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Poesia de Conceição Tomé
Raízes; Planeta Feroz; Ai de mim
Raízes
Não fosse uma alta barreira
Mesmo à beirinha da estrada
Que me impede de subir
Ao mais alto do lugar,
Como Milhafre eu pairaria
Para perscrutar o passado
E então de novo veria:
Os campos de milho verde,
Os vinhedos bem alinhados
Com os seus cachos dourados,
Os lameiros de erva luzidia
Como se estivessem iluminados.
As árvores onde eu subia
Quando nelas descobria
Alguns disfarçados ninhos,
Só para ver os passarinhos.
O regato escabroso e murmurante,
O canto da Poupa, da Cotovia
E do Rouxinol,
- Esquivos, que eu nunca via.
Os campos matizados de flores
Numa explosão de mil cores,
Que meu olhar avidamente sorvia.
O bailado das copas dos pinheiros
Sempre que o vento passava
E eu em delírio acompanhava,
Rodopiando e gargalhando.
Os meus pés descalços sobre a terra,
Num folguedo mais azougado.
Ah! Como voltaria de bom grado
A esse saudoso passado.
São Tomé
x
Planeta Feroz
Vivemos num planeta feroz
Que manifesta toda a violência
E a sua vingança contra nós,
Através de cataclismos,
Arremessando-nos terramotos,
Tornados, secas, furacões,
Dilúvios, nevões, maremotos,
Lavas e cinzas de vulcões.
Mas, nada disto é mais atroz
Que a destruidora humanidade,
Na ganância da sua actividade
Com indústrias poluentes,
Lixos tóxicos e o derrubamento
Sem controlo das florestas,
Guerras químicas e nucleares,
Tudo isso para satisfazer
A desmedida ambição
Sem demonstrar compaixão,
Apenas negligência e vaidade,
Ao serviço da maldade.
E para quê?...
Se quando o planeta se enfurece
Reduz-nos a cinzas e destroços!
São Tomé
x
Ai de mim
Sonhos
Que não sonhei,
Amores
Que não senti,
Ilusões
Que não vivi,
Desejos
Que não desejei.
Ai de mim…
Se de mim não sei,
Ter pena de mim
Não consigo,
Chorar por mim
Nunca chorei,
Mas já de mim,
Muito aos outros dei.
São Tomé
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