LUIZA NETO JORGE
Por Liliana Josué
Falar sobre grande parte das escritoras das décadas de 60/70 é algo complexo, na medida em que se afirmaram num tipo de escrita muito direccionada para a emancipação feminina, por sua vez bastante voltada para o campo sexual. Não que este factor em si traga grandes dificuldades, mas sim pela complexidade de linguagem.
As décadas de 60/70 foram propícias à afirmação feminina, pois a mulher
encontrava-se faminta de liberdade, visto ter sido sistematicamente calada
pelas sociedades e civilizações opressoras em que viveram.
Em pleno século XIX o homem ainda podia exercer violência sobre a esposa, a
qual lhe devia obediência em absoluto.
Uma mulher trabalhar fora de casa era era mal visto, só em extrema
necessidade o fazia. Se fosse solteira ainda tinha algumas atenuantes, mas
depois de casada a questão tornava-se problemática, e caso trabalhasse a sua
obrigação era subservientemente entregar o ordenado ao seu marido.
Já no século XX surge a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; mais
precisamente no ano 1909 com a médica Adelaide Cadete a a escritora Ana de
Castro Osório, exigindo a revisão do código civil. Mais tarde, com o Estado
Novo aparece a grande jornalista feminista Maria Lamas, afirmando-se na
tentativa de dar um maior esclarecimento e educação às mulheres de todo o
país, mas Salazar não apoiou tal iniciativa, continuando a mulher na
dependência masculina. Por muito que hoje nos impressione, ela não tinha
permissão de possuir passaporte próprio, nem viajar para o estrangeiro sem
autorização do marido, mesmo que se encontrassem separados.
Por volta de 1966 notaram-se algumas melhorias, a mulher casada já conseguia
exercer uma profissão liberal sem necessitar da autorização do marido, e
dispor do seu salário, mas, se ele quisesse podia acabar com o trabalho da
esposa, através de um pedido de cancelamento do contracto, sem que ela
tivesse possibilidade de se opor.
Em 1968 a mulher consegue finalmente o direito a voto, menos em eleições
municipais. A razão dessa limitação desconheço. Talvez possa ser tema para
um futuro trabalho.
Só a partir de 25 de Abril de 1974 é que a mulher atingiu a sua emancipação
total com plena igualdade de direitos. No entanto sabemos que ainda hoje
essa igualdade não foi atingida plenamente.
A minha introdução serviu para aqui lançar o nome duma escritora que muito
se debateu pela emancipação da mulher: Luiza Neto Jorge.


Esta escritora nasceu em Lisboa a 10 de Maio de 1919 e faleceu na mesma cidade a 23 de Fevereiro de 1989. Cursou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa. Entre 1962 e 1970 viveu em Paris, cidade eleita por muitos artistas de várias épocas visto ser sinónimo de novos horizontes.
Pode ouvir a poesia de Luiza Neto Jorge e ler o texto.
Pode considerar-se uma escritora de estilo vanguardista, onde a simbologia é
muito utilizada, mas não como anteriormente pelos simbolistas puros (Camilo
Pessanha), onde se encontra o metafórico no seu expoente máximo de duplo
sentido idealizado. Na poetisa o símbolo aponta para algo concreto, e nisso
ela foi uma exímia precursora. Escreveu vários livros de poesia, escreveu
para o cinema, teatro e fez várias traduções.
Tinha uma forma muito peculiar de «informar» qual era a sua morada. Segundo
ela, a sua casa era o local onde se sentia integrada como por exemplo: A Rua
que se chamou Mundo, a cidade de Silves, Faculdade de Letras, Maio de 68 e
outros.
MINIBIOGRAFIA
Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um Deus para tudo de alto
Mas záz! Do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.
(...)
A CASA DO MUNDO
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
(...)
Pertenceu ao grupo que concebeu o projecto Poesia 61 que consistia numa
Antologia com poemas de vários autores inseridos na mesma linha de escrita e
pensamento como: Fiama Hasse Pais Brandão e Maria Teresa Horta. Estes
escritores tinham a necessidade do verso trabalhado, sem características
discursivas. Os seus trabalhos apresentavam uma noção de estética notória.
A poetisa ainda sofreu influências surrealistas mas, ao mesmo tempo, com
muito lirismo pelo meio, nada tendo a haver, no entanto, com a escrita
romântica. Nesta o sentimento é a base prioritária do poema, em Luiza Neto
Jorge esse aspecto é rejeitado; o íntimo da escritora tende a ser
interiorizado expondo-se apenas numa escrita subjectiva e imagética. Também
não é uma escritora discursiva, mas é narrativa no seu modo muito próprio;
muito pessoalizado, como se pode constatar num dos seus poemas da obra «A
Noite Vertebrada».

