BOBO E SUA CORTE
Marcelo Sguassábia
BOBO E SUA CORTE
Já reparou como os termos «Bobo» e «Tolo» têm sinônimos? Dentre tantos,
«Doidivanas» sempre me chamou a atenção. Acho que foi lendo algum romance de
cavalaria ou livro de Julio Diniz que vi a palavra pela primeira vez.
Recorri a um pequeno e nada confiável dicionário e encontrei lá:
«Doidivanas: o mesmo que Estouvado». Fui em «Estouvado» e li: o mesmo que
Doidivanas. Ou seja, o pai dos burros me fez de bobo.
Ser bobo vai além de ser otário. Tem também o sentido de ignorante, que
contempla como sinônimos uma extensa família de quadrúpedes: besta, asno,
jerico, jumento, jegue e simpatizantes. Sem falar da anta e da toupeira.

Fora do reino animal, um dos meus favoritos é «Bocó», quase um arcaísmo
atualmente. Melhor ainda é «Bocó de Mola», que sugere um upgrade na acepção
original (ou um downgrade, no caso).
Igualmente em desuso está o «Monte». Largamente empregado na zona rural de
São João da Boa Vista e adjacências nos anos 70, o vocábulo com toda certeza
é oriundo do sul de Minas. Não sei se continua vigendo. Monte é,
basicamente, o mala de hoje. Tem o significado de empecilho, estorvo que
fica no meio, atrapalhando tudo e empatando a f...
Vamos ao «Tonto». Ele é parecido com o bobo, mas não é a mesma coisa. O bobo
é menos bobo que o tonto. Historicamente o bobo tem ofício definido. Como
todos sabem, era ele quem divertia os reis nas cortes medievais. O tonto,
por sua vez, é um Mane-Quarqué (que me perdoem meus leitores Manoéis ou
Manuéis), um «Girolas» inofensivo. Por falar em Mané, há que se mencionar
aqui os derivativos «Mané-Coco» e «Mané-Jacá», além do conhecidíssimo «Mané-Patola»,
a quem algumas populações ribeirinhas denominam simplesmente de «Patola».
Temos ainda o «Boboca», que imagino um semi-bobo, aspirante a bobo ou algo
que o valha. é mais do que um bobinho, mas é menos que um bobo 100% genuíno.
Na mesma classe estão os «Parvos», a bradarem suas parvoíces em qualquer
tempo e lugar.
A letra «P» é rica em sinônimos de lesos: temos, entre outros verbetes,
«Palerma», «Paspalho» e «Pateta» – todos com sentido semelhante e QI idem.
Na letra «T», além do tolo e da toupeira já citados, encontramos o «Tapado».
Por analogia, podemos caracterizá-lo como um surdo-mudo neurológico. Nada é
capaz de permear sua couraça obtusa. Pra cantar a «Florentina» do Tiririca
ele precisa olhar a letra.
Capítulo à parte merecem o «Doido de Pedra» e o «Doido Varrido», mas não
serei eu o maluco a atribuir-lhes o sentido. Só imagino um
napoleão-de-hospício esculpido em mármore e um serzinho com camisa de força
se debatendo entre ramos de piaçava.
O «Abestado» é tão inclassificável que nem é aceito pelo Aurélio. O insigne
dicionarista o cataloga como «Abestalhado» – que particularmente considero
um tanto quanto articulado para o caso. Abestado é infinitamente mais besta
que abestalhado, concorda?
Muitos termos possuem a mesma raiz etimológica, mas gradientes peculiares de
significado. Compare «burro» e «burraldo». O leitor logo perceberá que o
burraldo puxa a carroça com mais força. O burraldo é o burro xucro,
incorrigível, que deixa o rastro das ferraduras por onde quer que passe. O
burro é menos pretensioso na escala búrrica - de vez em quando é capaz de
falar coisa com coisa. Muito de vez em quando, mas é.
«Babaca» e «Panaca». Mesmo que a grosso modo não pareça, entre eles há uma
notável diferença. A grafia semelhante esconde na verdade um abismo
conotativo. Explico: o panaca é mais lorpa que o babaca. Panaca ri das cenas
de torta na cara; já o babaca não acha mais graça nisso, não. Na escala
evolutiva, está um degrau acima do panaca. O máximo que o babaca faz é
chifrinho nas fotos de festa de aniversário, embora afirme aos mais chegados
que já abandonou o vício.
Pouca gente se dá conta, mas «imbecil» e «idiota» não são propriamente
xingos. Idiotia e imbecilidade são estados psíquicos – patologias
catalogadas e estudadas pela psiquiatria moderna. Psiquiatria que já vem se
debruçando sobre os «Seqüelados» e os «Sem-Noção» – neo-zuretas desse insano
início de século 21.