Educação, Secretaria de Educação
Fundamental, 2001, v. , p. -.