5 POEMAS PARA A NOITE INVARIAVEL
III
Noite única noite singular impressa
consagração das chuvas e das flores violadas
dos pássaros algemados em voo
dos silêncios por amor à voz
das alquimias pobres alquimias de oiro
das turbinas de aço onde as espadas escorrem
crescem árvores mais definitivas
pálpebras trémulas da noite
é o muro que eu recrio a cal sem vazios diários
todos de verdade nós todos férteis salvos
todos veias claras nós sementes
nós o susto fecundo de vivermos
nós os números e as letras e os desenhos
ah matem-me de noite punhais híbridos
sentinela das fronteiras extintas
sentinela última da noite
No que respeita à influência da escrita automática surrealista, esta pode ser constatada, por exemplo, quando descreve partes do corpo, amimais ou pinturas, portanto nas coisas aparentemente concretas.
A LINGUA
A língua
que é líquido
sacro
não transborda
um dedo
que tocou
a palavra
não a aborda
Deixo aqui uma nota de destaque: o Surrealismo e o Neo-Realismo foram
contemporâneos, mas mas o Neo-Realismo foi ultrapassado pelo Surrealismo,
pois a linguagem directa entrou em desuso enquanto que a menos explícita
continuou a vingar, e Luiza Neto Jorge foi um perfeito exemplo disso.
Os críticos literários e escritores consideram o trabalho desta poetisa uma
arte silenciosa, e a principal razão é o facto de ser muito erotizada, pois
a comunicação sexual entre homem e mulher é expressa principalmente no
silêncio. O leitor atento pode constatar tal evidência ao deixar-se enredar
na sua leitura. Assim, tentar explicar este silêncio torna-se um trabalho
árduo. Podemos opinar, sentir a nosso modo, mas tudo o que ultrapasse esta
tomada de posição pode tornar-se um mero trabalho especulativo.
Neste género de escrita não encontramos poemas sociais ou intervencionistas,
catalogados assim numa primária interpretação destes estilos. A revolta
dá-se sim mas na inovação literária; o explícito é rejeitado em absoluto
assim como o aspecto ético.

POEMA INTEGRADO NA OBRA «O CICLOPICO ACTO»
Chorar ou rir? Um medo tal!
Descobrir um rastro, outra versão de, às cegas
outro corpo onde se expanda. Deseja-o
por exemplo e ele não pode – parece-lhe -
parar so-
cialmente. Postado na rocha
hipnotizando o mar acrílico.
É uma solidão (orgíaca) a de ambos
(querê-la!) impele-a, hasteia-o
(querê-lo! requerê-la!)
Tu mesmo aéreo, em tuas altas partes.
De perto vigiando o ar: o avião de Troia.
Absorvente e absorto; inspirador e expirante
... uma solidão (bis)
Não podemos esquecer que Luiza Neto Jorge também lutou por um ideal e apregoo-o na sua poesia: é ele a emancipação da mulher através do sexo. A sua tomada de posição baseia-se no facto desta ter de deixar de ser apenas um ser desejado e passar para o campo do ser desejoso, sem tabús, em pé de igualdade com o homem, afinal ambos são seres humanos, assim sendo a mulher tem a obrigação de superar todo um passado de sujeição, principalmente a nível sexual e demonstrar sem rodeios os seus instintos.
METAMORFOSE
Quando a mulher
se transformou cabra
marés anuíram
ao ciclo recente
das águas
ah
as bombas
desceram em paraquedas
antes dos homens
Esta é a revolta
a metamorfose
onde
equinócios mecânicos
abortam filhos
(...)
Foi quando a mulher
se fez cabra
no compasso de fúria
contra a batuta
dos chefes de orquestra
que escorrem notas
dos gritos da música
Fez-se cabra
desatenta de origens
cabra com fardo de cio
no peso das tetas
cabra bem cabra
adoçando a fome
na flor dos cardos
(Quando a cabra
voltar mulher -
a ressurreição) -
Há ainda um ponto muito curioso em relação a esta escritora. Ela desenvolveu a sua teoria sobre a emancipação feminina através de símbolos caracteristicamente masculinos (aqui podemos observar a mulher como ser desejoso).
O POEMA (DA OBRA «TERRA IMOVEL»)
I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
Muito mais haveria para dizer sobre Luiza Neto Jorge de quem se tem falado tão pouco. Penso que é um grande valor da nossa literatura que tem sido sistematicamente esquecido como tantos outros, por isso me propus dá-la a conhecer a quem ainda não a leu e relembrá-la aos esquecidos.
O ano secou.
Subi leve à nascente
que falece.
Descesse, e era
o mar.
16/07/2010
Liliana Josué
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