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CORONEL FABRICIANO
076 – O Vera Cruz - 131 – Serigrafia - 094 – O Cantor
BENEDITO FRANCO
- Hoje em dia, democracia e aristocracia se confundem: alguns governando para
alguns... E nós no meio, sendo espoliados e massacrados por uma das duas!
- Comunismo está numa ponta e a 180 graus fica o imperialismo... E nós no meio,
sendo espoliados e massacrados por um dos dois!
076 – O Vera Cruz
Quando chegou da Europa, minha irmã Celma – especializou-se em hematologia na Universidade Livre de Bruxelas, Bélgica - e eu pegamos o trem Vera Cruz do Rio para Belo Horizonte.
Eu achando o máximo o nosso melhor transporte ferroviário no Brasil, e ela
morrendo de medo com todo aquele barulhão infernal saÃdo das rodas, engrenagens
e trilhos do nosso maravilhoso trem! Deu-lhe um medo, a ponto de ela tremer e se
encolher no banco, acostumada que estava com os trens europeus. E eu receoso
dela passar mal.
Minha, ou nossa, salvação foi o passageiro em nossa frente que, ouvindo as
lamúrias da Celma, virou-se para trás tranqüilizando-a – o gentil cavalheiro era
justamente o engenheiro de segurança da Central do Brasil, a dona do pedaço!
Nessa viagem, a Celma contou-me sobre a pesquisa realizada por ela nos
laboratórios da Universidade, conseguindo, pela primeira vez, a determinação do
sexo da criança antes de seu nascimento – inexistia o ultra-som. Pena que ela dá
pouca importância a essa sua descoberta, apesar de ter saÃdo em vários jornais e
revistas, não só do Brasil, mas de vários paÃses – uma das maiores reportagens
de O Cruzeiro, a principal revista do Brasil, e entrevista ao vivo no Programa
do Flávio Cavalcante, na TV Tupi, RJ.
131 – Serigrafia
No Rio, morava no Catete, bem perto da Lapa, um dos bairros mais antigos do Rio,
conhecido principalmente pela boemia.
No meio dessa boemia situava-se a ACM – Associação Cristã dos Moços - que na
época de minha estadia no Rio era muito frequentada pelos jovens, principalmente
por causa dos esportes e pequenos cursos a preços módicos.
Frequentei o curso de saltos ornamentais, por um mês. Depois cheguei à conclusão
que de peixe nada tenho. Valeu pelo menos para eu seguir, com curiosidade,
interesse e algum conhecimento, as competições nas piscinas internacionais.
Outro curso feito e terminado foi o de serigrafia - silk - screen. Estava na
moda dar flâmulas, até para os amigos. Muitas propagandas feitas hoje em canetas
esferográficas, naquele tempo usavam-se flâmulas de diversos tipos, tamanhos e
cores. Em toda competição esportiva havia a troca de flâmulas, cada clube
esmerando o máximo em sua apresentação.
A escrita, ou impressão, através da seda foi inventada pelos chineses há mais de
três mil anos atrás. Hoje se usam filmes fotográficos, computadores, tintas de
última geração; quando aprendi, utilizavam-se filmes feitos em panos comuns, a
seda em casos especiais, e goma laca para as faixas grandes – ainda bem que se
modernizou.
094 – O Cantor
No Rio, as aulas do Curso de QuÃmica terminavam à s 23.30h. Para a Escola ia eu a
pé, e para voltar pegava o bonde que passava pelo Largo do Machado – morava no
Catete. No Largo, um dos melhores cines do Rio, e talvez o maior: o Cine São
Luis.
Numa das noites haveria uma avant - premiere de um dos famosos filmes de
Hollywood, com a mais famosa das estrelas do cinema, na época, a Sofia Loren –
um monumento de mulher. Contudo, quem apareceu para a avant foi o protagonista
do filme, também famoso – não tanto quanto, mas famosÃssimo. Tenho boa memória,
mas nomes de pessoas não os guardo – ainda mais artista americano, apesar de
nossas televisões nos bombardear, dia e noite, com notÃcias e esses nomes
americanos.
Os bondes paravam exatamente em frente ao Cine São Luis - ao lado uma imensa
garagem e oficina da Light – a concessionária da luz e dos bondes.
Naquela noite, já na ida para a Escola, deu para notar o enorme movimento de
gente nas mediações do Cine São Luis. Na volta, mais confusão ainda, pois
exatamente no horário do término do filme. O tal artista, acompanhado e
protegido por alguns militares, saÃa do Cine. No momento que o bonde iria parar,
os militares, encurralados pelo povo, simplesmente empurraram o artista para
cima do bonde, no banco em que eu me assentava, ordenando ao motorneiro a seguir
– os militares se colocaram nos estribos, não permitindo alguém subir.
A uns duzentos metros na frente, ouço alguém cantando um trecho de uma ópera -
Nessum dorma de Turandot de Puccini. Aquilo chamou mais atenção que o artista
hollywoodiano! A voz me era conhecida. Virei-me para trás... e quem vejo? O
Afrânio Castañon, antigo colega do Seminário em Congonhas – quando me viu,
começou a cantar a todo pulmão. Assustou os soldados. O astro admirou e gostou.
Os passageiros e eu, por instantes, nos esquecemos do artista e apreciamos o
belo canto!
O Castañon, além de um grande tenor, era o solista de nosso coro, e sua voz,
quando cantávamos na enorme e maravilhosa Matriz de Nossa Senhora da Conceição,
encantava a todos os fieis e enchia o ambiente – a Matriz está abandonada,
caindo aos pedaços, como, de uma maneira geral, as obras de arte em nossas Minas
Gerais – principalmente nosso barroco.