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EDIÇAO NºLXI , III NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

 

 

 A Peixada

 

 

Por alguns anos vivi numa cidade praiana e portuária, com uma população de trinta mil habitantes. A indústria, o comércio e o porto davam manutenção ao município. Neste local as pessoas conhecem-se com facilidade, desde os tempos antigos, porque convivem nos empregos, cruzam-se nas ruas, vêem-se nas igrejas, no futebol e nos clubes.

Um jovem conhecido no bairro e na cidade pelo bom futebol que jogava, devido ao seu estilo, corpo e cor, chamava-se Euzébio. Sempre que o time em que jogava era vencedor, era costume festejar a vitória acompanhada com bebidas, a cerveja liderava.

Como o sósia de Euzébio gostava de festas e de ingerir algumas, sempre dizia que era pelos gols que marcava. Lá pelas tantas já não atendia mais pelo nome e sim por Euébrio. Como quem nasce para burro morre puxando carroça, Clèsio era o nome da fera.

Convite de times de futebol profissional de outras cidades e Estados nunca faltaram-lhe. A idade foi chegando e Clésio resolveu ser marítimo. Viajava para fora do país, passava mais de um ano fora de casa, e quando voltava era só festa. Muitos amigos atendiam ao convite, também pela situação financeira estabilizada de Clésio.

No dicionário dele não existia a palavra casamento, embora sua mãe sempre o aconselhasse a ter uma família. Como gostasse de pregar algumas peças nos amigos, fez o convite para servir uma peixada na casa dele. Sua progenitora conhecia bem a seus companheiros e colaborava com seu filho.

Algumas dúzias de cerveja, caipirinhas à vontade, seria um jantar para dezoito amigos. Lá pelas 22.00horas, com todos presentes, começou a ser servida a caipirinha e a cerveja. Tinha música ao vivo.

Lá pelas tantas, a fome dos presentes já era grande. E ninguém sentia aquele cheiro bom de peixe que se sente quando o pescado está na panela.
Um amigo da casa perguntou:
- Não vai servir o peixe?
Foi quando Clésio falou:
- Mãe, põe a mesa.

A mesa apareceram 18 latas de sardinhas abertas e bastante pão, com o acompanhamento da cerveja. Foi tudo devorado rapidamente. A mesa foi retirada e os convidados pensavam que aquilo era somente uma entrada para tira - gosto.

O samba continuou e veio uma pergunta:
- Pois, sim, Clésio, não vais servir a peixada?
Ele olhou para todos com ar de riso, respondendo:
- Garanto que vocês nunca comeram uma peixada igual a esta. E, outra coisa: Sou marítimo mas não sou pescador e não tenho peixaria.

Se vocês querem aquela peixada, façam um rateio, tragam aqui em casa que será servido o que vocês vieram aqui para comer. Muitos risos, fim de festa e retorno para suas casas. No dia seguinte o comentário era grande:
-O Clésio ofereceu uma grande peixada para a turma, que chegou com apetite e saiu com muita fome. Uma lata de sardinha para cada um dos presentes não dá nem para fechar o buraco do dente.

Quando você tiver um amigo especial que gosta de pregar peças, se ele lhe fizer um convite, cuidado: pode ter surpresa!

 

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